Meu novo sorteado no desafio MundAfora em 198 livros foi
Israel, um pequeno país do Oriente Médio, situado na costa leste do mar Mediterrâneo, fazendo fronteira com Líbano, Síria, Jordânia, Egito e a Faixa de Gaza. Apesar de seu território compacto (com pouco mais de 22 mil quilômetros quadrados) abriga uma diversidade impressionante de paisagens: desertos áridos ao sul, colinas férteis ao norte, o Mar Morto (o ponto mais baixo da Terra) e cidades como Tel Aviv, Jerusalém e Haifa.
O protagonista do romance, Ionatan Lifschitz, é filho de Lulek, o líder de um kibutz e representante de uma geração que construiu o país com as mãos. Lulek pertence à geração mítica: sobreviveu à Europa, acreditou na redenção coletiva, fundou uma comunidade baseada em trabalho, igualdade e idealismo. Mas Ionatan já nasce dentro desse mundo feito. Ele não tem que lutar por ele. E é exatamente aí que o problema começa: o que fazer com um ideal herdado? O que fazer com um legado que pesa mais do que liberta?
Ionatan é um herdeiro exausto. Ele vive no kibutz, casado com Rimona, mas nada parece tocá-lo. Ele não odeia, não ama, não acredita: ele simplesmente continua. Sua tentativa de sair do kibutz não se concretiza, e sua apatia vai se tornando a marca de uma geração que não sabe mais onde colocar sua fé. A vida coletiva, antes símbolo de justiça, agora parece uma rotina sem brilho. O ideal virou jaula. O paraíso virou tédio.
Quando chega ao kibutz Azaria Guitlin, tudo se embaralha. Azaria é falante, idealista, sonhador. Ele representa a última centelha do que um dia foi Lulek: a crença num mundo melhor, a força do verbo, a ética do engajamento. Mas ele chega tarde demais. Ionatan já está alheio. Rimona já está à deriva. O kibutz já está gasto. Azaria acaba se aproximando da esposa de Ionatan, o que dá à história contornos de tragédia íntima, mas também de alegoria política: o novo tenta ocupar o espaço do velho, mas o solo já está infértil.
Essa dinâmica entre Lulek, Ionatan e Azaria é o cerne do conflito geracional que Oz desenha com precisão cruel. O velho construiu. O filho se afastou. O jovem recém-chegado acredita, mas encontra cansaço. É um ciclo de descompasso. E isso não é apenas uma questão familiar. É o retrato de Israel nos anos 1960 — e, talvez, até hoje.
Ler Uma certa paz não é fácil. E não por causa da linguagem. Oz escreve com limpidez, economia, clareza. O que torna a leitura árdua é justamente o vazio. O ritmo lento. A ausência de clímax. O tempo narrativo segue como a vida de Ionatan: sem resolução, sem rupturas, sem transcendência. E isso faz com que o leitor sinta na pele o mesmo peso que os personagens carregam. Como se fôssemos todos moradores do mesmo kibutz emocional.
E isso é brilhante. Porque Oz nos insere na estrutura psíquica do seu país. Um país que, ao alcançar a tão desejada independência, se viu diante da pergunta mais difícil: o que fazer depois? Como viver quando já se venceu a batalha principal? Como administrar a paz, que é menos heroica, mais cinzenta, mais humana?
Essa paz, no livro, é uma ironia. Não é paz verdadeira. É uma acomodação melancólica. Um silêncio prolongado entre pessoas que já não sabem mais como se tocar. É a paz do casamento morno, da rotina no kibutz, da política sem esperança. É a paz da decepção. E talvez seja essa a maior crítica de Oz: mostrar que um país, e uma pessoa, pode sobreviver à guerra, mas adoecer na paz.
O livro se passa às vésperas da Guerra dos Seis Dias (1967), um momento de tensão e redefinição histórica para Israel. Mas Oz não mostra tanques, soldados ou fronteiras. Ele mostra o avesso da guerra: a intimidade emocional das pessoas comuns, que vivem paralisadas pela ausência de um sentido maior. Sua crítica ao Estado de Israel é sutil, ética, humana. Ele não acusa, ele revela.
E o que ele revela é que a construção nacional tem um preço psíquico. A geração dos pais pagou com o corpo. A dos filhos paga com a alma. O coletivo, quando não escuta o individual, vira mecanismo. E o ser humano, reduzido a engrenagem, se apaga. Ionatan é o símbolo desse apagamento. Rimona, sua esposa, é o espelho dele, também negligenciada, também silenciosa, também à espera de algo que não chega. Azaria tenta acender a fagulha, mas acaba tropeçando na indiferença do ambiente.
Falar de Israel também é falar de suas tensões internas, não apenas ideológicas ou religiosas, mas culturais, étnicas, invisíveis. O Estado judeu moderno foi construído por imigrantes de toda parte: sobreviventes do Holocausto vindos da Europa Oriental, judeus expulsos dos países árabes, comunidades da Etiópia, do Iêmen, do Marrocos, da Rússia. Cada grupo trouxe sua língua, sua memória, sua forma de viver o judaísmo. Oficialmente unidos sob a bandeira sionista, na prática muitos viveram à margem da narrativa dominante, aquela moldada pelos fundadores ashkenazim, judeus europeus, laicos, de perfil socialista.
Essa fratura está presente, ainda que de forma sutil, em Uma certa paz. Azaria Guitlin, com sua origem não europeia sugerida, seu calor humano, sua oratória vibrante, representa o "outro" dentro do kibutz: o judeu que não cabe nas formas rígidas do projeto coletivo. Ele é visto com admiração e desconfiança, como se trouxesse algo indomável ao ambiente domesticado. Sua presença desestabiliza não apenas o casamento de Ionatan, mas o próprio equilíbrio do kibutz, que já vinha ruindo sob o peso de sua própria repetição.
A literatura de Oz, nesse ponto, é refinada: ele não denuncia, mas encena. Não há panfleto, mas tensão. E essa tensão ecoa as contradições de um país que desejava ser lar para todos, mas que nem sempre soube escutar suas vozes mais dissonantes.
A beleza da literatura de Oz é que ele não nos oferece saídas e Uma certa paz é um romance que precisa de tempo para maturar no leitor. Suas questões não se encerram na última página. Elas se espalham.
A literatura israelense, a de Oz inclusa, não responde. Ela apenas insiste em mostrar o desconforto. E nisso reside sua grandeza. Porque talvez seja isso que um país precisa: menos triunfalismo, mais introspecção. Menos bandeiras, mais espelhos.
Uma certa paz é, nesse sentido, um romance que fala ao presente. Em tempos de polarizações, guerras narrativas e identidades em conflito, ele nos lembra que o maior perigo talvez não esteja na explosão, mas no silêncio. No hábito. No cansaço que engole os sonhos.
Ler Amós Oz hoje é um gesto de escuta. Escutar as vozes que não gritam. Escutar o que há de humano por trás do mito. Escutar os espaços entre as palavras. E ali, talvez, reencontrar algo que se perdeu no caminho.
Como leitora, saí desse livro esvaziado, mas num bom sentido. Esvaziado de certezas, de expectativas fáceis, de resoluções. É uma obra que exige mais do que leitura: exige convivência. E que, ao fazer isso, nos devolve algo raro: a capacidade de perceber o tempo da alma. E isso, talvez, seja o que mais precisamos hoje. Em Israel. E em nós.
Uma Certa Paz de Amós Oz; tradução do hebraico de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 394p.