Fialho de Almeida (1857-1911) pertence àquela família de médicos que se tornam escritores porque vêem na literatura uma forma de medicina e na palavra um ácido corrosivo mas terapêutico. Fialho tomou a sociedade humana como um corpo cuja anatomia só podia ser conhecida depois de friamente dissecada a bisturi. O primeiro cadáver que ele cortou com os instrumentos cirúrgicos da literatura foi o da Ruiva, essa compleição de estátua num corpo de operária lisboeta, em 1878. Tinha vinte anos e o resultado é uma nova histologia social. Louis- -Ferdinand Céline, médico como ele, escreverá depois o breviário da profissão destes novos saturar o negro do negro, saciar o veneno de veneno, porque as epidemias só desaparecem quando os micróbios se enjoam das suas toxinas.
José Valentim Fialho de Almeida, known as Fialho de Almeida is a portuguese doctor and post romantic writer. Since 1893 he dedicated himself to journalism and literature.
His writting style is naturalistic, based on a strong perception of reality marked by strong emotions and city/ country side themes.
His published works include Tales (1881), Vice city (1882), The Cats (1889 and 1894), Pleasant Lisbon (1890), The Grape Country (1893) and Galiza (1905).
La pelirroja, hija de un enterrador, cree que encontrará la felicidad en el matrimonio, cosa que no sucede. La novela retrata a las clases humildes de la Lisboa de finales del XIX y sus aspiraciones que esperan convertir en una realidad palpable.
Lo destacable es la modernidad del libro tanto respecto al estilo caracterizado por el uso de la prosa poética para describir la ciudad que se mimetiza con el aire desgraciado de los personajes como por el tratamiento de ciertos temas, como el erotismo, por poner un ejemplo, muy explícito, rozando lo pornográfico, en ocasiones, o el pesimismo respecto a la posibilidad de un futuro mejor para los protagonistas de la novela que parecen destinados a ser infelices hasta su desaparición.
Los siete locos y Los lanzallamas de Arlt que acabo de leer, esta novelita de Fialho de Almeida junto a la primera novela de Dostoyevski, Pobres gentes, conformarían una trilogía singular.
No geral até que gostei da história, mas houve partes em que dei conta da minha mente estar a divagar porque não me puxava muito. A escrita é interessante, frases bastante longas entre algumas bastante descritivas. Senti pena da vida da Carolina mas ao mesmo tempo fiquei irritada com ela porque não tomava iniciativa, não tinha brio nem interesse em tê-lo apenas se entregava à preguiça. Até que é compreensível o desinteresse do João. Duas personagens que levaram uma vida difícil e marcada pela morte, especialmente a Carolina que cresceu no meio dela, constantemente rodeada pela morte. Não tenho muito para dizer sobre este livro para ser sincera.
O livro aborda a história de Carolina, "A Ruiva", uma mulher predestinada ao triste fim desde à nascença. Perdendo a mãe logo a nascença, Carolina tinha um pai coveiro, permanecendo constantemente nesse ambiente mórbido onde praticava a sua sexualidade com mortos de uma forma que considerava quase natural. Após a morte da mãe, o seu pai perde-se na vida e começa a praticar hábitos que antes não fazia, estava bêbado constantemente e já não seguia um rumo certo. Carolina, influenciada desde a nascença nunca teve muita sorte, é com a ajuda de sua amiga Marcelina que conhece João, um homem que supostamente estava interessado nela. A obra reflecte igualmente para a história de João, reflectido para a violência constante do pai para com ele e a mãe, e a forma como a mãe houvera morrido e o pai houvera sido preso. Carolina e João estavam ambos predestinados à desgraça desde o berço, dada a nascença em famílias corrompidas pela desgraça, quer da bebida, quer da morte de alguém demasiado próximo. Ambos começam a relacionar-se e a viver juntos, só que logo João começa a fartar-se da mulher, visto ela ser demasiado descuidada, não sabia fazer nada, não se cuidava, ele estava pior do que estava quando se encontrava só. O não funcionamento da relação leva a perdição do companheiro João na bebida e posteriormente à sua própria perdição, prostituindo-se por nada e ficando mais suja do que já era. A mulher acaba desterrada sem que ninguém quisesse saber dela. A obra reflete para o triste fim de "A Ruiva", a mulher que não conseguiu ultrapassar a morbidez da família à nascença.
El placer junto a cuerpos indefensos, como el que sentía el Eguchi de Kawabata en La casa de las bellas durmientes, la necrofilia inicial de la Ruiva, una que nos recuerda al Jean-Claude Villanueve de Bolaño en Retorno o al Allan Poe de dientes y tumbas, y el erotismo pueril dejan paso al realismo miserable de un ambiente sub-urbano lisboeta decimonónico en el que el destino de la Pelirroja como el de toda su clase está escrito en las más sucias páginas de la violencia, el patriarcado, la humillación, la prostitución y la muerte. Se pregunta sobre las causas de la depravación actual (la del siglo XIX) y se reponde una lineas antes "...esta floreciente ciudad que pasa días llenando de monedas falsas los Brasiles y sirviendo aceite de bacalao al mejor de cien mil tuberculosos". Hipocresía? Pasan los siglos y poco cambia.
Carolina, a ruiva, e João, o aprendiz, são dois personagens-arquétipo que, desafortunadamente, tecem um retrato fidedigno da realidade da época do texto (e, inclusive, em parte dos dias de hoje), isto é, dois personagens que estão assolados pela maledicência, o azar e o calvário desde o berço. Fialho de Almeida, médico de profissão, utiliza os seus conhecimentos, então, para efetuar uma dissecação da vida destes personagens e, assim, retratar fielmente a sociedade à qual é contemporâneo, buscando detalhar com afinco “as causas prováveis da grande desmoralização” que abismava (e ainda abisma) o povo. Ao longo da narrativa, deparamo-nos com uma história algo previsível, pontuada de presságios cáusticos e soturnos, porém certeiros e, acima de tudo, realistas – sobretudo no que toca às causas e fins das miserandas existências pululando em Portugal nos finais do século XIX.
Ademais, o escritor demonstra uma capacidade suprema para desenvolver uma escrita ornamentada que, por vezes, chega a ser algo entediante, no que toca à descrição de espaços ou eventos e, acima de tudo, na adjetivação dos esgares e aparência física dos intervenientes na ação: não querendo dizer que, a meu ver, uma linguagem mais complexa e arrebicada seja inerentemente um traço negativo que se pode associar a uma obra escrita, todavia, sinto que neste caso em particular, e tal como pressagiado pelo escritor na introdução da mesma quando se prontifica a dedica-la a Camilo Castelo Branco, este carácter se exacerba numa tentativa de prestar tributo e alcança patamares que ultrapassam o “desejável” ou o “necessário”, acabando por entrar, a miúde, numa espécie de show-off extremo das opulentes capacidades de Fialho e inoportuna o desenrolar de uma leitura fluída. Conquanto, é verdade que, e sobretudo na primeira parte do livro, algumas descrições dos ambientes lúgubres, como o cemitério ou as tascas, bem como das pândegas, arraiais e pequenas romarias populares são autênticos baús e permitem conservar uma ideia realista de como seriam os costumes, as tradições e o estado lastimável das condições de vida do povo aquando da redação d’A Ruiva; as descrições dos momentos de abandono parental, assédio e violência doméstica, por sua vez, creio terem adquirido uma pungência acutilante que me fizeram veramente questionar este tipo de comportamentos e consequentes violências e traumas que deles advém.
Sinto que, e se calhar isto será derivado de uma perspetiva mais pós-modernista sobre o tema, o autor poderia ter-se adentrado mais na exploração psicológica das personagens: as causas dos descalabros e desaires são nos mais que dadas e retratadas, o que nos poderá dar uma ideia do que passará pela mente dos intervenientes, não obstante, creio que exploração da dimensão psicológica dos dois protagonistas ficou aquém do esperado, especialmente em João, que acaba se tornando numa personagem algo bruta e unidimensional mais para o fim da história.
Por fim, gostaria de ter sabido mais sobre a vida, as intenções e as intrigas de Marcelina, inclusive.
“Ai vida, vida! Só aquelas nunca estão tristes” (Ah, life! Only those who are never sad!.)
Beware of book covers. A simple title, The Redhead. The cover image, Death and the Maiden by Egon Schiele. Let your mind wander.
Carolina was born to a gravedigger father and a mother who died during her birth. She was a good girl helping her father. She quickly realized that sooner or later, no matter your title or wealth, everyone ends up in the cemetery. She grew up alone without love, her mother and others. Her father wallowed away with bitterness. At age fifteen, after passing a local brothel, her curiosity was peaked. Senhora Marcelina took her in and introduced her to the ways of love.
Her first “love” was big virile João. Her first experience was full of stars. So many stars that she became obsessed about the young man. João spent his days begging, living under the steps. His life was tough but Carolina was sweet. One day his mother became very ill and his life collapsed. Carolina wanted to help, her feelings grew, and she wanted nothing more than to be a “good woman.” Her optimism blinded her.
The Portuguese writer and journalist Fialho de Almeida (1857-1911) was originally a naturalist writer. Towards the end of the century, he aligned himself with the French Decadent Movement following after such writers as Baudelaire (Les Fleurs du Mal) and Huysmans (À rebours). Life seemed better on the dark side.
Decadence is certainly at play here. When you consider the poverty, the bleak and tough life coupled with the dark side, this is not a happy story. Nor is an Egon Schiele painting. You have been forewarned.
Infelizmente, a novela não começa logo na acção, mas dá-nos antes um detour para que nos preparemos ao que ai vem. As personagens centrais: Carolina e João são-nos bem descritas e contêm uma profundidade realista. As descrições são um pouco exaustivas e algumas redundantes, no entanto, é também nas descrições que está o melhor do livro: as imagens de miséria e tristeza estão de tal modo bem escritas que vão ficar na memória durante muito tempo. A trama desenvolve-se, embora sem grande surpresas visto que conhecemos o final de antemão. A leitura não é fácil devido aos blocos de descrição. Mas, se tivermos em conta o estilo da época, esta novela estava sem dúvida bem escrita para os parâmetros do realismo. Recomendo a quem quiser um sentir como era a vida dos pobres de Lisboa no final do século XIX, contada por um contemporâneo.
Com uma escrita muito cuidada e alguns floreados sem deixar de ser acessível, Fialho tem um grande sentido estético. Já Guerra Junqueiro o afirmava: "Fialho é a mais rica natureza artística que Portugal tem gerado há duas dúzias de anos." (Pátria, 1896) Notei-o mais no início da novela, tornando-se a acção mais fluida e rápida a partir da introdução do João e as suas origens. A imagem decadente dada da classe baixa Lisboeta dos fins do século XIX, a miséria e o pessimismo resignado que é apresentado, fez-me lembrar os quadros de José Malhoa (O Fado, Os Bêbados, por exemplo). Note-se que nenhuma personagem é representada de forma inquestionavelmente positiva: os homens acabam todos por ser bêbados e austeros, as mulheres rapidamente perdem a inocência. Até Carolina, que podendo-se dizer que não teve culpa de nascer em circunstâncias difíceis, deixa os seus instintos carnais levarem a melhor na presença dos corpos defuntos. Digo já agora, para quem goste de roteiros literários, este pequeno livro oferece um agradável passeio por Lisboa: começando no Cemitério dos Prazeres (não deixando de admirar a estátua do Conde das Antas que tanto fez sonhar Carolina), passa por Basílica da Estrela, S. Pedro de Alcântara, S. Roque, Chiado, Rua do Carmo, Rossio e baixa.
Promete, mas não cumpre, a meu ver. De início, a exploração do ambiente macabro e das atitudes necrófilas das personagens - o pai coveiro que dorme nos jazigos, a filha que cresce entre mortos, mortalhas e celebrações fúnebres, o despertar da sexualidade adolescente que desemboca numa parafilia perversa. O enredo promete. Destacam-se ainda os espaços sociais - a fábrica, os bairros pobres, a taberna, os prostíbulos. Depois o protagonista masculino desta história de amor(?), oriundo de um lar de pobreza extrema e violência doméstica, escapa, um dia, deixando a mãe à mercê de uma violência tão exacerbada que a leva à morte. Procura-a numa casa mortuária que o fazem crer ser um hospital. O autor poderia ter explorado mais os ambientes sociais que, no final, afirma ter visado denunciar.
Não achei este conto minimamente cativante, tirando algumas excepções pontuais. O uso inteligente do português faz Fialho de Almeida ganhar pontos mas mesmo assim ficou áquem das expectativas.
O tema é bastante interessante: a morbidez da existência da Ruiva - a filha do coveiro - marcada pelas suas descobertas que roçam a necrofilia e toda a espiral de acontecimentos que culminam na tragédia da sua vida, consequência de escolhas futéis meramente estéticas (...)
O tema tinha tudo para dar certo, aliado ao uso fluente da lingua, contudo ficou a faltar adicionar algo (...)
A história de uma jovem rapariga, orfã de mãe, filha de um coveiro e totalmente abandonada. Não educada, não socializada, negligenciada em todos os aspectos da sua vida, linda e dona de um incomum cabelo ruivo, esta jovem vagueia pela vida, sem conhecer o que da vida se pode obter, e o que uma rapariga da sua idade é suposto viver. Fialho de Almeida escreve com uma fluidez e "ritmo falado" característico. Descreve a miséria e os amores de Carolina, do bairro e dos seus habitantes.
A história de uma jovem rapariga, orfã de mãe, filha de um coveiro e totalmente abandonada. Não educada, não socializada, negligenciada em todos os aspectos da sua vida, linda e dona de um incomum cabelo ruivo, esta jovem vagueia pela vida, sem conhecer o que da vida se pode obter, e o que uma rapariga da sua idade é suposto viver. Faz lembrar o ambiente de decadência social presente também nas obras de Dickens.