Lançado originalmente em 1980, "As Parceiras" é o primeiro romance de Lya Luft, uma das mais premiadas e consagradas escritoras brasileiras. Em "As Parceiras" somos apresentados à Anelise, vida à beira do caos, que procura no passado as razões para seu infortúnio. Ao passar das páginas, ela encontra a coragem para enfrentar os fantasmas que a perseguem: a avó Catarina - obrigada a casar aos 14 anos com um homem violento; a tia Beata - uma viúva virgem, marcada pela tragédia; a tia anã - figura grotesca que marca sua infância; a amiga Adélia - ausência para sempre sentida; a irmã Vânia - seu oposto completo, forte e decidida, mas com um estranho segredo. O clima sufocante dessa narrativa opera uma estranha hipnose sobre o leitor, uma sedução que o apanha de surpresa, o levando para uma dimensão torturada. Um universo com temáticas perigosas, como conturbadas relações familiares, traumas da infância e suas sequelas na vida adulta. "A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer", argumenta a escritora em uma de suas entrevistas
Lya Luft was a Brazilian writer, a novelist, a poet, a prolific translator (working mostly in the English-Portuguese and the German-Portuguese language combinations) of German descent. She was also a college professor of linguistics and literature.
Subia até lá sempre que podia, esquivava-se do marido, dos parentes, das visitas. Começou a desfiar ali em cima uma espécie de ladainha que com os anos impregnou todo o casarão, e que eu jurava ouvir ainda quando morei lá. Mandou mobilar o sótão como um quarto de menina. Tudo branco. Faltavam só as bonecas para que a inocência fosse recomposta.
As parceiras desta novela da brasileira Lya Luft são as Parcas que controlam o destino já traçado, mas são também as mulheres de três gerações pertencentes à mesma família, uma “família de perdedoras”, semelhantes a figuras de uma tragédia grega, herdeiras da alienação de Catarina, que foi obrigada a casar aos 14 anos com um homem mais velho, que a viola até a levar à loucura, isolada num sótão. Num diário que vai desde domingo até sábado, Anelise, regressada ao chalé da sua infância, “repassa o filme”, escreve sobre a sua angústia actual à luz da vida e da morte das suas parentes, todas elas perseguidas por algum tipo de fatalidade, “o meu cortejo fiel: os mortos, os loucos, os suicidas, os dúbios e desamparados, os culpados, os solitários.” A escrita de Lya Luft, que quero continuar a conhecer, é tranquila e despretensiosa, com apontamentos de lirismo e de crueza onde menos se espera, retratando com muita empatia uma mulher angustiada que, numa profunda depressão, tenta lutar contra os seus demónios, contra tudo o que perdeu. “As Parceiras” é um livro sobre fantasmas, sobre anjos e monstros, mas sustentado na dura realidade, sem nada de fantasioso, somente melancólico.
“Fizera um sótão para mim mesma, com traves, madeirames, tijolos tirados das escuridões desde a minha infância. Ali moravam as mulheres da minha família, meus mortos; um adolescente que criava bichos-de-seda, suspeito de não ser muito viril, mas que me ensinara a beijar e a vibrar no corredor sombrio; pedaços de gente perdida no mar, nas pedras, fragmentos, alusões, esboços de anjos ou de monstros. Bila. Vozes alquebradas na sombra.”
O que somos? Acidente ou predestinação? Raízes de um antepassado, ou acaso da vida? Conseguimos fugir e libertarmo-nos de passados familiares trágicos com um extenso cortejo de mortos, loucos, suicidas, dúbios e desamparados, culpados e solitários? Peças de azar. Vidas ingratas. Anátema. Traumas de infância. Pelo olhar de Anelise (40 anos), narradora em primeira pessoa, conhecemos a história desta família desde a sua avó Catarina obrigada a casar aos 14 anos com um homem violento sob o terror do sexo e da vida. Sobreviveu até aos 46 anos recolhida num sótão onde só faltavam as bonecas para que a inocência fosse restaurada. Teve alguns abortos , e nos intervalos quatro filhas: Beatriz, Dora, Norma, mãe de Anelise, e Sibila, «concebida e parida no sótão», retardada e anã.
«Éramos uma família de mulheres doidas, segundo a tia Dora. Pelo menos, uma família de mulheres, na qual os poucos homens entraram pela via do casamento. E o meu primo Otávio, pela adopção. (...) Um bando de mulheres: diziam que até os abortos de Catarina tinham sido meninas.»
Em criança, Anelise perdeu os seus pais num acidente de aviação e a sua melhor amiga, Adélia, também em circunstâncias trágicas. Anelise queria ser feliz e fugir a este mundo de sombras e pertencer a alguém com quem partilhar tudo: casa, cama, pensamentos, corpo, recantos; casa querendo tudo e esquecendo tudo incluindo o dia que visitou a avó naquele sótão; mas, ela sabia que eram uma família de perdedoras.
É um livro inquietante e com um final tristíssimo.
Infelizmente, a vida nem sempre permite que acreditemos nela e impede-nos inclusive de sobreviver em mundos que somos forçados a inventar. A vida, esse jogo de azar. Afinal, Anelise apenas pretendia viver como toda a gente e parar de remexer nos baús. Há pessoas destinadas a viver em sótãos como casulos.
Livro "triste como a noite" (de onde vem esta expressão?), mas tão poderoso que acabou por deixar a sua marca em mim. O tema da predestinação é omnipresente, atravessando gerações de mulheres da uma mesma família. Nem o único elemento masculino, apesar de ser adotado, escapa, pelo que não se trata apenas de genética. A vida sorri-lhes pouco. O medo, a vergonha, o infortúnio e a desgraça pontuam as suas existências. Não é um livro fácil, requer um certo grau de amadurecimento. Estou grata à Paula Mota e à Celeste Corrêa, que me permitiram esta descoberta.
Por que não morremos num período assim? Antes que tudo comece a esboroar. Nem sei se é no fundo ou na superfície que começa a erosão. A primeira tristeza não partilhada.
O primeiro contacto que tive com Lya Luft foi através de uma entrevista, ouvida durante o primeiro confinamento, em 2020, num dos muitos podcasts que circulam por aí. Gostei tanto da entrevista que comprei logo uns quantos livros dela, mas só agora, depois da sua morte, é que resolvi ler este primeiro romance publicado em 1980.
É um livro pequeno, com pouco mais de 125 páginas. Está dividido em sete capítulos, um para cada dia que Analise passa no chalé de verão.
É uma história profunda, intensa e dolorosa, que vai misturando momentos do presente com memórias difíceis do passado da família de Anelise. Memórias com cheiro a alfazema.
Dei por mim a pensar sobre os “sótãos” que cada um de nós carrega. O meu é uma praia de areia branca e fina, de águas calmas, de cor turquesa, límpidas, e onde o vento chega de mansinho e quente, e de cada vez que somos abraçados por essa brisa temos uma sensação de plenitude.
Talvez este tenha sido o livro mais depressivo que já li até agora... O livro é curto, mas recheado de sentimentos e emoções que nos parece que tem o triplo das páginas. Fiquei muitas vezes angustiada com a leitura, a maneira como a autora descreve as emoções da protagonista é de uma realidade bastante intensa, parece o relato de uma amiga que está sentada ao nosso lado e nos sentimos impotentes sem saber o que dizer e fazer. Muito intenso, mas valeu bem a pena cada palavra lida...
Delicado e minimalista, entendo por que alguns não gostariam da leitura, mas acertou em tudo que gosto em um livro. Talvez a história um pouco mórbida, o fim sem fim, a falta de cuidado em tratar do abuso de Catarina, sejam os pontos principais para alguns desgostarem da obra. Mas, para mim foi uma leitura fácil e rápida, sem contar que foi um dos livros mais cruamente humanos que já li.
"As Parceiras" conta a história de Anelise, que encontra nos problemas das outras mulheres de sua família as "respostas" para seus próprios problemas - como se a tragédia marcasse todas suas parentes e, consequentemente, ela própria. Acompanhamos uma semana de sua vida, na qual ela decide se isolar para refletir todos os infortúnios que vivera até então, e, nesse tempo, ela conta sobre a vida de sua avó, suas tias e sua irmã. Gostei muito mais do que esperava, achei a leitura profunda e real.
Esse livro me comoveu de maneira muito íntima; ao mesmo tempo que mostra a cumplicidade das “parceiras” em meio à tentativa de lidar com experiências traumáticas, enfatiza de maneira mórbida a solidão dessas mulheres, que tentam tecer a normalidade de uma vida ideal ao redor de buracos de feridas abertas nessa família. Sentar para tomar um café com seus fantasmas, encarando a loucura, os mortos, o luto, o desamor, o abuso, a desesperança, sem entrar em desespero é um ato de muita coragem, e valorizei muito isso na protagonista. É um ótimo livro.
Achei-o incrível! Confesso que devorei-o. Terminei de ler no mesmo dia que iniciei e, ao final, quando acabei, senti aquele típico vazio que acontece sempre que termino de ler um livro que gostei muito.
Comecei a refletir o porquê de gostar tanto dele, e bem, o modo que a autora utiliza para colocar os fatos e transcrever a história é diferente e interessante. Na verdade o enredo é um pouco monótono, se prolongasse mais chegaria a entediante, porém descreve perfeitamente os mais profundos e ocultos pensamentos/sentimentos humanos. Se tu fores analisar toda a história o final é até previsível, porém chocante, arrebatador. Começo a contrariar-me porque, na verdade, o livro em si é um pouco contrastante. Incrível apesar de monótono. Impressionante apesar de previsível. Intenso e detalhado apesar de conciso.
O minimalismo e suavidade com que a autora conseguiu construir uma narrativa preenchida por personagens profundas e complexas tornou a leitura desse livro uma das mais agradáveis e leves que já tive. Primeira obra de Lya a que li, por coincidência sua primeira publicação, o que me instiga a ler toda sua bibliografia!
mas o que eu mais fazia era pensar, no jardim, entre canteiros comportados e morangos alegres. que vida mais sem sentido era aquela minha? por que comigo tudo era assim, esgarçado, triste? por que as alegrias duravam tão pouco?
por que, Anelise? era predestinação, uma maldição de família? uma família de perdedoras, como vocês diziam. de mulheres loucas, infelizes e perdedoras. ir ao chalé rememorar a vida inteira não era suficiente, era necessário sentir as dores antigas como se fossem atuais (e não são?), misturar passado com presente, tentar diferenciar a tragédia do infortúnio. tudo isso pra resultar num livro triste, mas bonito, recheado de alegorias e metáforas.
gosto muito de livros que são basicamente pensamentos e conhecer a lya luft assim foi muito bom, principalmente por esse ser o primeiro romance da autora. muito prazer!
Não sei nem como descrever este livro, mas gostei demais! Já tinha lido um livro da autora antes, porém era um livro de poesia, então este foi o meu primeiro contato da escrita dela de romance. É uma leitura curta, super rápida, mas densa ao mesmo tempo. Tem uma certa poesia na escrita da autora, que me tocou demais. Achei bonita a maneira como ela expõe a história da protagonista, tem uma poesia no jeito de falar e ao mesmo tempo uma crítica bem contundente, me cativou logo nas primeiras páginas. Já quero ler mais obras da autora.
Que livro triste. Tão triste que deixou sua marca em mim. A história de Anelise, irmã da Vânia que perdem seus pais muito cedo e vão morar no casarão da família. Uma família marcada por mulheres com histórias intensas e sofridas. A avó que veio da Alemanha e casou aos 14 anos com um marido violento e enlouqueceu. As tias: uma viúva virgem, uma beata, uma Anã e uma pintora bem sucedida cada qual com seus traumas e vidas. Como sobreviver a uma história carregada de tanta tragédia?
uma história completamente dolorida, composta por mulheres marcadas pela dor e pela perda. é bizarro ver a reação em cadeia que a violência contra uma mulher acarreta em toda uma geração de mulheres feridas. possui muitos temas aos quais eu sou sensível, como aborto e estupro. leia com cuidado.
meu primeiro livro de lya luft. terminei em um dia de tão presa que fiquei na história. não simpatizei muito com a protagonista e acho que isso afetou na minha opinião da leitura. mas gostei bastante da escrita e do enredo, quero ler outras coisas dela.
Infelizmente, essa leitura não me agradou muito. Além de ser muito depressiva e angustiante, a história não é exatamente cativante, pelo menos para mim.