Um livro de muitas vozes, velocidades e lugares - Catalunha, Nova York, Paris, Berlim, um deserto no México. Mas não é como turista, apressado ou aprendiz, que a autora carioca circula. É quase como uma espiã perdida, seguindo ruas que se entrecortam, vozes e indicações que se confundem, impulsos e sentimentos contraditórios. De clara legibilidade, seus poemas mesclam referências tradicionais às obscuras sensaçôes vividas pelo viajante clandestino.
Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. Graduou-se em letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde defendeu a dissertação Velocidades e vozes sobre o livro Galáxias, de Haroldo de Campos. Tradutora, também integra o conselho da revista de poesia Inimigo Rumor, da editora 7Letras. Seu primeiro livro foi Encontro às cegas (Moby Dick, 2001). Lançou, em 2007, 20 poemas para o seu walkman, uma coedição Cosac Naify e 7Letras. O livro integra a coleção Ás de Colete e concorreu ao Prêmio Portugal Telecom de 2008.
Você vai viajar e está voltando de viagem ao mesmo tempo. Você faz e desfaz sua mala. Você está num limbo entre ser e não ser. O nome de uma rua é uma memória feliz e algo que você não compreende. A saudade de alguém é uma saudade que você não sente, mas te consome por dentro. Qual é o alfabeto mais apropriado para usar com quem não é daqui nem de lá? Você ouve essa canção no seu walkman, no seu discman, no seu mp3, no seu celular. Você lê o livro da Marília e é um caderno de viagem de alguém que rodou o mundo, mas não tirou os pés do chão, mas rodou o mundo.
Com seu charme turístico e peculiar ao conectar sentimentos tão universais com momentos tão individuais, é traçado um itinerário desconexo e que não me prendeu muito. Acredito que esse livro deve ser aproveitado como o walkman de Marília, acompanhando em uma viagem e dando valor emocional superior e conexão artística do lugar/momento, momentos em que a profundidade sentimental já existe pela situação vivida, e que, na memória, ficaram episódios de sua viagem e, talvez, do som/emoção de fundo
O Walkman também merece, mas as cinco estrelas agora vão pro Um Teste de Resistores, da mesma autora, que não achei aqui no Good Reads. Banalidades e reflexões sobre a vida e arte confluem num emaranhado de fios que produzem faíscas inspiradoras e calor. Os versos são mais que livres e, no entanto, obedecem a uma música interior, um ritmo sutilmente elaborado. Pra alguns não será poesia. Talvez por isso mesmo é um dos melhores livros de poesia dos últimos tempos.
"(...) os olhos desligados no escuro por dias cansados, as três estradas não significam nada [...] tenta identificar o contorno do rosto mas quando giram surpresos [...] quando giram surpresos vai segurando o riso para não perder o dia não perder o momento exato de se virar e dizer o nome errado"