Mestre dos diálogos enxutos e desconcertantes da frase curta e explosiva, Lourenço Mutarelli experimenta na escrita todas as facetas de sua trajetória de artista gráfico, dramaturgo e roteirista. O humor negro afiado, a linguagem presa à ação e as influências dos quadrinhos, do cinema e da poesia aparecem de forma ainda mais perturbadora em seu quinto romance, Miguel e os demônios.
É fim de ano em São Paulo, época em que o calor é infernal e todas as ruas conspiram ao frenético comércio natalino. Miguel é um policial angustiado pela falta de dinheiro e dúvidas inconfessáveis. Acabou de se separar da mulher e perdeu o filho de vista por conta do caso que mantém com uma manicure. Mas outros eventos o afligem: a filha da namorada tem o estranho hábito de comer o reboco das paredes; a cunhada insinua-se para ele; o ex-marido da namorada cometeu um crime bizarro; o pai viciou-se em programas de televendas; e, ao flagrar o chefe em situação suspeita, Miguel passa a receber ameaças. Finalmente, seu parceiro de polícia o convida para fazer serviços extras que rendem bom dinheiro - ao mesmo tempo em que burlam a lei e a moral.
Neste antirromance policial, o angustiado Miguel acaba sendo arrastado para uma trama que envolve pedofilia, possessão, múmias mexicanas, seitas bizarras e travestis sedutores. Sua descida aos infernos é contada a seco, em cenas fragmentadas - numa técnica narrativa que poderia ser chamada de "HQ sem imagens".
Mutarelli continua confirmando ser um dos raros escritores nacionais que ainda vale a pena serem lidos. Por enquanto, pelo menos. Com essa obra que não precisa ser muito sagaz pra saber por que improvavelmente será adaptada ao cinema por um tempo, infelizmente. E os serviços de streaming apenas tornam essa adaptação ainda mais improvável. Se não se considerar tal coisa francamente desnecessária, inclusive. É o suficiente lê-lo já que seu propósito não é nem um show de efeitos especiais muito menos ser uma expressão de moralismo barato. Falando nisso, essa obra pode ser lida como uma ótima e infeliz resposta ao blockbusters nacionais da franquia Tropa de Elite, dos ilustres Capitão Nascimento e José Padilha que popularizaram e tornaram admirável pela primeira vez as forças policiais militares até hoje vigentes e adoradas. Na verdade, o autor lembra muito histórias policiais absurdas de outros escritores internacionais, como o chileno Bolaño, citando um que é mais ou menos contemporâneo.
What starts out as a cop drama soon devolves into a deranged (pseudo?) supernatural trip. The central character is the police officer Miguel, a conflicted human being, who takes care of his aging father and his single mother lover. Miguel struggles with the complexity of his relationships and of the demands of his job. The narrative includes elements of the bizarre, as Mutarelli usually include in his stories, but the plot progresses somewhat normally until Miguel comes across a mummified body at a crime scene. From that point one, the ride gets bumpier, faster, and less predictable. The short sentences strung together in nearly cinematographic writing style keep the narrative moving at a fast pace and the plot twists and turns keep the reader engaged.
Eu diria que o que o Mutarelli faz na literatura, em matéria de suspense, não tá no gibi, mas nem conheço a obra gráfica dele nem o trocadilho é lá muito esperto. A estrutura de roteiro cinematográfico desse romance caiu como uma luva na mão leve que me trouxe pra cá depois de ler "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa". Novamente, essa mão foi erguendo um castelo de cartinhas de tarô que, infelizmente, dessa vez, foi desastradamente sacudido em seus alicerces por uma mão pesada e intrusa que entra em cena lá no finalzinho da história, a partir da página 87. Quase tudo o que vem depois é um registro em câmera lenta da derrocada desse pequeno monumento construído anteriormente.
Gargalhada. A risada vai sendo abafada por um zunido. Uma mosca. Uma enorme mosca. A câmera se afasta, revelando que a mosca se debate contra o para-brisa. Interior de um Fiat Uno branco modelo 94. Dezembro. Calor. Miguel está ao volante. Sério. Suando. Sépia. Imagem borrada, luz difusa. Lembrança. Miguel dirige a mão para a cabeça do pai. Tenta fazer um carinho. Não consegue. Esforça-se, procura tocá-lo, mas há uma barreira que ele não consegue vencer. Quer beijar o pai. Quer dizer tantas coisas. Miguel luta contra os seus sentimentos. A mosca se debate contra o vidro. A mosca parece não perceber o que a detém.
O primeiro livro que li do Lourenço Mutarelli foi O grifo de Abdera, que é ruim. Este Miguel e os demônios é apenas meio ruim – ou seja, já melhorou. O terceiro e último livro que li do autor – O cheiro do ralo – acompanhou essa progressão: ruim, meio ruim, razoável/bom.
A história do protagonista Miguel – policial, vida amorosa medíocre até dado momento, de repente envolvido em aventuras paulistanas – se passa como um filme, tanto que há exorbitância de diálogos no enredo e pontuais orientações sobre como fechar as cenas na câmera. E não duvido que daria um bom filme, porque há romances que parecem mais apropriados se vistos como roteiros de cinema. Como ficção no papel, pra ser fruída tendo esse fim, não é uma leitura que impressiona. Dá vontade de continuar lendo pra saber o que vai acontecer, mas é livro que se esquece rapidamente – a menos que o leitor tenha predileção por essas histórias marginais, secas e violentas que tantas vezes parecem filhas de narcisistas preguiçosos adeptos do cru intrínseco e da cooptação pelo choque.
Tal como aconteceu com outras obras de Lourenço Mutarelli, li este livro em apenas dois dias, basicamente porque, ao iniciar cada leitura, eu me via quase impossibilitado de parar, querendo descobrir cada vez mais o que encontraria nessas páginas instigantes, compostas por frases e diálogos curtos e desconcertantes, em um enredo que se desenrola em fragmentos.
Em Miguel e os demônios (ou Nas delícias da desgraça), Mutarelli nos apresenta Miguel, um policial que vê o casamento chegar ao fim após começar a trair a esposa com a manicure Sueli. Afastado do filho, o homem passa a viver com o pai idoso. Fazendo trabalhos extras imorais e ilegais ao lado do parceiro Pedro, Miguel se vê envolto em uma trama bizarra que envolve, entre muitas coisas, uma múmia mexicana encontrada em um prostíbulo de São Paulo, durante o quente mês de dezembro, quando as ruas exibem seus piscas-piscas natalinos.
Entrando por varias temáticas e deixando simbolismos ao longo da história torna se um livro satisfatório de ler e muito interessante. Um escritor fora do comum.
Melhor leitura que fiz até agora - sem dúvidas. Entrei dentro da história depois de dois minutos e permaneci imerso até as últimas páginas. Que livro, que descrição...
Nem sei o que dizer sobre esse livro. A história é nua e crua, com descrições bem diretas e situações inquietantes. A última parte é mais caótica ainda. Isso tudo em um livro pequeno, que dá pra ser lido em duas horinhas. Gostei, mas nem tanto. Valeu a pena conhecer os escritos do autor.