«O Cristianismo: Essência e História» é uma demonstração de um trabalho hercúleo ("redigido à mão") onde o leitor pode obter não apenas informação sobre esta religião como uma série interpretações sobre a mesma, contextualizadas numa leitura contemporânea e perante as regras desde o ano 1.
Hans Küng utiliza, tal como o fez para o «Islão - Passado, Presente e Futuro», uma metodologia de identificação dos paradigmas do cristianismo usando como base a obra de Thomas Kuhn «A Estrutura das Revoluções Científicas». Tal como naquela obra, aponta cinco paradigmas e descreve com detalhe e rigor os tempos de clivagem que antecederam a passagem para um outro paradigma (quando assim aconteceu).
Se, por um lado, esta obra é enriquecida com constantes exercícios de comparação com as outras religiões "do Livro" bem como com análises sobre os acontecimentos mais marcantes protagonizados pelos principais atores desta religião (enfase para o catolicismo), por outro alguns temas que se consideram fundamentais conhecer, pelo menos para um leigo, passam ao lado do historiador: infalibilidade do Papa, celibato dos padres, iconografia, etc. Ou seja, estes assuntos são de facto aflorados e analisados, mas sem uma síntese, sem um resultado, como se essas questões ficassem no ar, empurrando o leitor para mais estudo; Claramente, não será uma obra de introdução ao estudo do cristianismo.
Por outro lado, não nos podemos coibir da leitura e análise a importância dada ao papel da mulher ao longo da história do cristianismo, o valor dado não apenas ao evangelho, mas sim à tradição da igreja (na linha da ICAR e das igrejas orientais) e a clareza do momento histórico da Reforma e o impacto das "Luzes".
Sob um efeito catalizador das leituras dos modernistas e pós-modernistas, Küng descorre, no final do seu livro, sobre a necessidade de uma ética mundial, como se esta coroasse toda a história do cristianismo. A meu ver, Hans Küng falha redondamente visto que aplica as bases da moralidade sobre as religiões e atividades de adoração sobrenatural, como se o não crente ("as pseudo-religiões ateístas" como lhes chama) fosse incapaz de um corpo de moralidade per se.
Escrito por "saltos", «O Cristianismo: Essência e História», aplica-se a fundo e aprofunda rigorosamente certos capítulos históricos e analíticos, mas - ao saltar - não cobre algumas facetas desta religião deixando no ar, quando se pousa este volume, uma insatisfação. Salve-se a enorme bibliografia para nos segurar ao chão.