What do you think?
Rate this book


100 pages, Paperback
First published January 1, 1958
«[A] morte é algo de mais incrivelmente absurdo, porque é o nada inimaginável, a impensável destruição do absoluto que conhecemos na irredutível e necessária pessoa que somos. Pobres palavras vãs: um «nada» imaginamo-lo sempre como algo que é... Mas o nada é a desaparição de nós a nós próprios, a anulação desta evidência que é a pessoa que está em nós, o puro vazio deste quid único, desta realidade que há em nós e nos assusta, porque é terrivelmente viva e verdadeira. A massa de tudo o que nos habita não é um aglomerado de coisas que se dispersem e fiquem como ficam as pedras de um muro que se desmorona: é a totalização de nós próprios, incrível individualidade, fulgurante presença, acto puro de ser, absurda necessidade de estar vivo, que é como se fosse maior que nós e nos dominasse e nos vivesse — essa flagrante evidência que nos assusta quando nos olhamos a um espelho. (...) O sono tem a forma de uma vulgar distracção... Mas a morte não é uma desatenção da vida: é a pura impessoalidade, um puro vazio oposto à pura totalidade, à maciça presença, à impregnação do nosso todo de tudo o que nos rodeia e assumimos. Saber bem, até à iluminação da vertigem, a distância alucinante destes dois extremos, é saber enfim onde se há-de recomeçar.»
O mistério e o seu alarme são o tecido de tudo. Mas como o ignoramos!
Fazer... A memória dos deuses, agora que se nos desfez como forma de um refúgio, de uma justificação, reinventa em nós o sonho do seu poder: criar é afirmar no homem o sonho de divinização.