Adonias Aguiar Filho (November 27, 1915 – August 2, 1990) was a novelist, essayist, journalist, and literary critic from Bahia, Brazil, and a member of the Academia Brasileira de Letras.
Este romance foi publicado em 1962, e segundo alguns encerra uma trilogia do autor sobre a região cacaueira na Bahia. Carlos Heitor Conny disse que "Corpo Vivo" mescla faroeste e tragédia grega. Concordo. A primeira cena na parte 1 do livro é puro western: a descrição da emboscada, a forma como os tiros das armas atingem as vítimas, o ritmo. É seco e é - sim - poético. As frases repletas de inversões o atestam, e a imagética da terra - agreste, inóspita, hostil, misteriosa, cheia de segredos e de armadilhas, terra que mata o homem e continua inatacável, fechada para ele; terra com a qual o homem pode, na melhor das hipóteses, transigir, aprender a contornar, obedecer sua rudeza, mas jamais domá-la - é impressionante. Para ler em voz alta, como poesia em prosa. E é romance de tragédia grega: o massacre e a criança sobrevivente, criada para vingar os mortos, menino que vira homem e fera porque seu ambiente e seus algozes são, também, feras, tem muito de tragédia. Falta falar do Naturalismo do autor, tão presente em obras anteriores ("Os Servos da Morte", de 1948), aqui também: o estilo de época passou, mas a escrita de Adonias Filho encorporou suas marcas, a descrição de fisionomias e de gestos, a visão de suas figuras, as palavras para nomeá-las. Linguagem naturalista que sobreviveu ao Naturalismo. Naturalismo ainda no determinismo, a ideia de destino traçado: há um fatalismo percorrendo o livro, visível na fala dos personagens. Beleza, ritmo, o que mais dizer? De mim, posso dizer que Adonias Filho é grandioso porque eu não gosto de sua visão de mundo, eu não gosto do assunto, não gosto da extrema violência, porém rendo-me à grandeza do autor. Talvez aí resida uma prova: se o leitor desgosta de tudo que apontei e ainda assim termina de ler o livro maravilhada, embasbacada, com um "Minha nossa..." escapando dos lábios, lendo e tornando a ler a passagem tal o maravilhamento - estamos diante de um grande escritor. Tão imenso que cativou uma leitora que desgosta de tudo o mais nele, mas queda-se emudecida, tentando escrever uma resenha que preste (não deu, mas tentei) e querendo ler mais, e mais, e mais dele... Há anos, falando sobre Adonias Filho num vídeo, eu disse que, malgrado minhas divergências ideológicas / de enredo com ele, eu jamais sentia, lendo o autor, que estava perdendo meu tempo. Nunca. Eu ainda não havia lido algo dele que alcançasse 5 estrelas, mas admirava-o fortemente. Adonias atingiu minhas expectativas, até as ultrapassou, com "Corpo Vivo". Magnífico. Soberbo. Sem palavras, que não dão conta. Chegou o momento: 5 estrelas. Viva o velho e querido Henry James, que dizia que na literatura, o que importa não é o assunto, mas o tratamento que o escritor dá ao assunto. Ele estava certo.
A trama apresenta a trajetória de Cajango, um homem que carrega em si a dureza e a brutalidade do interior baiano na época do ciclo do cacau. Após o assassinato de sua família, o jovem Cajango é o único que escapa do massacre, sendo ajudado pelos empregados de seu pai e indo se refugiar no meio da mata fechada do sul da Bahia. Já adulto, Cajango retorna em busca de vingança e acaba reunindo um grupo de foras da lei dispostos a lutar ao seu lado. A narrativa é construída em torno desse desejo de vingança, mas, à medida que a história avança, torna-se claro que o embate é muito mais do que uma simples questão de ajuste de contas: é uma luta contra o destino, contra a própria terra que molda e destrói. Os episódios são narrados a partir da perspectiva de João Caio, um novato do grupo, que vai conhecendo a história de Cajango e seus homens por meio de pequenos relatos que o leitor irá acompanhando mediante flashbacks esparsos entre os capítulos. Por mais que boa parte da trama seja repleta de violência, Adonias Filho escreve tudo de uma forma tão envolvente que nada ali é supérfluo ou aleatório. A saga de Cajango como um anti-herói é praticamente um "faroeste à lá Brasil" e não perde em nada para outros grandes clássicos literatura nacional. Adonias Filho é mais um dos autores esquecidos e injustiçados de nosso país e devia ser redescoberto pelas novas gerações. Sua obra oferece uma visão crua e poética do sertão baiano, revelando as complexidades e contradições de uma terra marcada pela luta e pela resistência. Redescobrir Adonias Filho não é apenas resgatar um grande talento literário, mas também se conectar com um pedaço essencial da identidade cultural brasileira.
Em "Corpo Vivo", Adonias Filho nos introduz a um mundo próximo, mas sanguinolento e vingativo. A história, que se passa no sul da Bahia, é rápida em fazer-te se aproximar dos personagens de forma aprofundada, sempre esperando o desenrolar de suas vidas. Como muito bem e já dito por alguns aqui, a história tem os moldes de uma tragédia grega, e consegue fazer honra à sua "inspiração". A história não é completamente linear, apesar de ser majoritariamente. Desde o início do livro sabemos parte do que acontece no fim. Por fim, vale a pena a leitura, que aumentará as esperanças de qualquer um para com a literatura nacional do século passado.