Quantas Madrugadas Tem a Noite não é um livro fácil de ler. Apercebi-me enquanto o lia que o contacto que tive com a literatura lusófona e africana, basicamente Pepetela, Mia Couto e José Eduardo Agualusa, não me preparou para esta escrita tão intrinsecamente africana. Durante todo o livro vi-me forçada a consultar o glossário presente no fim do livro para perceber o que todas aquelas palavras significavam. Para além desses termos angolanos, que estão presentes em todo o livro, este está escrito numa linguagem muito oral, muito coloquial, propositadamente com erros ortográficos e gramaticais, o que torna a leitura, no inicio, um pouco difícil. No entanto, à medida que vamos entrando na história, a linguagem deixa de incomodar e conseguimos apreciar a beleza das palavras e das ideias. A beleza do mundo fantástico para onde Ondjaki nos leva e onde nos apresenta os protagonistas improváveis e caricatos desta história. Temos anão BurkinaFaçam, um homem de bom coração que vive dos típicos esquemas, sempre rodeado por duas prostitutas, Eva e Madalena. Temos o Jaí, um albino que �� professor por vocação, honesto até à raiz dos seus cabelos amarelos. Temos Adolfodido (assim mesmo como está escrito), antigo combatente sem idade para combater, cuja morte põe o país em polvorosa, uma vez que, não se consegue decidir quem irá ser a primeira viúva do estado, se DonaDivina (ex-mulher) ou KiBebucha (actual companheira). Adolfodido nem na morte deixa de fazer jus ao nome de fodido. :) Temos a KotaDasAbelhas, que matou a abelha rainha e foi promovida a rainha da colmeia, comandando as abelhas no fabrico do melhor mel que já se provou. Com ela vive um cão, perdão, com ela vive O Cão. Um ser assustadoramente grande, que ocupa a melhor divisão da casa e que a KotaDasAbelhas serve. Todos o temem e ninguém sabe que criatura é e de onde veio, talvez do Inferno? Não sei. :)
Em troca de birras (cervejas) um homem, com uma sede que parece infinita, num qualquer bar de Luanda, conta esta história a um outro homem, pela noite fora até surgirem os primeiros sinais da madrugada.
Não sei como são os outros livros de Ondjaki, mas sobre este só tenho coisas boas para dizer: é divertido, cheio de passagens inspiradas e inspiradoras e está muito bem escrito, ou melhor, a história está muito bem contada. Parece-me que ele consegue prender muito bem nas palavras o espírito luandense e é inevitável ficar rendida a toda a mística, que aparentemente só os escritores africanos parecem conseguir passar para o papel. Gostei muito e recomendo. :)