Entrei em contato com "Cartas da Tailândia" por acaso. Para uma disciplina de graduação, molhava os pés no conceito de "rede de bambu" no sudeste asiático, quando pela relação com o tema, me deparei pela primeira vez com o título. Era 2021 na ocasião, e desde então não deixei de pensar no título - que jurei ler um dia quando houvesse oportunidade. Mas, de fato, nunca tinha havido oportunidade até agora. Apesar de um marco da literatura tailandesa moderna, foi muito dificil encontrar um exemplar que 1. não precisasse ser importado, e 2. não custasse absurdos. Até enfim encontrar por acaso em um sebo em Brasília - assinado como presente de Giles Ji Ungpakorn ao falecido diplomata Arnaldo Carrilho. Finalmente tinha nas mãos essa jóia, que parece quase privativa à Tailândia, e cujo exemplar pertenceu a gigantes.
Trata-se de uma coletânea de cartas de um jovem chinês em Bangkok para sua mãe na vila de que veio, escritas ao longo de mais de vinte anos (dos meados dos anos '40 até o final dos anos '60). Cartas, essas, que nunca chegaram ao vilarejo: conta o censor real que foram confiscadas de um carteiro chinês que confessara nunca ter entregue as cartas, por se interessar demais pela história do remetente. E que, por se pegar igualmente intrigado pela história e pela crua verdade de seu conteúdo, fazia publicar essas cartas.
Cartas contando de como o jovem Tsuang U fugia do (ainda) vilarejo de Po Leng no sul da China, pela promessa de riqueza e prosperidade que as histórias vindas da Tailândia continham. E Tsuang U não é uma pessoa real, diz a nota de tradução, mas um mosaico da experiência dos cidadãos de Bangkok, nestas primeiras horas da alvorada da globalização em que a modernidade começa a nascer das ruínas da Segunda Guerra.
E talvez por isso seja tão difícil escrever a respeito do livro que é famosamente controverso entre a comunidade tailandesa, por sentirem-se insultados pela forma como o protagonista descreve e retrata tailandeses; embora seja também controverso entre a comunidade chinesa, pelo forma revoltante com que (dizem) são retratados no livro. É um jogo entre a tensão étnica, a tensão de classe, a tensão linguística e a tensão de gênero, tão confusa e distintamente absorvida e processada pelas pessoas em seu dia-a-dia.
Temas fortes que relacionam a tentativa da manutenção do próprio senso de comunidade e de si, com a sobrevivência da cultura como migrante, com a reprodução de flagelos que este conservadorismo traz, e finalmente com a forma como tudo isso se traduz nas relações familiares, em suas dores e alegrias, e nos próprios ideais de cada um. Tudo isso enquanto um novo mundo surge em um piscar de olhos. É uma experiência única ver como um garoto que vem à Bangkok em busca de prosperidade e de dinheiro para enviar para casa, se torna gradualmente um homem conservador e racista, embora sem deixar de ser a exata mesma pessoa que veio - jovial, esperançosa e, mais importante, temerária pelo futuro próprio e de sua família.
É impossível também ignorar o quanto relações de gênero e direitos reprodutivos são centrais ao livro. Botan, autora mulher, filha de fazendeiros que não criam importante que tivesse uma educação (e que mesmo assim frequentou a universidade), muito felizmente deixa bastante claro o quão central é o assunto quando se trata de reprodução humana como reprodução cultural. O papel do casamento, o papel da família, a subordinação feminina, a expectativa de filhos meninos tidos por filhos meninos, a dor de se ter filhas meninas, da divisão sexual do trabalho. E a bem consruída tridimensionalidade das personagens femininas do livro é fundamental para isso.
Por causas dessa difíceis nuances, foi um livro que me emocionou muito e que fui incapaz de parar de pensar sobre, mesmo quando era obrigado a largá-lo pelas obrigações do dia. É bonito vê-lo ser acolhido; triste vê-lo magoar pessoas para previnir uma miséria que seus filhos (graças a ele) jamais sentirão; revoltante vê-lo renegar quem o ama em virtude da manutenção de suas tradições; aliviante vê-lo aos poucos se abrir novamente ao mundo. E agridoce vê-lo finalmente parar de escrever após sentir-se capaz de fitar o passado e vislumbrar o futuro sem se desequilibrar.
A linha tênue entre como a união da comunidade é capaz de levar as pessoas adiante, mas como o apego conservador à reprodução cultural por si só é mesquinha, tacanha e envenenante. Talvez a questão seja que a empatia, a bondade e o carinho que Tsuang U recebeu ao chegar nessas terras a ele estrangeiras (e por ele conquistadas), deveriam ser o norte pelo qual conduzir seu senso comunitário; não as unhas e dentes com as quais lutava contra a passagem do tempo, confundindo isso com a manutenção da solidariedade de outrora.
Facilmente uma das melhores leituras que fiz durante o ano; talvez ao longo da vida. Uma lástima que seja uma obra tão pouco publicada, traduzida e conhecida.