Este é um livro duro, agreste, como a Beira Interior que retrata. É feito de escarpas, miséria e desespero. Baseado, sem dúvida, na experiência de Fernando Namora enquanto médico na raia beirã, A Noite e a Madrugada retrata estas terras com um realismo impressionante que as deixa ao alcance da mão, quase palpáveis, como se tu próprio fosses uma mosca na parede a espiar a vida a escorrer na aldeia de Montalvo. Fala-nos de uma terra desolada, pouco disposta a dar os seus frutos, de uma população conduzida pelo desespero ao contrabando ilegal na raia, e que mesmo quando procura extrair com o seu próprio suor as benesses da terra vê o seu esforço frustrado pela ganância dos grandes proprietários, os que arrancariam, se pudessem, todos os grãos que o solo deu, até ao último.
O início do livro, pouco movimentado, demora a convencer. Mas pintado o ambiente de miséria que dará fruto a toda a narrativa, rapidamente se revelam todas as suas consequências, num fluxo constante e cativante, com sabor a tragédia. Um livro absolutamente maravilhoso, de um autor injustamente esquecido.