Com seu estilo inconfundível, Dalton Trevisan prova, mais uma vez, porque é considerado um dos maiores contistas brasileiros contemporâneos. Vencedor do Prêmio Portugal Telecom 2003 com Pico na veia e do prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional 2008 por O maníaco do olho verde, o autor volta a desfiar em DESGRACIDA sua linguagem mordaz e humor cáustico, ao abordar as várias facetas da condição humana. Dividido em duas partes, o livro começa por Ministórias — uma seleção de textos inéditos do Vampiro de Curitiba, que reafirmam a idéia de Dalton de que só chegaria à perfeição quando compusesse histórias completas com apenas duas ou três linhas. A cada novo livro, seu texto é mais enxuto, conciso — magro, sem por isso ser inane. Aqui, literalmente, para bom entendedor, meia-palavra basta. A consagrada ironia cortante e o habitual sarcasmo de suas histórias estão presentes em 90 microcontos — alguns de apenas uma frase — que transmitem todas as aflições e alegrias de homens e mulheres, com erotismo intenso e diálogos incomuns. Uma coletânea de histórias que retrata a realidade do Brasil hoje, os desastres do amor, as cenas da vida cotidiana, os infernos particulares, a guerra dos sexos. Na segunda parte, Mal traçadas linhas, são reproduzidos textos de antigas cartas enviadas a amigos, como Pedro Nava, Rubem Braga e Otto Lara Rezende. Nestas correspondências, o então jovem escritor comete alguns “sacrilégios” em relação a algumas obras hoje consagradas. Em um texto endereçado ao amigo Otto, por exemplo, propõe: “Falemos mal do Grande Sertão. Rompe você ou começo eu?”, para depois prosseguir: “Um cronista genial, a mão leve de beija-flor, mas — ai de mim — romancista menor”. As cartas trocadas com os célebres interlocutores revelam um pouco mais sobre as idéias do recluso escritor curitibano, avesso a entrevistas, que coleciona uma legião de fãs que cresce proporcional a sua aparente timidez. Quanto mais se recusa a aparecer, mais ansiosos por sua próxima obra crítica e público se tornam. Toda informação sobre o autor é breve e autônoma, retalho que se une a outros para formar uma peça homogênea — tal como muitos de seus livros. DESGRACIDA é mais uma peça indispensável deste quebra-cabeça que é a genial obra de Dalton Trevisan.
Dalton Jérson Trevisan was a Brazilian author of short stories. He was described as an "acclaimed short-story chronicler of lower-class mores and popular dramas." Trevisan won the 2012 Prémio Camões, the leading Portuguese-language author prize, valued at €100,000.
Lembro-me de quando era adolescente e viajei numa excursão da CVC com um grupo Curitibano. Dois deles contavam piadas e eu percebia todo o resto ficar sem graça por ter de rir por educação. Depois de um tempo, pararam de rir e queriam distância. Era um humor chato, insuportável. Disseram-me que o humor era assim em Curitiba, mas eu não acreditei e encarei como algo pontual. Coincidência ou não, me senti da mesma maneira lendo este livro. O humor, que se pauta numa suposta ironia fina, não funciona, é enfadonho, chato, sem graça. Não por conta de críticas e alfinetadas impertinentes, considerando que o autor eventualmente toca em bons pontos, mas pelas palavras escolhidas, que dão um tom de piada que hoje pode ser denominada como "do tiozão do WhatsApp".
Black humor, excellent stories, intelligence and a slight touch of criticism to Brazilian literature taste. I loved it: It has everything I like in a single book.