"Finalmente o meu reflexo no vidro, misturado com as primeiras sombras. O que me tranquiliza um pouco. O rosto afilado, a grande massa de cabelo escuro. Digo baixinho o meu nome, muitas vezes seguidas, o que também me tranquiliza um pouco. Rebeca. Rebeca de Winter. E a casa chama-se Manderley."
Em "O Verão Selvagem dos Teus Olhos" encontramos uma revisitação da obra "Rebecca" de Daphne du Maurier, onde a protagonista e narradora é a própria Rebecca, que nos dá uma perspectiva bem diferente do que poderá ter acontecido antes da sua morte misteriosa, descrevendo os acontecimentos do seu ponto de vista dando uma nova visão à mesma história. A enigmática presença de Rebecca no livro original, ganha aqui outra dimensão.
A escrita de Ana Teresa Pereira conseguiu recriar de forma magistral a atmosfera fantasmagórica e mágica do livro original publicado em 1938, com as personagens, os locais e as descrições a serem muito fiéis ao famoso "Rebecca". Aliás, para mim só faz sentido ler esta história, depois do ter lido o livro de Daphne du Maurier, existindo sérios riscos de ficarmos perdidos no meio da história de um fantasma que nos é completamente desconhecido.
Gostei da escrita objectiva e simples de Ana Teresa Pereira e da profundidade que deu a uma personagem vilanizada no primeiro livro. A escritora consegue recuperar a humanidade de uma personagem clássica, ao explicar algumas das suas atitudes. Torna-se uma personagem com várias camadas e com várias tonalidades de cinzento, que foge a uma dicotomia entre o bem e o mal, o que me agradou muito.
"Lembro-me de um actor dizer que só um anjo pode representar o papel do diabo, afinal o diabo é um anjo caído.
Eu sempre me senti uma estranha, como um anjo caído que não sabe muito bem onde está, nem qual é a sua natureza; ele é muito diferente dos que se movem à sua volta, e tem de fazer um esforço para passar despercebido. Uma questão de auto-defesa."
"O rosto dele endureceu mas ela mal deu por isso. Sentia-se demasiado feliz, demasiado confiante. E para ela era natural, conhecera outros homens, era evidente que conhecera outros homens, mas nenhum fora importante, porque nunca se apaixonara, era como se no mais fundo de si mesma esperasse por ele."