«Este foi o mais querido dos meus romances», declarou Camilo Castelo Branco no Prefácio d’O Romance dum Homem Rico, acreditando que seria aquele que iria prevalecer sobre todos os outros.
«O meu melhor romance é o Dum Homem Rico», escreveu numa carta ao editor José Gomes Monteiro. E se dúvidas houvesse, reiterou ainda em Memórias do Cárcere: «É o livro a que eu mais quero, e, a meu juízo, o mais tolerável de quantos fiz. Estava ao meu lado um coração que eu ia desenhando naquela Leonor […].»
Foi na Cadeia da Relação do Porto que Camilo Castelo Branco escreveu esta obra, em 1861, quando esteve preso devido à sua relação com Ana Plácido, mulher casada, o que na época configurava crime de adultério. E é em Ana Plácido que Camilo se inspira para a personagem Leonor, mulher por quem se apaixona o homem rico do romance, Álvaro Teixeira de Macedo, que o narrador conhece numa viagem de comboio...
«Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (1825-1890) foi um dos escritores mais prolíferos e marcantes da literatura portuguesa contemporânea tendo sido romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor. Teve uma vida atribulada, que lhe serviu muitas vezes de inspiração para as suas novelas. Foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente do que escrevia. Durante quase 40 anos, entre 1851 e 1890, escreveu à pena, logo sem qualquer ajuda mecânica, mais de duzentas e sessenta obras, com a média superior a 6 por ano. Prolífico e fecundo escritor, deixou obras de referência na literatura lusitana. Apesar de toda essa fecundidade, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco não permitiu que a intensa produção prejudicasse a sua beleza idiomática ou mesmo a dimensão do seu vernáculo, transformando-o numa das maiores expressões artísticas e a sua figura num mestre da língua portuguesa.» Fonte; http://www.luso-livros.net/biografia/...
Camilo Ferreira Botelho Castelo-Branco (1st Viscount de Correia Botelho), was born out of wedlock and orphaned in infancy. He spent his early years in a village in Trás-os-Montes. He fell in love with the poetry of Luís de Camões and Manuel Maria Barbosa de Bocage, while Fernão Mendes Pinto gave him a lust for adventure, but Camilo was a distracted student and grew up to be undisciplined and proud.
He intermittently studied medicine and theology in Oporto and Coimbra and eventually chose to become a writer. After a spell of journalistic work in Oporto and Lisbon he proceeded to the episcopal seminary in Oporto in order to study for the priesthood. During this period Camilo wrote a number of religious works and translated the work of François-René de Chateaubriand. Camilo actually took minor holy orders, but his restless nature drew him away from the priesthood and he devoted himself to literature for the rest of his life. He was arrested twice, the second time due to his adulterous affair with Ana Plácido, who was married at the time. During his incarceration he wrote his most famous work "Amor de Perdição" and later it inspired his "Memórias do Cárcere" (literally "Memories of Prison"). Camilo was made a viscount (Visconde de Correia Botelho) in 1885 in recognition of his contributions to literature, and when his health deteriorated and he could no longer write, Parliament gave him a pension for life. Going blind (because of syphilis) and suffering from chronic nervous disease, Castelo Branco committed suicide in 1890.
Um clássico brilhante, com história muito bem urdida e vocabulário elevado. Simplesmente excecional e muito recomendável!!! Adorei, mas afinal quem não adora o grande Camilo?!!!
"Não posso com a dependência, nem tive educação para agenciar a independência com o meu trabalho. Matei-me duma só vez para não morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava delas." ❤️
Não estava à espera de, no fim, ter gostado tanto do livro. É um livro atípico para a época, sem situações exageradamente dramáticas ou finais grandiosos. Camilo Castelo Branco classificou este seu romance como o mais querido de entre as suas obras e, do que conheço dos seus romances, tendo a concordar. Apesar da linguagem muitas vezes cansativa é uma excelente história que acompanha a vida de um homem que dentro de si tinha tantos sonhos mas que acabou por viver em tristeza.
Parecia ser este um romance romântico, em que o narrador, que por acaso também é o autor, conhece um padre misterioso num comboio com quem trava amizade e conhece as desgraças amorosas da sua vida. Mas eis que o narrador interpela e responde aos seus leitores e manifesta dúvidas em relação ao manuscrito do amigo, que nos reconta. Foi uma surpresa.
Camilo Castelo Branco nunca desaponta, uma escrita fluida com uma história que nos faz entrar naquela época, nas dores das personagens e no seu desamparo. Esta história em particular fala das dores e do quotidiano de uma família não tão unida e, no entanto, no maior amor entre mãe e filho.
1. Mordaz mortificação, obscura santidade. Álvaro, o demiurgo, não deixa morrer nem viver Leonor - mortifica-a. Álvaro, o matreiro, Álvaro, o santo calculista ("é preciso paciência" diz ele), vai calculando a trajetória de lágrimas da sua amada. O objetivo: apagar a sua vontade de viver. E no fim (e apenas no fim) aparecer, frio e compassivo, depois de subjugar, de domesticar aquele corpo feminino. É essa a sua vingança pela felicidade nunca alcançada, daquele sonho de inocência edénico em que ele era Adão e ela Eva no jardim. Por outro lado, há uma necessidade saudosista: Álvaro apenas pode projetar as suas memórias juvenis no corpo envelhecido precocemente e paralisado da Leonor da fase final (depois de Álvaro a "salvar" do suicídio) e não no corpo lascivo da Leonor na fina flor da idade. Pode Álvaro no final abrir a torneira das lamentações. 2. Alguma vez foi mostrada a luxúria inversa do cristianismo como neste livro? O cristianismo como obscenidade excessiva, algo que só num coração ultra-romântico poderia estar cristalizado. O nojo pelo corpo que corre desde a primeira à última linha do livro ("Para mim tenho que o corpo é ambas as coisas [besta e bruto], diz o narrador"), e Leonor, personagem Nietzschiana, que faz a mais acutilante crítica à doutrina da santidade (os frios, diz ela, podem arvorar facilmente a bandeira da santidade. É o caso da desapaixonada Maria ou do amargurado Álvaro). É a única personagem trágica. 3. Sim, porque a tragédia clássica não tem espaço neste romance. A tragédia, forma pagã, era o teatro da alma viva, da morte extemporânea, que surgia como um raio de luz na diegese. O romance, forma que na sua génese é cristã, a morte não é por suicídio (diz Camilo que já há muito tempo não mata ninguém senão de fastio), mas um lento desfalecer, um crescente esquecimento da carne por sucessivas ofensas a ela, como na história de Cristo. 4. Será isto uma leitura liberal da obra? Sem dúvida. Sem dúvida que nada disto queria dizer Camilo. Mas os grandes são assim: dão sempre muito pano para mangas.
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