"Manuelzão e Miguilim" é composto por duas novelas: "Campo Geral" e "Uma Estória de Amor". Em “Campo Geral”, os leitores experimentam o mundo pelos olhos do menino Miguilim que, em seu cotidiano vivido no seio de uma família sertaneja. Já em “Uma estória de amor”, a prosa rosiana nos conduz às reflexões que brotam do coração sofrido do vaqueiro Manuelzão por ocasião da festa que marca a inauguração de uma capela que ele constrói em memória de sua mãe.
João Guimarães Rosa (27 June 1908 - 19 November 1967) was a Brazilian novelist, considered by many to be one of the greatest Brazilian novelists born in the 20th century. His best-known work is the novel Grande Sertão: Veredas (translated as The Devil to Pay in the Backlands). Some people consider this to be the Brazilian equivalent of Ulysses.
Guimarães Rosa was born in Cordisburgo in the state of Minas Gerais, the first of six children of Florduardo Pinto Rosa (nicknamed "seu Fulô") and D. Francisca Guimarães Rosa ("Chiquitinha"). He was self-taught in many areas and from childhood studied many languages, starting with French before he was seven years old. Still a child, he moved to his grandparents' house in Belo Horizonte, where he finished primary school. He began his secondary schooling at the Santo Antônio College in São João del Rei, but soon returned to Belo Horizonte, where he graduated. In 1925, at only 16, he applied for what was then called the College of Medicine of Minas Gerais University. On June 27, 1930, he married Lígia Cabral Penna, a girl of only 16, with whom he had two daughters, Vilma and Agnes. In that same year he graduated and began his medical practice in Itaguara, then in the municipality of Itauna, in Minas Gerais, where he stayed about two years. It is in this town that he had his first contact with elements from the sertão (semi-arid Brazilian outback), which would serve as reference and inspiration in many of his works. Back in Itaguara, Guimarães Rosa served as a volunteer doctor of the Public Force (Força Pública) in the Constitutionalist Revolution of 1932, heading to the so-called Tunel sector in Passa-Quatro, Minas Gerais, where he came into contact with the future president Juscelino Kubitschek, at that time the chief doctor of the Blood Hospital. Later he became a civil servant through examination. In 1933, he went to Barbacena in the position of Doctor of the 9th Armed Battalion (Official Médico do 9º Batalhão de Infantaria). Most of his life was spent as a Brazilian diplomat in Europe and Latin America. In 1938 he served as assistant-Consul im Hamburg, Germany, wher he met his future second wife, the Righteous Among the Nations Aracy de Carvalho Guimarães Rosa In 1963, he was chosen by unanimous vote to enter the Academia Brasileira de Letras (Brazilian Academy of Letters) in his second candidacy. After postponing for 4 years, he finally assumed his position only in 1967: just three days before passing away in the city of Rio de Janeiro, victim of a heart attack. His masterpiece is The Devil to Pay in the Backlands. In this novel, Riobaldo, a jagunço is torn between two loves: Diadorim, supposedly another jagunço, and Otacília, an ordinary beauty from the backlands. Following his own existential quest, he contemplates making a deal with Lucifer in order to eliminate Hermogenes, his nemesis. One could say that Sertão (the backlands) represents the whole Universe and the mission of Riobaldo is to pursue its travessia, or crossing, seeking answers for the metaphysical questions faced by mankind. In this sense he is an incarnation of the classical hero in the Brazilian backlands. Guimaraes Rosa died at the summit of his diplomatic and literary career. He was 59.
Miguilim and Manuelzão are composed of two novels, “Campo Geral” and “Uma História de Amor,” one narrated by Miguilim, a boy who lives with his family in the Mutum forest in Minas Gerais, and another described by Manuelzão, a cowboy. He manages a farm and builds a chapel there at the request of his late mother. The two stories complete each other, showing the childhood and old age of the characters, constantly revolving around their discoveries and memories.
Guimarães Rosa, como sempre, criou duas personagens absolutamente credíveis: Miguilim, com toda a candura da infância, e a perpétua curiosidade das crianças numa corrida desenfreada para aprender coisas novas e abraçar o mundo. Paralelamente, o receio de enfrentar o desconhecido, a dor e incompreensão face às reações adultas tantas vezes injustas. Um retrato perfeito da infância, um miúdo memorável, sem discrepâncias, sem lhe forçar atitudes de adulto ou infantilidades imbecis.
Manuelzão, pelo contrário, é um homem em fim de vida, respeitado, honesto e trabalhador. Ainda assim, a dúvida: poderia ter feito mais? Ainda teria oportunidade e tempo para fazer mais e melhor?
As contínuas interrogações que Rosa coloca nas gentes do sertão mas que são universais. E o espaço rural sertanejo descrito com minuciosa perfeição. Sempre que termino um livro de Guimarães Rosa olho à volta e sinto que voltei de viagem.
Manuelzão e Miguilim é um livro constituído por duas novelas: Campos Gerais (Miguilim) e Uma Estória de Amor (Manuelzão), ambas situadas geograficamente no sertão Mineiro. O estilo da escrita é o de Guimarães Rosa, o que já lhe conheço de Grande Sertão - Veredas, por um lado marcado por uma forte oralidade e por outro que recorre a construções frásicas, vocábulos, métricas e sonoridades que frequentemente suprimem a fronteira entre prosa e poesia.
Campos Gerais é uma narrativa de grande lirismo e sensibilidade, que tem como tema a infância. Miguilim é um menino de oito anos, criado numa roça, e é pelos seus olhos que somos conduzidos pelo caminho da descoberta da vida e do mundo. É uma história enternecedora, ora doce, ora triste, cujo lirismo é acentuado pelos recursos estilísticos que caracterizam o autor e que aqui muito bem se adequam ao tema em foco. Gostei bastante.
Uma Estória de Amor leva-nos a outra fase mais avançada da vida através personagem de Manuelzão, um vaqueiro sessentão, administrador de uma fazenda. Após a morte de sua mãe, decide erigir uma capela na fazenda que administra e a narrativa desenvolve-se em torno da festa da sua inauguração e dos preparativos para a mesma, tudo se intercalando com os pensamentos e recordações de uma vida que caminha em direcção ao seu termo. Confesso que não me senti cativada e a narrativa chegou a afigurar-se-me algo confusa, com as particularidades estilísticas a evidenciarem-se de um modo que dificultou a fluidez da leitura. Por outro lado, senti que o pendor marcadamente regionalista acabou por tornar a leitura menos apelativa; houve momentos em que me perdi e outros em me que senti aborrecida no meio de bois e mais bois, cavalos e mais cavalos, vaqueiros e mais vaqueiros.
Maravilhoso define. Não foi sem receio que escolhi ler este volume de Guimarães Rosa. A linguagem única e original por vezes assusta. O começo da leitura é truncado, avança com dificuldades ..mas quando se pega o ritmo da escrita de Guimarães, a leitura flui, se torna prazeirosa. As duas histórias (Campo Geral e Uma história de amor) são lindas. Mas Campo Geral...ahhh, Campo Geral é sublime. Acompanhar Miguilim, com seus sete anos de idade, descobrindo o bonito da vida, e com ela a dor, foi especial, deixou a alma e o coração quentinhos. Na outra ponta, acompanhar Manuelzão - com seus sessenta anos de idade - nas suas reflexões sobre o tempo de vida que ainda resta, que fins levaram seus sonhos, escolhas, amores.., foi deverás especial. Personagens “secundários” como Dito e o velho Camilo também deram um colorido importante a esta obra. Recomendo demais. Renova a alegria de estar viva!. De ser brasileira. Devolve o simples a vida, o olhar as pequenas coisas. Aquece o profundo. O trivial se torna sublime. . Uma palinha pra quem ainda está em dúvida:
“Foi no meio duma noite, indo para a madrugada, todos estavam dormindo. Mas cada um sentiu, de repente, no coração, o estalo do silenciozinho que ele fez, a pontuda falta da toada, do barulhinho. Acordaram, se falaram. Até as crianças. Até os cachorros latiram. Aí, todos se levantaram, caçaram o quintal, saíram com luz, para espiar o que não havia. Foram pela porta-da-cozinha. Manuelzão adiante, os cachorros sempre latindo.- "Ele perdeu o chio..." Triste duma certeza: cada vez mais fundo, mais longe nos silêncios, ele tinha ido s'embora, o riachinho de todos. Chegado na beirada, Manuelzão entrou, ainda molhou os pés, no fresco lameal. Manuelzão, segurando a tocha de cera de carnaúba, o peito batendo com um estranhado diferente, ele se debruçou e esclareceu. Ainda viu o derradeiro fiapo d'água escorrer, estilar, cair degrau de altura de palmo a derradeira gota, o bilbo. E o que a tocha na mão de Manuelzão mais alumiou: que todos tremiam mágoa nos olhos. Ainda esperaram ali, sem sensatez; por fim se avistou no céu a estrela-d'alva. O riacho soluço se estancara, sem resto, e talvez para sempre. Secara-se a lagrimal, sua boquinha serrana. Era como se um menino sozinho tivesse morrido.“
Miguilim é uma criança de 8 anos que vive no sertão, numa pequena localidade no interior do estado de Minas Gerais, com os pais, a avó e os seus quatro irmãos.
Guimarães Rosa centra-se na infância e cria um personagem inesquecível. Miguilim é um menino sensível e curioso, com um sentido de justiça muito forte. Vai descobrir o mundo, exposto à dureza da vida no campo e à violência, e também à dor da perda. Ao longo da leitura comovi-me e quis abraçá-lo muitas vezes.
Não é uma leitura fácil. O estilo de escrita do autor é marcado pela oralidade mas também é muito poético. Acompanhar algumas partes da narrativa e perceber muitos dos termos utilizados foi um desafio, mas o resultado compensou totalmente o esforço. Miguilim fica no meu coração 💚
Cascate di onomatopee che suonano come neologismi a chi non abbia fatto esperienza diretta del sertão e dei suoi abitanti, umani e non umani. Siamo dunque investititi da un linguaggio barocco: non perché prestato all'orpello ma in quanto espressivo di prospettive animate. Tali prospettive sono nella vereda rigoglio che si staglia, per contrasto, sullo sfondo arido di Minas Gerais. Fossimo al cinema, potrebbe essere un film di Glauber Rocha...
Miguillin (protagonista bambino) è, in una parola, trainante. Da lui veniamo trascinati in un ambiente fatto di relazioni multispecie e di eziologie aventi una logica interna a quel mondo (e che solo dall'esterno pagano lo scotto di essere valutate come credenze o superstizioni). Sebbene si tratti di un'opera ""minore"" di Guimarães Rosa, può essere letta come un piccolo classico esemplificativo tanto dello stile dell'autore quanto della realtà che descrive. Poiché l'uno è espressione dell'altra, e viceversa.
Dalla vita alla morte, dalla morte alla vita (senza passare dal via).
Miguilim é uma das novelas brasileiras mais lindas que eu já li, impossível não se emocionar com Dito e Miguilim. Já Manuelzão me perdeu no meio dos gados.
Há alguns casos em que a ignorância é uma dádiva. É o caso da minha, que me permite ainda ler escritos de João Guimarães Rosa como se fossem causos inéditos. Aliás, esse pensamento me faz lembrar de algo que me foi dito e que eu nunca mais esqueci: 'Eu queria ser você para poder ter a sensação de ver isso pela primeira vez.' Não me lembro tão bem do contexto em que me falaram, mas era certamente relacionado à algum filme. Seja como for, ainda guardo a minha sorte: ainda tenho alguns Guimarães Rosa para experimentar.
Dessa vez, encontrei a história do menino Miguilim em 'Campo Geral' e do velho Manuelzão em 'Uma História de Amor'. Duas novelas conectadas por sentimentos e sertões.
Devo admitir que entre elas, a história de Miguilim se conectou muitas e muitas vezes mais ao meu coração. Que personagem! Que retrato da criança sertaneja! Criada ali, entre a dureza da paisagem e a dureza de seus pais, envoltos por deliciosas crenças, por sonhos adormecidos, pelas peripécias entre irmãos, mas também por uma grossa camada de desigualdade e violência.
"'Mãe, que é que é o mar, Mãe?' Mar era muito longe, muito longe dali, espécie duma lagoa enorme, um mundo d'água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. – 'Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?''
É difícil não se emocionar com a história de Miguilim. A oralidade de Guimarães Rosa nos faz entrar ainda mais no personagem, ser ele. Por isso, quando ele é castigado, quando ele se sente incapaz, quando ele oscila em sua fidelidade ao pai ou ao tio, quando ele enfrenta mortes e doenças, nós estamos por ali. Para mim, é esse poder de Guimarães Rosa que sempre me tira o fôlego: o de transportar. Ao fim da história, um sopro de esperança e de saudade. Que coisa bonita!
Miguilim. Um olhar para frente. Manuelzão. Um olhar para trás. Ambos à espreita da morte. Ambos lutando batalhas familiares e individuais. É normal sentir saudade de personagens?
'Campo Geral' (a estória de Miguilim) é talvez a coisa mais linda que eu já li de Guimarães até hoje. Tem um equilíbrio sem igual entre dureza e singeleza que me arrancou muitas lágrimas e me modificou. 'Uma estória de amor' (ou a estória de Manuelzão, não me envolveu da mesma forma, mas talvez eu devesse voltar a lê-la no futuro. Ambas estão no mesmo livro marcando dois momentos da vida de personagens no sertão mineiro: a infância e a velhice. Guimarães Rosa nunca é uma leitura fácil, que desliza, mas tem um cheirinho de casa que só ele. <3
Alguns livros não deveriam ser indicados pelas escolas como leitura obrigatória. Acabei pegando um certo trauma após a leitura desse livro para uma prova e até hoje n��o consegui superar o medo de ler sua obra prima, Grande Sertão Veredas. O leitor deve estar preparado e amadurecido para esse tipo de leitura, na escola eles simplesmente impõem a obrigatoriedade.
Essa é uma coletânea de histórias que fazem parte do livro Corpo de Baile, onde Rosa mergulha nas vidas humanas do sertão brasileiro, explorando diferentes fases da existência e as emoções universais que as permeiam. Miguilim é uma criança do sertão, que vive numa fazenda isolada com sua família. Sua infância é marcada por uma inocência profunda e uma sensibilidade aguda diante do mundo ao seu redor. Seus pais, especialmente a mãe, são figuras sonhadoras, carregadas de esperança por uma vida melhor, embora a realidade do sertão seja dura, árida e muitas vezes cruel.
Miguilim vive rodeado por uma natureza que parece também ter uma presença quase mítica, os animais, as montanhas, o céu, todos fazem parte do seu universo de descobertas. No entanto, essa infância também é marcada por tragédias e perdas: a morte de familiares, a violência do pai, que exerce um domínio autoritário sobre todos, e as dificuldades de entender o que é certo ou errado. A linguagem de Rosa, rica em neologismos e metáforas poéticas, dá uma musicalidade única à narrativa, transformando o cotidiano simples em algo quase mágico, cheio de beleza e dor.
Miguilim busca compreender o mundo, a vida, a morte, temas que, na sua inexperiência, parecem tão grandiosos e misteriosos. Sua sensibilidade revela uma visão de mundo que valoriza o sentimento, a esperança e a dor, mesmo diante das adversidades. Essa infância, portanto, representa a pureza e a ingenuidade, mas também a dor da descoberta e da perda.
Já Manuelzão é um homem que está na fase mais madura da vida, aos 60 anos, vivendo isolado em uma fazenda. Sua história é marcada por uma reflexão profunda sobre as escolhas que fez ao longo dos anos. Manuelzão nunca constituiu uma família, e essa ausência de laços familiares o leva a um sentimento de solidão que nunca abandona totalmente.
Ele é um homem que administra sua fazenda com dedicação, mas que, ao mesmo tempo, questiona se suas decisões foram as corretas. Um momento importante de sua trajetória é a reconstrução de uma relação com um filho que teve em um relacionamento anterior. Essa reconexão traz à tona questões sobre paternidade, pertencimento e o desejo de encontrar sentido na própria existência.
A narrativa também destaca a inauguração de uma pequena igreja, construída por Manuelzão em homenagem à sua mãe e a uma santa. Apesar do tamanho diminuto, que mal comporta umas poucas pessoas, esse evento se torna um símbolo de esperança, fé e da conexão com a comunidade local. A festa que envolve a inauguração revela a simplicidade da vida sertaneja, marcada por celebrações modestas, mas carregadas de significado.
As duas histórias, embora distintas em suas épocas de vida, dialogam profundamente sobre sentimentos universais:
- Solidão: Seja na infância de Miguilim, marcada por perdas e incertezas, ou na velhice de Manuelzão, que reflete sobre suas escolhas, ambos os personagens experienciam o isolamento, cada um à sua maneira. - Busca por pertencimento: Miguilim busca entender seu lugar no mundo, enquanto Manuelzão tenta se conectar com seu passado, seu filho, e sua comunidade. - Reflexões sobre a vida e a morte: Rosa usa uma linguagem poética para revelar a beleza que pode existir mesmo na dor, na perda e na simplicidade do sertão.
João Guimarães Rosa utiliza uma linguagem inovadora, cheia de neologismos, metáforas e frases que parecem poesia. Essa escolha estilística aproxima o leitor de uma experiência sensorial e emocional, tornando a leitura desafiadora, mas profundamente recompensadora. Através dessa linguagem, Rosa consegue transformar o cotidiano do sertão em algo extraordinário, revelando a poesia escondida na vida simples e na dureza do sertão.
Só não dou 5 estrelas pq gostei muito mais da parte do Miguilim do que a do Manuelzão, mas no geral, nossa, que livro de cair o queixo 'O' Me perguntava constantemente como uma pessoa pode escrever tão bem e representar tão bem uma determinada cultura. Essa obra (e com certeza as demais do autor) é pra ser motivo de orgulho pros brasileiros.
Maravilhada!!!! Que história encantadora! Apaixonada por Miguilim, que me levou às lágrimas. Os extremos da vida. Miguilim, uma criança e seus descobrimentos da vida. Versus Manuelzão, reflexivo já na terceira idade. Uma leitura que exige do leitor, o que adoro!
Duas histórias diferentes mas diretamente do mundo e da língua que existem no sertão de João Guimarães.
Miguilim é sobre infância, Manuelzão fala de festa e do trabalho com o gado.
Me julgo incapaz de compreender ou estudar o sertão de Guimarães, mas é pra agradecer a oportunidade de poder viver esse tempo de mergulhos intensos que o livro propicia.
Não é a primeira vez que tento ler Guimarães Rosa. Não é a primeira vez que largo um livro de Guimarães Rosa no meio. Adoro literatura regional: Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos… mas o estilo peculiar de narração de Guimarães Rosa, assim como o de Salinger em The Catcher in the Rye, realmente não me agrada.
To put it into context, the work is part of CORPO DE BAILE, a set of 7 novellas by Guimarães Rosa.
Originally, Corpo de Baile was published in 2 volumes, but current editions include 3 volumes.
1 - MANUELZÃO E MIGUELIM Contains the novellas "Campo Geral" and "Uma História de Amor (Festa de Manuelzão)".
2 - NO URUBUQUAQUÁ, NO PINHÉM Contains the novellas "O Recado do Morro", "Cara-de-bronze" and "A história de Lélio e Lina".
3 - NIGHTS OF THE SERTÃO Contains the novellas "Dão-Lalalão (O Devente)" and "Buriti".
CAMPO GERAL
The first novella of the volume is Campo Geral, which has Miguilim as its main character.
Different language, theme and time, but still, there is something that unites Lev Tolstoi, Clarice Lispector and João Guimarães Rosa: a torrent of words poured over the reader, which follows as if dragged along a raging river, with no time to breathe.
The story follows a frenetic pace, without pauses.
To understand Guimarães Rosa's work, the reader needs to be willing.
The author uses an unusual vocabulary. Partly regional, backwoods, and partly invented, created by the author.
The reader will often come across unknown words, not listed in dictionaries, and it will be up to him, the reader, to interpret and discover their meaning, by association or imagination.
The story is raw. It deals with life in the countryside. A hard, suffering life.
Everything seen through the eyes of Miguelim, a boy who seeks to understand the meaning of life and some meaning for the family tensions and intrigues of the Campo Geral community.
By Miguelim, the reader is introduced to the dilemmas of humanity: love, hate, pride, friendship and betrayal.
Miguelim does not have an understanding of the whole and his narrative leaves gaps to be filled by the reader, who through the subliminal message of Guimarães Rosa, deduces the reasons for what happens with Bernardo, Luisaltino, Terêz and Nhanina.
A masterpiece of Brazilian literature to be read through time. The exact understanding of the work is not in the compulsory reading of school years, but in spontaneous reading, in adult time, when the reader lets himself be carried away by Guimarães Rosa's words.
UMA HISTÓRIA DE AMOR (Festa de Manuelzão)
The second novella in the volume is Uma História de Amor, which has Manuelzão as the main character.
The theme of the novella is the party promoted by Manuelzão to inaugurate the chapel that the backwoodsman built in memory of his mother.
Guimarães Rosa presents the reader with a myriad of characters, built with rich details, not limited to the physical aspects, but entering into the emotional, establishing well-defined personality traits distinct from each other.
It is hard to admit, but Manuelzão's novella is a faithful representation of anticlimax.
It is a work of quality, but it is overshadowed by the brilliance of Campo Geral.
THE READER CAN CORRECT THE EDITING FAULT
The novellas are independent and the reading order does not alter the work.
Following the order of the edition, the perception will be of a 4 star work.
However, if the reader reverses the order, starts reading "Uma história de Amor (Festa de Manuelzão)" and finishes with "Campo Geral", it is certain that the perception will be of a 5 star work.
Only the rebelliousness of the reader, inverting the order of the edition, can give Guimarães Rosa's work the value it deserves!
---------------------------------- PORTUGUÊS
Obra de Peso: Corpo de Baile Volume 1
Para contextualizar, a obra é parte do CORPO DE BAILE, um conjunto de 7 novelas de Guimarães Rosa.
Originalmente, Corpo de Baile foi publicado em 2 volumes, mas as edições atuais contemplam 3 volumes.
1 - MANUELZÃO E MIGUELIM Contém as novelas "Campo Geral" e "Uma História de Amor (Festa de Manuelzão)"
2 - NO URUBUQUAQUÁ, NO PINHÉM Contém as novelas "O Recado do Morro", "Cara-de-bronze" e "A história de Lélio e Lina"
3 - NOITES DO SERTÃO Contém as novelas "Dão-Lalalão (O Devente)" e "Buriti".
CAMPO GERAL
A primeira novela do volume é Campo Geral, que tem Miguilim como seu personagem principal.
Língua, temática e época diferentes, mas ainda assim, há algo que une Lev Tolstoi, Clarice Lispector e João Guimarães Rosa : torrente de palavras despejadas sobre o leitor, que segue como que arrastado por um rio caudaloso, sem tempo para respirar.
A história segue um ritmo frenético, sem pausas.
Para entender a obra de Guimarães Rosa o leitor precisa estar disposto.
O autor se utiliza de vocabulário incomum. Parte regional, sertaneja e outra parte inventado, criação do autor.
Não raro o leitor irá se deparar com palavras desconhecidas, não listadas em dicionários e caberá a ele, leitor, interpretar e descobrir seu significado, por associação ou imaginação.
A história é bruta. Trata da vida sertaneja. Vida dura, sofrida.
Tudo visto pelos olhos de Miguelim, um meninote que busca compreender o sentido da vida e algum sentido para as tensões familiares e intrigas da comunidade do Campo Geral.
Por Miguelim, o leitor é apresentado aos dilemas da humanidade : amor, ódio, orgulho, amizade e traição.
Miguelim não tem a compreensão do todo e sua narrativa deixa lacunas a serem preenchidas pelo leitor, que através da mensagem subliminar de Guimarães Rosa, depreende as razões do que se sucede com Bernardo, Luisaltino, Terêz e Nhanina.
Uma obra prima da literatura brasileira para ser lida através do tempo. A exata compreensão da obra não se dá na leitura obrigatória dos anos de colégio, mas na leitura espontânea, no tempo adulto, quando o leitor se deixa levar pelas palavras de Guimarães Rosa.
UMA HISTÓRIA DE AMOR (Festa de Manuelzão)
A segunda novela do volume é Uma História de Amor, que tem Manuelzão como personagem principal.
O tema da novela é a festa patrocinada por Manuelzão para inaugurar a capela que o sertanejo construiu em memória de sua mãe.
Guimarães Rosa apresenta ao leitor uma miríade de personagens, construídos com riqueza de detalhes, não se limitando aos aspectos físicos, adentrando o emocional, estabelecendo traços de personalidade bem definidos e distintos entre si.
É difícil admitir, mas a novela de Manuelzão é a representação fiel de anticlímax.
É obra de qualidade, mas acaba sendo ofuscada pelo brilhantismo de Campo Geral.
O LEITOR PODE CORRIGIR A FALHA DE EDIÇÃO
As novelas são independentes e a ordem de leitura não altera a obra.
Seguindo a ordem da edição, a percepção será de uma obra 4 estrelas.
Porém, se o leitor inverter a ordem, iniciar a leitura por “Uma história de Amor (Festa de Manuelzão)” e encerrar com “Campo Geral” , é certo que a percepção será de uma obra 5 estrelas.
Somente a rebeldia do leitor, invertendo a ordem da edição, pode conferir a obra de Guimarães Rosa, o valor que ela merece !
As lindíssimas novelas que compõe este livro, originalmente as duas que abriam "Corpo de Baile", são mais um demonstrativo da beleza insuperável de Guimarães Rosa. A profundidade e lirismo da experimentação com dois pontos de vista aparentemente antitéticos (o do menino Miguilim e do velho Manuelzão) constituem um universo de representação universal típico. Samarra e Mutum são os ambientes que parecem tão distantes e pitorescos mas que, habitados por tipos como Dito, tio Terêz, Joana Xaviel, seo Camilo nos faz aproximar a um aspecto de alma tão comum a todos nós: pensamentos sobre a vida e a morte, o ensinamento da família, a necessidade e a vontade, a superação de si e dos pais... Evidentemente, as figuras de Miguilim e Manuelzão são as mais fortes e, especialmente, na tensão familiar e consigo mesmos durante as narrativas. O que mais me chama a atenção da história de ambos é a forte profundidade de sentimento do dever em face à vida familiar e individual: viver para si ou para os outros? É possível superar nossos pais? Eu consigo batalhar contra a morte? Quem lembrará de minha história. É interessante também o procedimento que Rosa aplica em ambas as narrativas (algo típico do escritor) de intermeá-las com pequenas historietas contadas por outros personagens, em Campo Geral por Miguilim, em Uma Estória de Amor por Joana Xaviel e seo Camilo. O tocante das narrativas acaba sempre advindo pela fusão de um universo meio místico, meio rústico em que os homens e os animais vivem na adversidade, mas sempre em busca de uma espécie de transcendência. Certamente histórias para ler e reler.
“Campo Geral” é lindo, sensível, melancólico e realmente deixa clara a beleza da escrita de Guimarães Rosa. A história de Miguilim é marcante, e todas as personagens e descrições da paisagem contribuem para colorir uma imagem magnífica das veredas mineiras e de sua cultura local.
“Uma estória de amor”, por outro lado, não conseguiu me cativar. Não me conectei com nenhuma das personagens, e no final achei a profusão de vaqueiros, pessoas dançando e bois bastante repetitiva e cansativa.
Dois contos separados que fazem parte de Corpo de Baile - livro composto por sete novelas e publicado em 1956. O primeiro é Miguilim, que conta a história desse menino que vive na roça com sua família e presencia e experimenta atos de amor, dor, morte e vida. Se tudo enxergamos através dos olhos de Miguilim, vemos a importância da natureza na vida ali no sertão das Gerais, sua profunda relação com os pais, os irmãos, a avó, e a religiosidade da família.
O segundo conto, Manuelzão, é sob a ótica desde vaqueiro já envelhecido que resolve dar uma festa em seu pequeno povoado e convida a todos da redondeza. Os sertões das Gerais aqui aparecem menos ameaçadores e mais convidativos, como um velho amigo que está sempre presente. As Gerais são mais ainda um personagem, que chamam Manuelzão para levar a boiada por seus matorrales afora.
Delicado, descritivo e inventivo, o autor mostra mais exemplos da linguagem do sertão que usaria extensivamente, e de maneira ainda mais crua, em Grande Sertão: Veredas - que, inicialmente, também fazia parte das histórias de Corpo de Baile.
A estória do menino Miguilim - com suas indagações sobre o bem e o mal, sua tentativa de compreender os mistérios da vida e da morte, seu olhar aguçado e contemplativo - foi uma das coisas mais belas que li em toda a minha vida, especialmente pela exploração do viés estetizante desse menino, criado em face da pobreza, da violência e da doença. Além disso, a estória do idoso Manuelzão e dos contrastes entre a festa pomposa que organizara e suas divagações sobre a velhice, a solidão, o desamor e o desejo de vencer a sua condição (a pobreza) é também muito bela.
Certamente, uma das minhas melhores leituras de 2023.
Guimarães Rosa é um dos maiores prosadores do século XX: artífice da palavra, leitor de Homero, sensível criador de estórias e de pessoas. É um privilégio ser nativo da língua portuguesa e fruir dos mistérios de sua escrita. Se a Academia Sueca nunca o premiou (por desconhecimento?), talvez seja um indício de que não devemos levar tão a sério esse tal de Prêmio Nobel...
Este é o segundo livro que leio de Guimarães Rosa, e dúvido que vá encontrar na vida algum escritor mais caipira que este. Já estou saturado de tanto boi...
Assim como Graciliano Ramos retratou a pobreza e miséria na caatinga do nordeste brasileiro, Rosa o faz com o sertão do interior do país. O livro nos traz duas novelas que foram selecionadas de um outro livro do autor, Corpo de Baile.
Miguilim é uma criança à descoberta do mundo, e que mundo tão pequeno.. Manuelzão é um homem de idade refletindo sobre o seu mundo, e que mundo tão limitado.
Outras pessoas poderão ter opiniões diversas. Eu penso que o livro trata da pobreza. A todos os níveis. Material, espiritual, intelectual e por aí vai.
Tive que retornar pra reiniciar a leitura de Manuelzão. Lindo se você consegue se entregar. Da pra ler umas 5x mais e ainda ser diferente. História que emenda em história. Pensamento que emenda em pensamento. Manuelzao centro da pesta. O pensamento dele centrifuga todas as histórias. O que sobra parece ser a certeza de morrer quando guiar a boiada. Mas o que realmente cola nas extremidades são as história a bobagem dos pensamentos. O cenário ta mais presente que em primeiras estórias. A festa que não é festa coisa nenhuma. Esperar morrer porque só isso acaba com o desgosto do viver. A busca da companhia do filho que não gosta nem desgosta. Dois trechos me marcaram: o riacho que seca e estrala e o trecho da busca por amor.
Queria muito ler mais coisas do Guimarães Rosa e este livro foi uma mistura de sensações. A primeira história, a do Miguilim, eu achei muito envolvente, foi uma leitura rápida que me prendeu muito. Eu gosto muito de histórias narradas por criança, então ela talvez tenha me pegado tanto por isso. No entanto, a segunda história não me prendeu em nenhum momento e foi um esforço imenso terminar o livro. Queria ter gostado mais. Acho muito legal a escrita do autor, com gírias típicas e tal, algo que dificulta a leitura, mas que adiciona uma beleza e imersão também ao universo que ele está trazendo. Porém infelizmente não consegui me prender a trama de Manuelzão.
primeiro volume de corpo de baile contendo 2 novelas.
campo geral, a primeira, é uma das melhores coisas que o rosa já fez. chorei rios com a morte do dido e com a doença do miguilim. belíssima história sob o ponto de vista infantil.
uma história de amor vale pela aproximação com campo geral. miguilim (de campo geral) é criança e manuelzão (de uma história de amor) está começando a entrar na velhice, mas ambos analisam suas vidas até então com olhares curiosos e seus respectivos futuros de forma renovadora.