Esse é um breve ensaio, segundo ele uma continuação do seu On bullshit. No livro anterior ele dava mais atenção aos “impostores e embusteiros que tentam, com o que dizem, manipular as opiniões e as atitudes daqueles a quem se dirigem. O que lhes importa basicamente, portanto, é se o que dizem é eficiente para conseguir essa manipulação. Assim, eles são mais ou menos indiferentes sobre se o que dizem é verdadeiro”. Uau, isso me parece tremendamente atual, talvez mais atual do que o próprio Sobre a verdade.
Publicado em 2005, em Sobre a verdade ele se debruçou a respeito de um elemento que havia deixado de fora do ensaio anterior: por que a verdade é importante? O que há de tão fundamentalmente relevante na verdade?
O alvo dele, me parece, eram os pós-modernistas, que tinham como mote um relativismo extremo que não via distinção entre várias ‘versões’. De certo modo, isso – até então contido nos ambientes universitários – se espalhou como fogo selvagem na sociedade. Na terceira década do século XXI, fala-se, somente em narrativas, que nada mais são do que ‘versões’. Danem-se os fatos, dizem as pessoas hoje. O que importa são as narrativas, as minhas verdades (que muito frequentemente são apenas opiniões pessoais destituídas de quaisquer vínculos com a realidade).
Diz ele, ainda, que “qualquer sociedade que consegue ser minimamente funcional tem de ter, julgo eu, grande apreço pela utilidade infindavelmente multiforme da verdade”. Isso significa que ao procurarmos um médico não devemos estar preocupados que ele nos mostre a ‘sua verdade’, mas os fatos e elementos que nos levam a certas conclusões. Alguém aí pensou em cloroquina?
Talvez ele tenha sido otimista demais com a racionalidade humana. Escrevendo antes das redes sociais, ele não poderia ver como apenas alguns anos depois, as pessoas não só compartilhariam a falsidade, como ainda encontrariam apoio, amizade, cooperação em torno de ideias falsas. Teorias conspiracionistas sempre existiram, mas com as redes sociais elas adquiriram muito maior expressão e difusão. Talvez, hoje, as pessoas não se preocupem tanto com a verdade, mas com a certeza, mesmo que seja a mais absurda possível. Busca-se a certeza como algo capaz de oferecer conforto. Penso, por exemplo, quando vejo tuítes em que pessoas defendem que se deve estar 100% com o seu líder político.
Bem, antes que divague muito, voltemos ao livro. Ele afirma que a incapacidade de distinguir verdadeiro e falso significa o colapso da racionalidade como uma possibilidade. Bem, é exatamente isso o que se vive hoje. Ele defende que “em minha opinião, contudo, quase sempre é mais vantajoso encarar os fatos com que temos de lidar do que continuar a ignorá-los”. Bem, hoje, 2021, a minha impressão é que um grande número de pessoas se sente mais confortável em viver dentro de uma mentira. Basta que ela tenha uma ilusão de realidade suficiente para produzir conforto. Obviamente isso produz tremendos estragos a longo prazo, mas me parece que se escolhe mais frequentemente o prazer imediato do que o futuro, mesmo que isso signifique piora lá na frente.
Por fim, ele cita uma poeta – desconhecida para mim – chamada Adrienne Rich – que observou que “o mentiroso leva uma existência de indizível solidão”. Ela se referia às relações individuais, amorosas principalmente. Talvez valha como um reflexão sobre tudo o que é a verdade.