Neste livro foram reunidos 21 contos de Caio Fernando Abreu, um dos grandes contistas brasileiros e aquele que melhor retratou os dramas existenciais da geração de jovens urbanos que viveram o fim da ditadura militar.
O que me inquieta e fascina nos contos de Caio Fernando Abreu é essa loucura lúcida, essa magia de encantador de serpentes que, despojado e limpo, vai tocando flauta e as pessoas vão-se aproximando de todo aquele ritual aparentemente simples, mas terrível porque revelador de um denso mundo de sofrimento. De piedade. De amor." Lygia Fagundes Telles Contos: Alfa "Nos poços" "Réquiem por um fugitivo" "Gravata" "Oásis" "Visita" "Ascensão e queda de Robhéa, manequim & robô" "Retratos" Beta "Uma veste provavelmente azul" "Eles" "Sarau" "O afogado" "Para uma avenca partindo" "Iniciação" "Cavalo branco no escuro" Gama "Harriett" "O dia de ontem" "Uns sábados, uns agostos" "Noções de Irene" "A margarida enlatada" "Do outro lado da tarde" "O ovo apunhalado" Autor CAIO FERNANDO ABREU
Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago, no Rio Grande do Sul. Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo.
No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas, São Paulo.
Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais.
Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha.
Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad.
Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde posteriormente veio à falecer.
olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende?
"What they left to us were these three postulates: important is the light, even when it consumes; the ashes are more worthy than untouched matter, and salvation belongs to the ones who accept madness flowing in their veins."
A lucid madness. There's no other way of defining Caio Fernando Abreu's work. One of the best Brazilian short stories writers of the last century. In this book, Caio explores fantastic realism, creating forms and facts which stand on the edge of lucidity.
"I will never forget that rainy afternoon in Botafogo when I thought suddenly that I would never forget that rainy afternoon in Botafogo."
Moreover, permeates such scenarios with the crudity of life, exploring themes such as loneliness, deceptions, emptiness, and love. An exceptional work of a genius writer. It's a pity that you can't find his books translated into English. The rest of the world is missing a fantastic writer.
"And I told you that besides what we didn't have, nothing else remained to us".
e acreditávamos que um dia seríamos grandes, embora aos poucos fossem nos bastando miúdas alegarias cotidianas que não repartíamos, medrosos que um ridicularizasse a modéstia do outro, pois queríamos ser épicos heróicos românticos descabelados suicidas, porque era duro lá fora fingir que éramos pessoas como as outras.
caio fernando abreu me encantou mais uma vez com mais um livro de contos cheio de humanidade, unicidade e emoção. juro que falo a verdade quando digo que ele me inspira com suas histórias, com seu jeito de escrever que não se deixa levar por exageros, mas que consegue me intrigar e cativar e emocionar com cada escolha e cada página. assim como em Morangos Mofados, casa história traz algo novo pra coleção. sejam escolhas estranhas, sejam sentimentais, sejam confusas ou encantadoras, todos os contos servem um propósito. quero continuar lendo e me apaixonando cada vez mais pela literatura de caio fernando abreu <3
vou deixar aqui algumas das minhas passagens, frases e trechos preferidos dos meus 3 contos favoritos
do conto Visita
“essa coisa que chamamos saudade e que é preciso alimentar com pequenos rituais para que a memória não se desfaça como uma velha tapeçaria exposta ao vento. ela já não sorri mais.”
“porque tudo passou e é inútil continuar aqui, procurando o que não vou achar, entre livros que não me atrevo a abrir para não encontrar seu nome, o nome que teve, e certificar-me de que a vida é exatamente esta, a minha, e que não a troquei por nenhuma outra, de sonho, de invento, de fantasia, embora ainda o escute a dizer que compreende que alguns outros devem ter sentido a mesma dor e a suportam.”
do conto Eles
“a salvação pertence apenas àqueles que não aceitarem a loucura escorrendo em suas veias.”
“você pode ter notado que há os que olham o mar com olhar profundo e os que olham o mar com ar torvo. não só o mar. os que trazem a marca, mesmo que não saibam dela, esses olham as coisas com olhar de sangue.”
“foi quando eu senti, mais uma vez, que amar não tem remédio.”
“deixe que a loucura escorra em tuas veias. e quando te ferirem, deixa que o sangue jorre enlouquecendo também os que te feriram.”
do conto Afogado
“fizera seu aprendizado de solidão enquanto as coisas sentidas a cada dia tornavam-se mais e mais semelhantes (…)”
“e ainda que gritasse: o silêncio seria maior e mais desesperado que qualquer grito, porque todos gritavam e agiam da mesma forma, calada e idêntica.”
“carregava com alguma dificuldade uma aceitação tão grande e silenciosa, tão absurda no seu quase mutismo e absoluta desnecessidade de comunica-la ou demonstrá-la, sobretudo tão óbvia, lhe parecia que nenhuma daquelas pessoas seria capaz de compreendê-lo, da mesma forma como não compreenderiam a sua própria e pesada, intransferível, indivisível carga.”
“não julgo a ninguém nem a mim mesmo / vim de uma coisa que ainda não conheces / vim de uma coisa enorme da escuridão e de luz mais absolutas que possas imaginar a um só tempo / vim duma coisa sem medo / mas não sabes que trago em mim o princípio e o fim de todas as coisas”
"O que me inquieta e fascina nos contos de Caio, é essa loucura lúcida, essa magia de encantador de serpentes que, despojado e limpo, vai tocando sua flauta e as pessoas vão se aproximando de todo aquele ritual aparentemente simples, mas terrível porque revelador de um denso mundo de sofrimento. De piedade. De amor." Lygia Fagundes Telles
Segundo livro que absorvi do Caio. Falo absorver, pois tal livro é feito para ser degustado e não meramente escolhido ao acaso. Descobri Caio Fernando Abreu através dos livros e não por frases soltas, como praticamente todas as pessoas que o citam a torto e a direito. Meu sentimento ao lê-lo era o mais apropriado, e me fez mergulhar fundo no mundo dele, entrar por vielas escuras, sombrias, um mundo decadente e belo, um mundo de epifanias. Histórias que se desprendem da realidade, e digo que é preciso força e também angústia quando se transcorre por entre as páginas, pois assim é a verdade nua e crua da vida. O poço, primeira leitura, já nos mostra que o profundo também é abstrato, e pode sim, tirar proveito disto. Esse escritor gaúcho, que viveu em meio ao tropicalismo, no submundo, na contracultura, na letargia daqueles dias, do torpor da ditadura. Caio e profundo e apaixona, e mudou minha visão sobre mim mesma.
Li esse livro há mais de 10 anos e até hoje releio o mesmo conto “Para uma avenca partindo”.
Mesmo 10 anos depois, sempre me comovo com a forma como o CFA fala sobre a saudade, a perda, o vazio, o luto, ao mesmo tempo a gratidão, enfim, todas as sensações que temos quando perdemos alguém que amamos muito. É linda demais a forma como ele consegue traduzir essa sensação.
caio escreve de uma forma tão linda, tão intensa, te envolvendo nessa loucura que é magnífica em tudo que ele cria — algo que é tão próprio dele. meus contos favoritos foram "o afogado", "para uma avenca partindo", "o dia de ontem" e "do outro lado da tarde".
Didn't know this writer from the south of Brazil. Really good short stories, made me want to shoot in cinema some of it. Willing to read some of his other books.