Sally é uma história de amor... é uma história de amor que é tudo menos convencional, nascida sem a interferência de hormonas ou feromonas num lugar estranho e mutável. É uma história de amor que, pelo menos aparentemente, é unilateral, e o objecto desse amor dá título ao conto. Sally é a mulher perfeita. Pelo menos, é essa a resposta que obteriam do Alberto Lieman se lhe perguntassem alguma coisa. além disso tudo é também uma história de ficção científica.
Tradutor que às vezes também escreve e edita. Lê e escreve sobre o que lê num blogue azul. Ocasionalmente mal-humorado, em especial quando lhe põem likes em progressos de leitura (a sério: para quê? Porque há de o facto de se ter lido mais x páginas merecer um like?). Preferia que o mundo fosse melhor e tenta fazer por isso. Gosta de rir. ---- Translator who also writes and publishes, sometimes. Reads, and writes about his readings on a blue blog. Grumpy on occasion, particularly when someone likes a progress update (seriously: what for? Why on Earth would the fact that n new pages have been read merit a like?). He would rather the world be better, and tries to help making it so. Enjoys laughter.
Da primeira vez que li Sally, de Jorge Candeias, imaginei Randolph Scott, introspectivo, alto como um poste, encostado num balcão de saloon à espera de uma corista ou um colt 45, mas vestindo um jaleco branco, como um médico de comercial de TV, exalando respeitabilidade. Foi a mescla de boas e más impressões originárias dessa imagem que me fez ter sentimentos dúbios em relação à noveleta vencedora da menção honrosa no Prêmio Revelação Manuel Teixeira Gomes, em 2001. De positivo temos a força icônica de Alberto, o protagonista altivo e inseguro que se torna refém de sua amnésia. Acrescente-se a isso a prosa bem construída, os diálogos fluídos que deixam a cacofonia de fora, e tem-se um texto de alto nível que desperta a curiosidade a cada página, mesclando o melhor da literatura mainstream e o incessante gorgolejar do pulp. Sally é a esfinge que se mantém fora de nosso campo de visão, onipresença luminosa, forçando-nos a apertar os olhos junto com o herói, sem nunca encontrar o foco. É essa personagem esfumaçada, que anseia por perguntas sem jamais formular respostas, quem finca as garras no leitor e vira as 38 páginas em busca da definição. E o problema, o não tão positivo, é exatamente esse... quando chega, a definição é uma amarra. Seria melhor parar antes, deixar-nos com gosto de "hã?". Três páginas a menos fariam de Sally uma obra maior. A prosa de Candeias transcende, mas sua necesidade de obedecer a cânones narrativos questionáveis quase transforma a noveleta em uma receita de bolo, onde a solução proposta pelo autor deixa pouco espaço para os devaneios do público. Sim, queremos ser enganados. Somos um tipo curioso de animal, que busca resoluções concretas, mas que entristece diante do esperado, do conhecido. Relendo o livro, percebe-se que Candeias nos oferece algumas possibilidades de desenlace para a perseguição onírica que envolve vários aspectos de Alberto e Sally, caçada essa propositadamente inserida num ambiente clichê de faroeste hollywoodiano, que tanto ajuda como compromete nossa imaginação. Infelizmente, quando o filme de caubóis começa a ficar interessante, com a libido a infiltar-se em gotas cada vez mais perceptíveis por entre as anáguas hipotéticas de Sally e as ceroulas de Al, surge uma espetadela hipodérmica que elimina o charme até então crescente. Nada mais broxante que um ambiente de laboratório... afinal, o cerne das experiências científicas é a esterilização e charme estéril é uma contradição em termos. Minha primeira impressão de Sally, em 2001, foi que o clichê, mesmo propositado, era demais e comprometia o todo. Agora não. O problema de Sally não é a infidelidade, mas o oposto. Ela é uma cortesã fiel a gêneros, com receio de se entregar a outros braços e preferindo deitar-se com homens conhecidos e inofensivos. Faria bem a ela largar mão dos sujeitos que envergam jalecos brancos e chafurdar um pouco na lama, andar de ônibus, ser bolinada por peões de obra, estivadores e operários. Afinal, trata-se de uma garota de programa.
Se não fosse por mais nada, ia gostar de ter este livro na minha biblioteca pessoal pelo facto de ter sido fruto de uma oferta muito simpática do seu autor, com direito a dedicatória personalizada. Confesso que parti para a rápida leitura deste conto com bastante curiosidade, principalmente porque do autor conhecia apenas a faceta de tradutor, nomeadamente das Crónicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, e da Saga do Assassino, da Robin Hobb. Curiosamente, o que estou a ler agora, Duna, também é sua tradução.
Sally é uma pequena história que nos fala sobre a obsessão de Alberto precisamente por Sally, uma mulher que conhece casualmente num bar. Esse amor repentino e avassalador faz com que Alberto corra alguns riscos para não a perder de vista e tentar conquistar a sua atenção e, quem sabe, o seu amor.
Estamos perante um conto de ficção científica, como a sinopse indica. Quando o comecei a ler e à medida que ia progredindo, não parava de me questionar onde estava afinal a ficção científica. Pois ela está no final surpreendente que esta história nos apresenta e que nos faz repensar tudo o que lemos para trás. O final leva-nos pensar na necessidade de ser amado e na esperança intrínseca ao ser humano. Mas soube-me a pouco porque fiquei com o desejo de ler mais e de saber o que aconteceu depois do final que nos é apresentado – quem sabe se um dia teremos a continuação?
Alberto entra num bar e pede uma bebida forte. O ambiente que o rodeia é se uma observação semi hostil de todos os seus movimentos. Então ouve uma voz feminina que o cumprimenta. O mundo de Alberto desaparece naquela voz cristalina, e concentra-se na sua origem: a magnífica mulher que o abordou. Chamava-se Sally.
Este é um pequeno conto que li num ápice, assim que chegou à caixa de correio. Estava bastante curiosa relativamente a este pequeno livro, por conhecer o autor de outro tipo de trabalho: a tradução, excelente diga-se, de obras que adorei, como as Crónicas do Gelo e do Fogo, de George R. R. Martin, Duna de Frank Herbert e A Criança Roubada de Keith Donohue.
Adorei a escrita fluída e deliciosa do autor e a maneira como a história evoluiu em direcção ao twist final, faz repensar tudo o que foi lido desde a primeira linha. Gostei muito deste conto, excepto pela sensação agri-doce de me ter sabido a pouco. Fiquei curiosa relativamente à eventualidade de o ver no registo de história mais longo e complexo.
Tive sorte. O mentor da rede leiturtugas e autor deste livro aplicou um algoritmo aleatório e calhou-lhe o meu número. E ainda bem, para mim, que ando bastante atrasado no compromisso de reforçar a leitura de literatura fantástica em português. Bem, na verdade, efeitos secundários da pandemia e teletrabalho, ando atrasado na leitura de qualquer tipo de género. Mesmo banda desenhada. Até, mesmo, revistas de banda desenhada. Lamúrias à parte, foi uma boa surpresa receber este livro, e ler a dedicatória, que me colocou de sobreaviso: eu não iria gostar da leitura. Duvidei, porque sei que o Candeias escreve e muito bem, mas as primeiras páginas até pareciam ir confirmar a suspeita do autor.
Começa com um algo improvável cenário de saloon Western, com um homem a ficar de beiço caído por uma proverbial femme fatale para o coração. Mas à medida que a atração se desenrola, num jogo de afastamentos que deixa o homem progressivamente obcecado, o ambiente da história vai-se metamorfoseando. Mal se dá por isso, mas eventualmente nota-se que somos levados da iconografia Western para coisas mais urbana. Leitores atentos do fantástico sabem que caminhos isto leva. Ou é alucinação, ou conto onírico, ou mergulho no virtual. No entanto, apesar do desfecho ser previsível, somos mesmo muito bem conduzidos enquanto leitores. A história é interessante, o final surpreende com aquela clássica técnica da FC de trocar as voltas ao leitor. O estilo narrativo começa como perfeito pastiche do Western pulp, e acaba em pura FC. E a temática de obsessão com o virtual é mesmo uma das minhas cenas. Por isso, lamento a desilusão, mas a leitura agradou e muito.
Já agora, aquele "chama-me Al" é alguma referência à canção de Paul Simon? É que o raio da melodia não me sai do ouvido mental desde que li a frase.
Crítica: Sally foi uma agradável surpresa. Primeiro porque foi uma oferta personalizada e muito simpática de quem a escreveu, Jorge Candeias. Segundo, porque é um conto com um final inesperado, que nos faz questionar toda a leitura até esse momento final e desejar relê-lo. Sally foi um conto que li sem pressas e foi muito agradável acompanhar a viagem de Alberto desde o momento em que conhece a Sally até ao final.
Pontos positivos: A forma como a história é contada, desvendada.
Pontos negativos: Nenhum.
Fez-me reflectir sobre: A perspectiva masculina sobre a beleza feminina.
"Sally" is a well-written short-story with an interesting and well developed story. Still, there was something missing, something that would turn the main character into more than a man without a will of its own. The immediate attraction he felt for Sally, for me, seemed too strange and made very little sense. A special note for the ending, which I liked, and also for the author's writing style, which was always gripping.