Prêmio Jabuti de Livro do Ano em Não Ficção 2010 A psicanalista e escritora Maria Rita Kehl parte da suposição de que a depressão é um sintoma social contemporâneo para desenvolver os três ensaios que compõem seu novo O tempo e o cão, a atualidade das depressões. Escrito a partir de experiências e reflexões sobre o contato com pacientes depressivos, o livro aborda um tema que, apesar de muito comentado, é pouco compreendido e menos ainda aceito atualmente. Para abordá-lo, Maria Rita faz um apanhado do lugar simbólico ocupado melancolia, desde a Antigüidade clássica até meados do século XX, quando Freud trouxe esse significante do campo das representações estéticas para o da clínica psicanalítica. Para “Freud privatizou o conceito de melancolia; seu antigo lugar de sintoma social retornou sob o nome de depressão.” O livro toca também na relação subjetiva dos depressivos com o tempo, chamado pela autora de temporalidade. Para a construção deste pensamento, são utilizados conceitos dos filósofos Henry Bergson e Walter Benjamin, ambos dedicados à reflexão sobre essa questão. A clínica das depressões do ponto de vista da psicanálise está presente no terceiro ensaio, a começar pelo estabelecimento das distinções fundamentais entre a depressão e a melancolia. Aqui, a autora busca estabelecer as diferenças entre a posição subjetiva dos depressivos e as circunstâncias que determinam episódios pontuais de depressão nos obsessivos e nos histéricos. Reconhecida pela longa e compromissada trajetória profissional, Maria Rita Kehl lança seu segundo livro pela Boitempo Editorial. Acessível e profundo, O tempo e o cão desperta o interesse não somente daqueles que têm relação direta com a psicanálise, mas também de quem deseja compreender a fundo a ação dos mecanismos sociais sobre a subjetividade humana.
Maria Rita Kehl é psicanalista, formada em psicologia pela USP. Mestra em Psicologia Social pela USP e Doutora em Psicanálise pela PUC-SP, também é ensaísta e jornalista.
Levei umas boas semanas para ler e digerir esse livro. Muito muito bom, me trouxe muitos ensinamentos e reflexões não apenas sobre a depressão, mas a melancolia, dentre outros temas. Pra ser lido com calma, enquanto pesquisa alguns temas que ela levanta.
A perspectiva do livro é tratar a depressão como sintoma social, entendendo ela como resultado das mudanças sociais em nosso tempo, que levam a uma passagem de um século em que imperam as neuroses (séc. XX) para a prevalência das depressões. Kehl segue uma tradição benjaminiana pra falar da depressão como diferente da melancolia em Freud - melancolia freudiana ta associada ao campo das psicoses, enquanto a benjaminiana seria uma escolha no interior das neuroses. A depressão seria, quando aparece como estrutura, uma escolha no interior das neuroses de recuo diante do enfrentamento do pai, ou da lei. Mas tambem aparece como estado depressivo, nas neuroses obsessivas, histericas, ou outras estruturas.
Gosto muito da maneira como ela pensa a relação do depressivo com o tempo. Como se fosse um sujeito que não teve o intervalo de tempo necessário pra estar em desamparo e criar algo pra si. Acho que diz muito da nossa ausência de intervalo subjetivo na contemporaneidade (e ela nem entrou no problemão que são as redes, nesse sentido).
Não ficção de leitura complexa. A autora utiliza muitos termos técnicos, supondo que o leitor já tenha uma base consolidada sobre o tema, o que não é um defeito em si. Terminamos o livro sabendo um pouco mais da atualidade da psicanálise e sua interação com a “epidemia” de depressão. Leitura altamente indicada para quem entende que psiquiatra e saúde mental é uma ciência social.
“analisar o aumento significativo das depressões como sintoma do mal-estar social no século XXI significa dizer que o sofrimento dos depressivos funciona como sinal de alarme contra aquilo que faz água na grande nau da sociedade maníaca em que vivemos. que muitas vezes as simples manifestações de tristeza sejam entendidas (e medicadas) como depressões graves só faz confirmar essa ideia. as tristezas, os desânimos, as simples manifestações da dor de viver parecem intoleráveis em uma sociedade que aposta na euforia como valor agregado a todos os pequenos bens em oferta no mercado. do direito à saúde e à alegria passamos à obrigação de ser felizes. a tristeza é vista como uma deformidade, um defeito moral, cuja redução química é confiada ao médico ou ao psi. ao patologizar a tristeza, perde-se um importante saber sobre a dor de viver. aos que sofreram o abalo de uma morte importante, de uma doença, de um abuso físico, de um acidente grave, a medicalização da tristeza ou do luto rouba ao sujeito o tempo necessário para superar o abalo e construir novas referências, e até mesmo outras normas de vida, mais compatíveis com a perda ou com a eventual incapacitação.” dolorosa leitura. a parte sobre histeria também foi muito boa. é realmente muito difícil se olhar no espelho e se reconhecer
"analisar as depressões como uma das expressões do sintoma social contemporâneo significa supor que os depressivos constituam, em seu silêncio e em seu recolhimento, um grupo tão incômodo e ruidoso quanto foram as histéricas no século XIX. a depressão é uma expressão de mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibicionismo, e, como já se tornou chavão, do consumo generalizado. (...) os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, vêem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social de sua tristeza. os depressivos correm o risco de ser discriminados como doentes contagiosos, portadores da má notícia da qual ninguém quer saber."
Prometi que só leria livros nos quais estivesse 100% presente, não divagando ou esperando que o final chegasse, então interrompi a leitura.
Não que seja devido a alguma falta de qualidade no livro - mas acho que ele não veio no momento em que eu precisava. Minha atenção queria outros temas, outras conexões. Admito que tenho dificuldade com certos conceitos da psicanálise, tanto por falta de entendimento como por discordância. Será que eu discordo por não entender? Talvez. Quem sabe um dia eu não retome a leitura...
Essencial para falar sobre depressões no contemporâneo a partir da psicanálise. A leitura é realmente mais complicada pra quem não tem um certo nível de familiaridade com a psicanálise, mas para os que já conhecem acaba fluindo bem. Sobre Maria Rita Kehl, nem tenho o que falar. Um primor! Deveria ser mais utilizada em uma perspectiva crítica da psicopatologia nas universidades, especialmente hoje com a prontidão da resposta diagnóstica na ponta da língua de vários.
Uma dica de leitura para quem se inicia em Psicologia e Psicanálise. Os conceitos psicanalíticos são apresentados de modo acessível, assim como a Filosofia de Bergson e de Walter Benjamin. Uma reflexão sobre a relação entre a aceleração do tempo na contemporaneidade e os fenômenos relacionados à depressão, inclusive aqueles casos em que se busca a medicação.
не помню когда последний раз я читала книгу в таком состоянии завороженности именно манерой мыслить автора. Это впечатлило даже больше содержания, наверное.
Тезисы о депрессии, которая развивается не от нехватки, а от, наоборот, такой насыщенности и бесконечных императивов наслаждаться и действовать и «быть собой», кажутся справедливыми
Livro sobre a condição depressiva na modernidade. O deprimido ou o melancólico se acovardam em relação à castração e no mundo moderno precisamos enfrentar numa difícil negociação a nossa própria história que termina inapelavelmente com a nossa aniquilação
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