vamos todos sonhar com Isaac Bábel, acordar no meio de diamantes, ler com vertigo, e ser personagens de carne e osso, bem rastejantes, num filme de gangsters.
o Brasil urbano cabe todo neste romance policial e bibliófilo, quando o muro de Berlim ainda se segurava, e o protagonista, realizador de tiradas godardianas, tinha sonhos húmidos por um manuscrito perdido, e fornicava com mulheres bem mais jovens do que ele, malgré lui;
o seu irmão chama-se José (o prenome de R. Fonseca) e é líder de uma seita evangelista que tem uma cadeia de TV e quer ser presidente do Brasil (onde já vimos isto? corrijo, veremos um dia, em menos de duas décadas).
foi há tanto tempo e no entanto é muito do nosso tempo —a literatura actualiza-se sozinha, não precisa seguir ‘trends’ ou falar dos problemas do agora porque a pertinência do contemporânea é apenas ilusória—, continuamos humanos, bestas, insondáveis.
era 1988, é hoje e será depois: a tecnologia e as modas chegam, passam, vão alienando consciências, as vastas emoções perenizam-se, tudo é imperfeito.
(3,7)