O sorriso aos pés da escada resulta de uma encomenda e isso talvez explique a natureza algo forçada desta pequeníssima narrativa cujo tema é difícil de definir, mas que deve andar ali pelos lados da análise sobre o significado da vida, da conexão espiritual e da procura da felicidade.
Lido ao pé da letra, é uma narrativa morninha sobre o transvestismo de um palhaço que todas as noites procura na audiência ecos de si mesmo - ao passo que, em espelho, a audiência se revê no palhaço em palco.
Mas quero acreditar que há aqui mais do que isso. Escolho ler, na farsa de Augusto (o palhaço) uma procura intelectual mais do que espiritual...
Tinha por hábito, antes de aplicar a tinta, observar-se durante um longo espaço de tempo. Era a maneira de se preparar para a representação. Sentava-se a olhar para o seu rosto amargurado e de repente punha-se a apagar a imagem e a estabelecer uma nova, aquela que todos conheciam e que em toda a parte era tomada como sendo propriamente a de Augusto. Mas o verdadeiro Augusto ninguém conhecia, nem mesmo os amigos, pois a celebridade fizera dele um homem só.
...uma história sobre a desolação de ser um entre muitos («Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana!», ecoava na obra de Maria Judite de Carvalho)...
É esquisito, não é? Um pouco de tinta gordurosa, uma bexiga, uns trapos carnavalescos e não é preciso mais para uma pessoa se transformar em ninguém! É o que nós somos ninguém. E ao mesmo tempo, toda a gente.
...e sobre a luta para defender o último reduto da nossa independência/identidade:
Sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos.
Sem conhecer mais nada de Miller em primeira mão, podia, a partir deste texto, extrapolar que se trata de um escritor simbolista e filosófico, com particular talento para expressar compaixão perante os mais solitários, mas como não tenho base de comparação, não vale a pena. Resumindo, O sorriso aos pés da escada é uma pequenina obra algo sonhadora que, discorrendo sobre um palhaço, um palco, «uma mesa, [um]a cadeira, [um] tapete; um cavalo, uma campainha, um arco de papel, [um]a escada interminável, [e um]a lua pregada à cúpula» tenta dizer coisas que estão no limiar do concreto e já a entrar no reino do abstrato. Tudo muito místico, como creio que Miller pretendia:
Bem pequena era a compreensão do público! Bem pequena a compreensão de qualquer um quando o destino estava em jogo! Ser palhaço, era ser um peão no xadrez do destino. Na pista, a vida não passa de um mudo espectáculo feito de cambalhotas, bolachadas, pontapés num nunca acabar de fintas e contra-ataques. E era através deste meio, desta vergonhosa folia que uma pessoa conquistava os favores do público! O idolatrado palhaço! O bem-amado palhaço cujo privilégio especial consistia em reviver os erros, as loucuras, as idiotices, todas as incompreensões que angustiam a espécie humana! Ser a própria inépcia era algo que mesmo o mais imbecil dos imbecis poderia apreender.(...)nunca as pessoas se cansam destas coisas absurdas, pois há milénios que os seres humanos se enganam no caminho, há milénios que todas as suas buscas e interrogações desaguam num beco sem saída. O mestre da inépcia tem como domínio o tempo inteiro. Acontece que só se dá por vencido perante a eternidade...
Quem diria que procurar um sorrirso poderia ser coisa tão triste?