A trilogia O tempo e o vento, que inaugura o relançamento da obra completa de Erico Verissimo pela Companhia das Letras, é a saga mais famosa da literatura brasileira. São cento e cinqüenta anos da história do Rio Grande do Sul e do Brasil que o escritor compôs em três partes - O Continente, O Retrato e O arquipélago -, publicadas entre 1949 e 1962. O arquipélago, última parte da trilogia, encerra a história da família Terra Cambará. O Brasil, o Rio Grande do Sul e Santa Fé se modernizam, e não cabem mais nos planos das oligarquias tradicionais. Os Cambarás retiram o apoio ao governo e aderem à revolução libertadora em 1923, ao lado dos arquiinimigos maragatos. No fim do conflito, guarnições militares das Missões se rebelam e Toríbio, o irmão mais velho de Rodrigo, une-se a elas na formação da coluna revolucionária liderada por Luiz Carlos Prestes. Na cidade fictícia de Santa Fé, a família Terra Cambará é abalada por novos Toríbio rompe com o irmão e Sílvia, a amada do escritor Floriano, revela seu mundo num diário surpreendente. Tudo converge para uma encruzilhada de tempos e memó o doutor Rodrigo tem um acerto de contas definitivo com o filho, Floriano, que começa a escrever o grande romance de sua vida. Na galeria de personagens de O tempo e o vento há figuras fascinantes, comparáveis a grandes ícones da literatura nacional como Peri, Capitu e Macunaíma. A forte Ana Terra, o valente capitão Rodrigo Cambará, a sedutora Luzia Silva e o curioso doutor Carl Winter são apenas alguns desses personagens, eternamente vivos na imaginação dos leitores. Desfilam no romance as disputas entre famílias pelo poder local, regional e
Erico Verissimo (December 17, 1905 - November 28, 1975) is an important Brazilian writer, who was born in Rio Grande do Sul. His father, Sebastião Veríssimo da Fonseca, heir of a rich family in Cruz Alta, Rio Grande do Sul, met financial ruin during his son's youth. Veríssimo worked in a pharmacy before obtaining a job at Editora Globo, a book publisher, where he translated and released works of writers like Aldous Huxley. During the Second World War, he went to the United States. This period of his life was recorded in some of his books, including: Gato Preto em Campo de Neve ("Black Cat in a Snow Field"), A Volta do Gato Preto ("The Return of the Black Cat"), and História da Literatura Brasileira ("History of Brazilian Literature"), which contains some of his lectures at UCLA. His epic O Tempo e o Vento ("The Time and the Wind'") became one of the great masterpieces of the Brazilian novel, alongside Os Sertões by Euclides da Cunha, and Grande Sertão: Veredas by Guimarães Rosa. Four of Veríssimo's works, Time and the Wind, Night, Mexico, and His Excellency, the Ambassador, were translated into the English language by Linton Lomas Barrett. He was the father of another famous writer of Rio Grande do Sul, Luis Fernando Veríssimo.
"Erico enfrentava a última parte de O Tempo e o Vento com temor. A magnitude da obra o assustava um pouco. Em O Continente acompanhara um século e meio da formação guerreira do Rio Grande do Sul. A quase ausência de documentação facilitara sua liberdade de imaginar. Em O Retrato começara a desenhar o processo de modernização do estado e o embaralhamento dos laços tradicionais na fictícia Santa Fé. Mas agora a complexidade crescente da matéria o assustava, por convergir vertiginosamente para o presente."
Nada que se note na qualidade deste sexto volume, que é, para mim, um dos mais emocionantes de todos os já lidos. Tão bom quanto o maravilhoso O Continente e a ainda mais maravilhosa Ana Terra. Tenho que tirar o chapéu, com grande vénia, ao senhor Veríssimo pela brilhante caracterização das velhas do Sobrado; em cada volume, as mulheres da família Terra Cambará que vão envelhecendo, vão adquirindo manhas que lhes dão uma graça e um carisma irresistíveis.
Penúltimo livro da saga O Tempo e o Vento. O fim aproxima-se.
(...) amadurecer é aceitar sem alarme nem desespero essas contradições, essas... essas condições de discórdia que nascem do mero fato de estarmos vivos. Não escolhemos o corpo que temos (olha só o meu...) nem a hora e o lugar ou a sociedade em que nascemos... nem os nossos pais. Essas coisas todas nos foram impingidas, digamos assim, de maneira irreversível. O homem verdadeiramente maduro procura vê-las com lucidez e aceitar a responsabilidade de sua própria existência dentro dessas condições temporais, espaciais, sociológicas, psicológicas e biológicas. Que tal? Muito confuso?
A revolução de 23 que se iniciou em O Arquipélago - Volume I vai de vento em popa no início e decorrer de todo na segunda parte de O Arquipélago, trazendo alguns personagens para perto e afastando-se de outros, a revolução encabeçada pelos irmãos Cambará é o ponto fundamental dos eventos que se transformam na vida da dinastia Terra-Cambará.
Sob o governo de Washington Luís, com o país sob estado de sítio e liberdades restritas, com Carlos Prestes vagando país a dentro com sua tão famosa Coluna na nova revolução de 30, que não mais conta com Rodrigo e Licurgo e sim, tão somente com o Major Toríbio Cambará, os novos acontecimentos, direta ou indiretamente abrem uma fresta para aquilo que viria a se instaurar no país sob o governo de Vargas.
Envolta sobretudo em maquinações políticas, todavia não deixando de esmiuçar a vida de Rodrigo e daqueles ao seu entorno, com uma obra que volta a sistemática do primeiro volume, contando simultaneamente passado e presente, o leitor acompanha desde o sofrimento por conta de Alicinha, aos debates acalorados do comunista Eduardo, do intelectual Floriano, do conservador Jango, filhos de Rodrigo que vivenciam um tempo que, se abre espaço para a ditadura, abre também para o fim da saga da grande família rio-grandense, em mais uma deslumbrante e um pouquinho cansativa, obra. Tive, como sempre, uma boa leitura.
Mais uma releitura do Erico. Sempre interessante ver o quando o livro "amadurece" conforme o leitor amadurece também. Os livros do Arquipélago sempre foram os que menos gostei, a=por causa daquelas imensas conversas entre os filhos do Rodrigo e do próprio com seus amigos, filosofando sobre política e tudo mais. Sentia falta da parte mais mítica do Continente, ou do idealismo do Retrato. Estou apreciando muito essas ilhas, nesse momento.
E chego ao fim da saga gaúcha, a Odisséia Brasileira do Tempo e o Vento, marcado pelas palavras, emocionado pelo poder dramático da saga, impressionado pela maestria literária e pela técnica de Veríssimo. E já com saudade, aquele misto de saudade, aquela saudade feita de alegria e tristeza por ter lido um livro daqueles que marcam a vida da gente.
Nesse volume, que começa no meio da pancadaria da revolução de 23, Érico Veríssimo volta a narrativa de guerra, com descrições de fazer inveja ao Bernard Cornwell. Rodrigo Cambará finalmente tem seu teste de fogo, que ansiava por toda sua vida. As discussões filosóficas da inteligentsia de Santa Fé chegam nos problemas e complexidades das posições de esquerda e de direita, dentro da peculiar realidade brasileira.
As reflexões sobre a existência ganham um foco ainda maior nesse volume. As passagens de Florisberto, especialmente em suas conversas com Tio Bicho, são as mais filosóficas e cheias de metalinguagem de toda a trilogia, uma espécie de sumário temático, uma confissão pessoal das conclusões de Érico Veríssimo em relação à vida e sua relação com a tarefa do escritor, em seu dilema de tentar representar uma realidade que não é verbal, de usar a artificialidade da linguagem para falar do que não possui essência de linguagem. É como um segundo livro, mais reflexivo e psicológico, bem ao modo dos romances existencialistas que ganhariam popularidade durante a década de 70, dentro de sua narrativa histórica, emotiva, mitológica do Dr. Rodrigo Cambará.
Em uma estrutura que me lembrrou muitas narrativas clássicas, como o clássico do Orson Wells, Cidadão Kane ou o Em Busca do Tempo Perdido de Proust (que preciso reler urgentemente!), a narrativa em Arquipélago se passa por cenas, ou "ilhas", da vida de Rodrigo Cambará, e de outros personagens coadjuvantes importantes, como seu filho Florisberto. Cada uma dessas narrativas fechadas aborda algum aspecto da psicologia de Rodrigo; seu confronto com a própria mortalidade, perda de entes queridos, a transformação de suas idéias, os altos e baixos de sua carreira política, em um entrelaçamento de correntes narrativas impressionante, perfeição formal de um escritor no auge de suas habilidades. A partir de agora, se alguém me perguntar como pode desenvolver a escrita já vou mandar logo na lata "leia a trilogia O TEMPO E O VENTO, com olhos de escritor e vá tomando aulas com o sábio gaúcho".
O final é impressionante, um exemplo de maestria narrativa, um mergulho nas almas de Rodrigo e seu filho Floriano, e uma espécie de redenção pela escrita, uma aceitação final das contradições inevitáveis da existência humana. Me tocou de mais a luta de Floriano para "acabar de nascer", quem não quer "acabar de nascer", por mais doloroso que isso seja? Ser livre, verdadeira e completamente livre? Doa o que doer?
Vou carregar essa trilogia para sempre na alma, como o tempo que me persegue e o vento que me rodeia. E um dia, eu juro, ainda quero por os pés nos pampas gaúchos.
Salve Érico Veríssimo! Salve o Rio Grande do Sul! :)
ANOTAÇÕES DE ARQUIPÉLAGO VOL. 2
Técnica narrativa ponto de vista bi ciente no confronto final entre floriano e rodrigo entrando na cabeça dos dois ao mesmo tempo
Floriano - técnicas Narrativas - alternando monólogos interiores com descrições em terceira pessoa
As partes de Floriano são bem Proustianas, bem psicológicas.
Músicas do tempo e o vento - adagio de cordas de chopin, boi barroso, noturnos de chopim, operas la traviata, dom Giovanni, dom quixote
A trilogia inteira foca o ponto de vista da elite, imagino como seria a história do ponto de vista dos caboclos e caboclas, dos carés.
Essa turma guerreira do sul são os vikings brasileiros
Frase : "o Brasil é muito mais forte do que os brasileiros"
Técnica narrativa : recortes de cenas habituais, entrelaçadas, imagens postas lado a lado, como poesia, belíssimo
Stênio: o judeu com uma visão radical e marxista da vida, onde absolutamente tudo é motivado por luta de classes.
Título: O Tempo e O Vento 3 - O Arquipélago vol. 2 Autor: Erico Veríssimo Editora: Cia das Letras Páginas: 376 Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
_____________________________________ Na conclusão da segunda e penúltima parte de O Arquipélago, me vem uma constatação: se Erico o chamasse de Retrato talvez seria o tomo cujo esse título mais estivesse apropriado. Mas, essa minha pretenção é fugaz, passageira. Érico é um mestre, que se agiganta a cada parte dessa soberba história que é O Tempo e O Vento. Mesmo não sendo Retrato o título, mas Arquipélago, eu poderia chamá-lo de O retrato esfacelado, a genuína parte de um imenso arquipélago, partículas distintas, perdidas em si mesmas. Floriano Cambará, embora seja descrito como de muita semelhança a Rodrigo, seu pai, nada tem deste Cambará, a cujos desejos e vontades parece ser servo. Em Floriano você vê o retrato do romancista barato, vagando em profundas e profusas idiossincrasias, perdido na vaguidão sem resposta de suas melancolias. Em dado momento, Floriano tenciona deixar de ser ilha, para se tornar parte do continente, mais que retratado na figura do Sobrado. Acredito que ele terá seu grande momento, o ajuste de contas com seu maior algoz: seu próprio pai, talvez a mais desgarrada das ilhas. Logo Rodrigo, que sempre buscou a aprovação das muitas mulheres que teve, dos amigos tão leais em tempos de paz e também de guerra, foi se tornando uma ilha, ao afastar-se de sua esposa Flora e de seus filhos. Será tarde demais para ele recompor as pontes inexistentes nesse vasto arquipélago de rancores, silêncios e perdas? Vamos ao último tomo...
Sabemos que Mayara classificou com 03 estrelas porque está de mau humor...
O ritmo desse volume me lembrou a parte "final" de O Retorno do Rei, em que é retratada a volta dos heróis para o Condado, porque Tolkien (afirmação especulativa e provavelmente inverídica:) estava com dificuldade de desapegar da trama... Mas não estou aqui para julgar.
Porém que emoção no coração senti com moço Floriano/Erico expondo suas ideias no finalzinho do volume 👏
Algo que me chocou, em relação a esse mesmo episódio, foi a diferença de conhecimento/profundidade na formação de opinião/capacidade de debater ideias entre os personagens e nós jovens atuais...
Sem mais delongas, as citações de hoje (Alguém, por favor, me ensina a inserir fotos 😌):
- "Porque resignando-nos a uma pobre subvida, estamos assassinando ou, melhor, impedindo que nasça o nosso eu verdadeiro";
- "Não escolhemos o corpo que temos (olha só o meu...) nem a hora e o lugar ou a sociedade em que nascemos... Nem os nossos pais. Essas coisas todas nos foram impingidas, digamos assim, de maneira irreversível. O homem verdadeiramente maduro procura vê-las com lucidez e aceitar a responsabilidade de sua própria existência dentro dessas condições temporais, espaciais, sociológicas, psicológicas e biológicas";
- "O Dr. Rodrigo não é apenas o Grande Fornicador. Ou o Amigo do Ditador. Ou o Jogador de Roleta do Cassino da Urca. Ou o Mau Marido. É tudo isso e mais um milhão de outras coisas";
- "Mais duma vez, à hora das refeições, quando ele fazia uma observação qualquer, percebia uma troca de olhares entre a mulher e a tia, como se ambas dissessem: 'Conhecemos bem essa bisca'";
- "Mais ainda: o filho reagira ao convite do revolucionário com as idiossincracias, os nervos, o corpo do pai";
- "Sim, esta luz de ouro novo que agora entra alegre pelas janelas, parece ter a capacidade de atravessar as pessoas e as coisas, deixando-as transparentes e vazias de conteúdo dramático";
- "Nesse caso eu começaria pela abóboda celeste e me veria logo em dificuldade para definir a qualidade desse azul sem mancha..." (Quadro com palavras de Floriano);
- "Só um naturalismo absoluto nos poderia manter de mãos limpas. E, nessa hora, na minha opinião a neutralidade é uma covardia";
- "[···] quando se está compenetrado demais de seu papel de Regenerador, de Profeta ou de Vingador, enfim, quando sua paixão política ou religiosa se faz fanatismo, esse homem na minha opinião passa a ser um perigo social, está precisando urgentemente dum tratamento psiquiátrico".
Érico Veríssimo me surpreendeu neste volume de O Arquipélago, o qual achei que seria desinteressante por estar cada vez mais moderno e próximo do que acontece nos dias de hoje, mas, pelo contrário, as discussões políticas são cada vez mais diversas e interessantes. Além disso, os personagens têm comportamentos diferentes a cada geração e isso se torna cada vez mais evidente. Érico Veríssimo mantém a coerência em sua escrita e, apesar dos tempos mais calmos (não totalmente), ele consegue trazer situações emocionantes em cada volume, prendendo o leitor. Sobre a construção do livro, a ordem dos capítulos d'O Arquipélago é genial e, neste volume, Érico Veríssimo nos induz a alguns pensamentos e foge do óbvio ao propor outros desfechos. Gosto demasiado desta série e este volume foi um dos melhores desde O Continente.
O tempo vai passando e parece que nada muda na cidade. Rodrigo Cambará finaliza esse livro já bem doente. As guerras escacearam. O Angico continua de pé mas bem mal financeiramente. A família já não é mais a mesma. No próximo livro termina-se a saga da família Terra Cambará.
O segundo volume de O Arquipélago nos afunda nos dilemas de Floriano, sejam eles de seguir em frente ou de permancer com a família e sua depressão ao ver a desagregação familiar.
Não se supor que essa é a forma de Verissimo de revelar um estágio de transição, como o próprio título diz, Floriano e seus familiares são ilhas de um mesmo grupo que têm extrema dificuldade de comunicação. A alusão a frase de Morus "Nenhum homem é uma ilha" é constantemente verificada ora pela reclusão dos personagens, ora pela influência que exercem uns sobre os outros.
Há mais destaque ainda para a Revolução Federalista e para o período Vargas - vale lembra que a literatura do sudeste é cheia de obras sobre e relacionadas, mas ver algo escrito e ambientado no Rio Grande Sul traz uma nova perspectiva.
Nesse segundo volume, Érico vai desconstruindo tudo. O que era valentia, caráter e personalidade no Continente, vira atraso, racismo e machismo no Arquipélago. Até a qualidade do enredo parece que vai se desconstruindo, e o épico às vezes vira uma aventura de capa e espada, como os romances que o Toribio gostava.
Os ânimos bélicos arrefeceram mas ainda permanecem em estado latente. Época: 1923 a 1945. História e política dão o tom e ainda é Floriano o principal narrador mas agora contamos também com a visão de Sílvia através de seu diário.
Interessante como Érico explora as questões políticas colocando seus personagens em discussões intermináveis sobre república, comunismo e capitalismo. Rodrigo ainda me dando nos nervo.