A segunda investida poética de Saramago surge quatro anos após Os Poemas Possíveis. São poemas de sombra e de luz, entrançados, de uma elaboração feita através do seu próprio avesso, simultaneamente de mar e de trevas. «Devagar, vou descendo entre corais. / Abro, dissolvo o corpo: fontes minhas / De águas brancas, secretas, reunidas / Ao orvalho das rosas escondidas.» Poemas na altura inovadores, marcados pelo amor dito-escrito em transparências breves, imprecisas, e uma certa amargura-tristeza bem portuguesas, na sua raiz claramente lírica. A paixão parece sobrepor-se à militância: «Branco o teu peito, ou sob a pele doirado? / E os agudos cristais, ou rosas encrespadas / Como acesos sinais na fortuna do seio? / Que morangos macios, que sede inconformada, / Que vertigem nas dunas que se alteiam / Quando o vento do sangue dobra as águas / E em brancura vogamos, mortos de oiro.» E o erotismo faz, de forma decidida, a sua aparição em verso: «Teu corpo de terra e água / Onde a quilha do meu barco / Onde a relha do arado / Abrem rotas e caminho.»
José de Sousa Saramago (16 November 1922 – 18 June 2010) was a Portuguese novelist and recipient of the 1998 Nobel Prize in Literature, for his "parables sustained by imagination, compassion and irony [with which he] continually enables us once again to apprehend an elusory reality." His works, some of which have been seen as allegories, commonly present subversive perspectives on historic events, emphasizing the theopoetic. In 2003 Harold Bloom described Saramago as "the most gifted novelist alive in the world today."
Mal rocei o entendimento na maioria destes poemas. Andei por atalhos, perdi-me em labirintos de palavras, voltei atrás, entrei por campos de sombras para me encontrar novamente cara a cara com a minha plena ignorância. ...apesar das malogradas tentativas de discernimento, até gostei de andar perdida...enlevada...inábil...
Nem Sempre a Mesma Rima
"Bem couraçado na pele Não sou eu mas aparência E se me rasgo e me mostro Nem assim sou evidência
Porque os acertos de mim São cartas de paciência Baralho caído ao chão Levantado sem prudência
Sobre a mesa verde-negra Corre um jogo de demência Passo corto pego e bato Com um parceiro de ausência
Assim jogava e perdia Que perder é uma ciência A que a gente se habitua Sem temor nem violência
Agora que o vento arrasta As cartas e os vícios delas Ficaram-me as mãos libertas É manhã abro as janelas."
A short collection of short poems published in 1970.
Ponderances on love, eroticism, the sea, nature, a bridge, the body, a kiss, fire, stones, salt, art, Luís de Camões and many things sandwiched between “possibly” and “happiness.”
Reflective.
Tenho um irmão siamês e caminhámos sobre as águas como os deuses.
Sensuous.
Viajo no teu corpo. O beijo (É essa a verdade da saliva)
Thoughts.
É um de boa-fé, disse Montaigne. Tenho a alma queimada.
Happiness.
Venham enfim as altas alegrias
Today on the 95th anniversary of the birth of José Saramago, some words to celebrate.
"Na ilha por vezes habitada que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz. Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste."
Quem se dá quem se recusa Quem procura quem alcança Quem defende quem acusa Quem se gasta quem descansa Quem faz nós quem os desata Quem morre quem ressuscita Quem dá a vida quem mata Quem duvida e acredita Quem afirma quem desdiz Quem se arrepende quem não Quem é feliz infeliz Quem é quem é coração
*** Esqueçamos as palavras, as palavras: As ternas, caprichosas, violentas, As suaves de mel, as obscenas, As de febre, as famintas e sedentas.
Deixemos que o silêncio dê sentido Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: Que palavra ou discurso poderia Dizer amar na língua da semente?
Confesso que provavelmente não entendi alguns poemas - também é esse o encanto da ambiguidade da poesia, deixar a curiosidade no ar e a interpretação pessoal... MAS dos poemas que entendi gostei imenso! :)
"Venham enfim as altas alegrias, As ardentes auroras, as noites calmas, Venha a paz desejada, as harmonias, E o resgate do fruto, e a flor das almas. Que venham, meu amor..."
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz. Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.
Obra muito pequena, maioria dos poemas são bastante curtos. Sente-se paixão e frustração e simultaneamente uma vontade de viver e uma consciência da morte.
No primeiro livro de poemas de José Saramago, "Os Poemas Possíveis", o autor escreve poesia de forma clássica quer em termos de forma quer em termos de rima, já neste livro de poemas o autor existem poemas que se demarcam desses traços tradicionais de escrita poética e surgem poemas curtos e longos sem grande cuidado em termos de estrutura do poema. Confesso que esta viragem revela que o caminho do autor vai se fazendo com mudanças, parecendo procurar a melhor versão para a sua escrita e penso que consegue. A poesia adensa-se neste livro, os temas e preocupações muito similares mas apresentados de modo diferente. Destaco alguns que reli («É tão fundo o silêncio», «Quando os dedos de areia», Parábola, Digo pedra) e que vou reler várias vezes, pois a poesia merece a releitura para a melhor entender e desfrutar.
Nunca tinha lido poesia, mas é suposto dar uma avaliação a um livro de poesia como se cada página e cada poema tem um sentimento e tema diferente? Não sei
Para além disso, acho que não adorei tho. Gosto muito de Saramago, mas senti que poesia não era a minha forma de escrita favorita (dele, pelo menos). Talvez esteja enviesado também por estar a aprender a ler este tipo literário. Este ano virão mais, mas tem de se começar em algum lado
A minha primeira leitura da poesia de saramago. Tenho 4 poemas preferidos, alguns que me deixaram um sorriso nos lábios e outros que não percebi o sentido... merece uma re-leitura futuramente!
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz. Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.
«Tenho a alma queimada»
Tenho a alma queimada Por saliva de sapo Fingindo que descubro Tapo
A palavra me infeta Sob a pele da aparência Deito o certo remédio Paciência
Neste mal não se vive Mas também ninguém morre Quando a ave não voa Corre
Quem às estrelas não chega Pode vê-las da terra Quem não tem voz de cantar Berra
Apesar de ter encontrado beleza em vários versos, sinto-me muito mais apaixonada pela escrita em prosa de Saramago. A diferença entre um livro narrativo de Saramago e um livro de poesia de Saramago, é que seria praticamente impossível destacar as melhores frases do primeiro, porque cada uma se torna melhor que a anterior. Este livro não me cativou propriamente.
Melhores versos: - "A ver se povoamos esta ausência / Chamada solidão." - "É tão fundo o silêncio entre as estrelas. / Nem o som da palavra se propaga," - "O medo é insuportável." - "Cada um de nós é por enquanto a vida. / Isso nos baste." - "Por isso a história começa sem começar e acaba sem acabar. / Como qualquer coisa que se parecesse muito com o infinito." - "Bem que o mundo não seria / Se o nosso amor lhe faltasse."
I will say this: Ambition. This book is not done without thinking about his composition, content and words like some books I already read from him. However I think there is still some poems who might have needed a little more work in them and the choice of words sometimes feels a little forced, because it has to attend a certain pattern that Saramago established.
Segundo livro de poesia do autor e continua na mesma linha do primeiro. Saramago ordena o caos com métricas e rimas. Camões é uma bússola ("meu amigo, meu espanto, meu convívio"). Mas em comparação com o livro anterior este possui algumas rupturas, principalmente pelos poemas surrealistas como "A mesa é o primeiro objeto", "Na ilha por vezes habitada", e o meu favorito "Protopoema".
Falha muito comparado à dimensão literária dos seus romances. Sem dúvida que este homem foi criado para contar histórias e abrir a realidade ao mundo. E não para ficar na nuvem de pensamentos retalhados que a poesia assim exige.
4⭐ para mais uma obra de poesia do nosso Prémio Nobel da Literatura. Voltar a leitura de José Saramago é sempre uma bela viagem, principalmente por veia poética que recentemente me interessou. " Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste."
Houve um tempo sem forma, uma fusão Mordida de cristais neste basalto Houve decerto um rio, um mar antigo, Onde a pedra rolou. Houve também um sismo, e outro sismo Agorá cumprirá, na mão fechada, A forma prometida. Assim, exata, A pedra se moldou.»
É tão fundo o silêncio Flor de Cato Tenho um Irmão Siamês Pedra Coração Tenho a alma queimada Elegia à moda antiga Caminhamos sobre as águas Madrigal Digo Pedra Assente em água e fogo
Breve, provavelmente alegria é uma obra leve que não adensa tanto as matérias sobre o qual se debruça, comparativamente à prosa do autor. Ainda assim, um mergulho em Saramago poeta não deixa de ser uma viagem maravilhosa de se fazer. Há poemas que nos obrigam a várias releituras e outros que, de tão simples, nos remetem para um escritor honesto e aberto, simples, quer nas suas fundações quer nas suas intenções. Não há vaidade na poesia de Saramago.
É um ótimo livro para iniciar a leitura de Saramago. É um simples dentro do complexo. Uma escrita muito metafórica, mas que neste conjunto de poemas permite ao leitor entender os pensamentos do autor e desfrutar de forma leve da leitura.