Sinto-me feliz por ter encontrado aqui um homem digno. E uma rapariga silenciosa. É preciso vencer esse silêncio. É preciso vencer o silêncio da França. Agrada-me essa ideia.
O escritor Jean Bruller adoptou o pseudónimo Vercors como homenagem ao maciço onde a Resistência francesa se reunia após a invasão da Alemanha nazi e, em 1941, escreveu “O Silêncio do Mar", uma novela patriótica publicada e divulgada de forma clandestina. Li “Le Silence de la Mer”, que apelidava de forma insolente e pueril de “Le Silence de la Merde”, no original, no 12º ano, quando já tinha desistido do francês (ou o francês tinha desistido de mim), pelo que foi um autêntico golpe de sorte ter-lhe dado outra oportunidade décadas depois e, espantosamente, tê-lo apreciado tanto.
Por engano, um oficial alemão instala-se na casa de um homem e da sua sobrinha e não no palácio local. Apesar da cordialidade e das constantes tentativas de entabular um diálogo, tudo o que Werner von Ebrennac recebe em troca é silêncio, uma parede intransponível de silêncio, as represálias possíveis que esta família francesa encontra para enfrentar o invasor.
Durante muito tempo – mais de um mês – todos os dias se repetiu a mesma cena. O oficial batia à porta e entrava. Dizia algumas palavras sobre o tempo, a temperatura, ou qualquer outro assunto de igual importância: o único ponto em comum era não esperarem uma resposta. Permanecia sempre por alguns momentos no limiar da pequena porta. Olhava à sua volta. Um sorriso muito leve deixava transparecer o prazer que esse exame parecia proporcionar-lhe, - todos os dias, o mesmo exame e o mesmo prazer. Os olhos detinham-se sobre o perfil inclinado da minha sobrinha e quando finalmente desviava o olhar tinha a certeza de nele poder ler uma espécie de aprovação sorridente. Depois, inclinando-se, dizia: - Desejo-vos uma boa noite.
O alemão, filho de um soldado derrotado na Primeira Guerra Mundial, tem de França uma ideia completamente romantizada, vendo o conflito não como uma invasão mas como um casamento de dois grandes países e, sendo compositor, considera que o génio da música teutónica só encontra paralelo na literatura francesa, como a que recheia as estantes da casa onde se hospeda. E, assim, durante 100 serões, o oficial idealista profere imperturbavelmente os seus entusiasmados monólogos sem “a esmola de uma palavra” por parte dos proprietários da casa, até que uma licença em Paris, junto dos seus pares, o faz ver a subjugação da França como aquilo que ela é.
Na verdade, sei bem que os meus amigos e o nosso Führer têm as maiores e as mais nobres ideias. Mas também sei que arrancariam as patas aos mosquitos, uma a uma.
Pela ingenuidade com que o protagoniza alemão interioriza o endoutrinamento político, o “O Silêncio do Mar” fez-me lembrar “O Reencontro” de Fred Uhlman, onde também só resta o desencanto quando confrontados com a terrível realidade do nazismo, embora a dinâmica entre as personagens de Vercors e a subtileza do que não é proferido me tenha causado uma maior comoção. É poderoso o silêncio que é usado como arma de defesa.