Os contos de Nivaldo Tenório revelam a seletividade na escolha das palavras e o poder de síntese, de dizer tanto em poucas frases. Seus contos transcorrem num estilo seco, enxuto, que revelam grande capacidade de observação do ser humano, de seus sentimentos e adaptação às circunstâncias.
Aproveitando o final do verão para ler a ótima coletânea de contos Verão, de Nivaldo Tenório. Composto por 10 textos, o livro faz um retrato ora divertido, ora melancólico de relações humanas, laços de afeto, que se apertam e afrouxam com o passar do tempo.
Os contos são marcados pelos personagens no limite, pela transformação que nem sempre virá, mas sempre se faz necessária. No primeiro deles, “Tsunami”, por exemplo, o narrador de 16 anos conta sobre o último verão da família. A narrativa caminha para uma conclusão inevitável com o fenômeno do título, mas que ocorrerá (depois do filme do conto) de forma metafórica. É também uma história sobre as dores do crescimento.
No conto que dá título à coletânea, uma menina tem como amigo seu irmão imaginário. “Nasci tarde na vida deles. Mamãe já não era jovem quando se casou, e essa é a razão, segundo ela, por que não me deram um irmão.”, começa o texto. É nessa ausência que se materializa a dispersão da unidade familiar – não que o filho faça exatamente falta aos pais, mas à jovem dá uma espécie de lucidez observacional daquela estrutura fragilmente sustentada.
Verão também é marcado por uma linguagem poética. “Eu acabei de acordar, a janela está aberta e por ela entra uma luz diáfana e é tão bom e acalentador que por um momento penso ainda estar sonhando, mas os barulhos eletrônicos vindos da sala me garantem que acordei”, diz o narrador de outro conto. Em trechos, como esse, o autor cria uma atmosfera marcante a partir da descrição evocativa de imagens. São sutilezas como essa que dizem muito sobre a qualidade do livro e a mente das personagens.