JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS nasceu a 7 de Dezembro de 1936. Ao longo da sua vida exerceu várias actividades profissionais, desde vendedor até técnico de publicidade. Como autor estreou-se com Liturgia do Sangue, em 1963, embora o seu nome seja revelado sobretudo através de poemas escritos para canções, principalmente satíricas e de intervenção, e para fado, domínios em que operou uma renovação profunda, apostando na possibilidade de fazer passar, através da música, para o grande público, composições onde, num tom exaltado e passional, a sátira social co-existe com o arrebatamento lírico. Foi também o autor de Adereços, Endereços (1965), Insofrimento in Sofrimento (1969) e Fotos-grafias (1971). Numa segunda fase, escreveu As Portas Que Abril Abriu (1975), obra que revela o seu entusiasmo com a revolução do 25 de abril de 1974 e com a militância de esquerda. Faleceu em Lisboa, a 18 de janeiro de 1984. Foi condecorado, pela Presidência da República, a título póstumo, com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em 2004.
Serei tudo o que disserem por inveja ou negação: cabeçudo dromedário fogueira de exibição teorema corolário poema de mão em mão lãzudo publicitário malabarista cabrão. Serei tudo o que disserem; Poeta castrado não!
Os que entendem como eu as linhas com que me escrevo reconhecem o que é meu em tudo quanto lhes devo: ternura como já disse sempre que faço um poema; saudade que se partisse me alagaria de pena; e também uma alegria uma coragem serena em renegar a poesia quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu a força que tem um verso reconhecem o que é seu quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala - é tão vulgar que nos cansa - mas que dizer de uma bala num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história - a morte é branda e letal - mas que dizer da memória de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser o poema dia a dia? - Um bisturi a crescer nas coxas de uma judia; um filho que vai nascer parido por asfixia?! - Ah não me venham dizer que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem por temor ou negação: demagogo mau profeta falso médico ladrão prostituta proxeneta espoleta televisão. Serei tudo o que disserem: poeta castrado não!
Tu que dormes a noite na calçada de relento Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento És meu irmão amigo És meu irmão
O Natal é quando um Homem quiser!
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume E sofres o Natal da solidão sem um queixume És meu irmão amigo És meu irmão
Natal é em Dezembro Mas em Maio pode ser Natal é em Setembro É quando um homem quiser Natal é quando nasce uma vida a amanhecer Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar Tu que inventas bonecas e combóios de luar E mentes ao teu filho por não os poderes comprar És meu irmão amigo És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei És meu irmão amigo És meu irmão
Natal é em Dezembro Mas em Maio pode ser Natal é em Setembro É quando um homem quiser Natal é quando nasce uma vida a amanhecer Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Obra Poética é uma coletânea que reúne a essência da produção poética de Ary, incluindo os seus poemas mais significativos, escritos ao longo da sua carreira. A obra funciona como uma compilação que revela a sensibilidade, os temas recorrentes e o estilo característico do autor, proporcionando ao leitor uma visão abrangente da sua trajetória literária. Com um estilo intenso e emocional, caracteriza-se por uma linguagem directa e acessível que procura estabelecer uma forte conexão com o leitor. Os seus poemas revelam uma sensibilidade aguçada e combinam elementos do lirismo com uma veia de denúncia social, refletindo o seu papel político e social. Além disso, Ary dos Santos utiliza uma linguagem coloquial e vigorosa, que reforça a força das suas mensagens e a proximidade com o povo.
"Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos. Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens. Que viemos, amámos, pecámos e partimos Como a água das chuvas."