Cheguei ao Julio Ramón Ribeyro por indicação do escritor Marco Severo, que me deu uma recomendação de ler com calma. Pois bem, após dois meses e poucos dias, chego ao fim de Só para fumantes. O peito cheio de emoções, a mente estupefada e maravilhavida com o domínio e genialidade de um mestre do conto.
A coletânea começa com o excepcional Só para fumantes, que narra a saga de um escritor e o cigarro. Sua intensa devoção ao fumo o faz desconsiderar a fragilidade da prórpia vida para permancer no hábito. O cigarro é, sem sombra de dúvidas, o seu maior e longevo companheiro. Vive com ele e por ele inúmeras aventuras, cruzando países e experimentando extremos de sua própria natureza. Um conto impressionante.
Na sequência, temos Urubus sem penas, que narra a história de dois irmãos criados pelo abusivo e explorar avô, quem os obriga a sair ainda de madrugada para vasculhar lixões em busca de restos para engordar um porco. Aliás, de que matéria é feita esse animal? O porco, para mim, um símbolo da ganância e dos processos de invisibilidade do homem reduzido a um fazer, a um trabalho ou função. O esmero, a cumplicidade e amor dos irmãos é posto em brutal contraste com as fúrias insandecidas e os apetites vorazes do avô e do animal. Num dado momento, os dois se confundem. Um extraordinário retrato dos invisíveis em nossas cidades e de nossos apetites mesquinhos e inúteis.
Explicações a um cabo de polícia demonstra o refinamento e o humor de Julio Ramón - presente em todos os contos. O sonhador desempregado que tece planos impossíveis em uma mesa de bar. Quem nunca se embrenhou nos próprios sonhos a ponto de não conseguir estabelecer a linha entre o real e o onírico?. De maneira similar, a grandeza ou a suposta necessidade dela aparece também em O professor substituto, no qual temos um fracassado recebendo a oportunidade de ser reconhecido pelo seu valor ofuscado pelas intempéries da vida. Sua angústia e dúvida em si, atravessam as páginas do livro e nos arrebata.
A beleza e esplendor de Ao pé da escarpa são indescritíveis. A leveza e crueza do enredo, das personagens são impressionantes. Confesso minha emoção ao ler o conto. A força da persistência humana, de estar e transformar o improvável contra todas as impossibilidades e dificuldades. O desejo de melhores condições de vida a impulsar homens simples ao fundo do mar, em contraste com o visitente misterioso, que chega e vai ficando, contrastam com nossa própria necessidade de mais, sendo o mais aquilo que sobeja. Aliás, o contraste é um recurso constante nos contos desta coletânea.
O mais enigmático - e talvez o de mais difícil compreensão - dos contos é Ridder e o pesa-pesos, no qual um leitor fervoro viaja até o refúgio de um escritor ermitão para sua decepção. E quando nada há nele que o chame a atenção volta-se para o entorno e, em particular, para um objeto familiar. O desfecho é tão surpreendente quanto enigmático.
Espumante no porão é divertido e cruel. A morte é o tema central de Os jacarandás, em que um professor é assombrado pelo fantasma da esposa; O armário, os velhos e a morte, na relação com seus antepassados, para além de uma mera questão de linhagem, mas como base de sustentação de si mesmo, de sua identidade. O emprego da linguagem, das metáforas são impressionantes.
A obsessão permeia O pó do saber, quando um rapaz por anos e anos ronda uma casa fechado, que abriga uma biblioteca centenária. O envelhecer e a obsessão, como meio de preencher um vazio existencial, aparecem em Silvio no roseiral. A loucura tematiza o ótimo O embarcadouro da esquina.
Tia Clementina fecha a coletânea. A vida de uma senhora solteirona que encontra o amor na velhice é narrado através de seus bons momentos e suas desventuras. A ganância de seus parentes assolam seus últimos dias em verdadeira paixão a sua fortuna.
Os temas dos contos são diversos, mas vale destacar a urgência de seus personagens em encontrar sentido para a própria existência. A loucura, a obsessão, o desejo de melhores condições de vida e o reconhecimento também surgem, permeando as invisibilidades e vulnerabilidades de suas personagens.
De rara beleza, técnica brilhante e grandiosidade estilística, é lamentável que um autor de tamanha envergadura seja um ilustre desconhecido de muitos.
O livro ainda conta com um prólogo de Alfredo Bryce Echenique e um pósfácio da organizadora e tradutora, Laura Janina Hosiasson. O livro faz parte do legado da extinta Cosacnaify. Espero que em breve outra editora o traduza e publique no Brasil.