Luciano Canfora adota três teses (premissas?) centrais para a obra, originalmente publicada em 2006. Primeiramente, a de que 1914 foi o estopim de uma série de tensões entre as maiores e menores potenciais europeias, principalmente no que se refere às disputas coloniais (e também por território na Europa), o que envolve outras nações (Império Otomano, Estados Unidos, as colônias em si etc.), dando o caráter “mundial” à guerra. Essa tese vai de acordo, embora não seja inteiramente coincidente, com o que Lênin escreveria sobre a guerra como ponto de chegada das disputas imperialistas, fase final do capitalismo. O fato é que o autor ressalta a não-existência de uma única culpa pela guerra.
A segunda tese ou premissa é a interconexão entre revolução e guerra — as tensões revolucionárias fazem com que a guerra, uma saída externa, seja interessante e, de outro lado, a guerra aumenta as tendências revolucionárias (basta ver a Rússia).
Terceiro e último, Canfora afirma que é possível tratar as duas guerras mundiais como um só conflito da Europa e do mundo. Suas bases e consequências não iniciam em 1914 e não acabam em 1918 — mantém-se os conflitos nos Bálcãs e as disputas coloniais. Isso não é muito ressaltado — é dito quase en passant —, mas me parece importante. Não sei se estou inteiramente de acordo, mas também não tenho suficiente conhecimento do assunto para tecer alguma outra opinião — até porque Canfora não diz que não haja diferenças entre os dois conflitos, mas sim que podem ser vistos como um conflito com duas etapas, afinal a causa de um (Segunda Guerra) já está no outro (Primeira) e, no fundo, pode ser vista como a disputa entre potencias imperialistas.
A partir dessas teses — e de forma a construí-las (não são tão apriorísticas) —, Canfora aborda e explica (com maestria) essas tensões nos Bálcãs, na Alemanha, na Áustria, passando pelas propagandas e falsificações, por incidentes específicos (Daily Telegraph; o atentado), pelas conjunturas e também pelas cadeias de eventos (declarações de guerra, por exemplo). É feita uma reflexão bastante interessante sobre a atuação dos partidos socialistas na Alemanha, França, Itália, Inglaterra e Rússia. Na Alemanha, França e Inglaterra, nenhum conseguiu, de início, se colocar contra a guerra, o que era uma contradição em partes. Já na Itália e na Rússia isso ocorreu. Também trata-se muito bem da reação no mundo do cristianismo frente à guerra.
A conclusão é de que as bases para o autoritarismo da Europa nas décadas de 20 e 30 não surgem só a partir das consequências do conflito, como se costuma dizer. Mais do que isso, elas estão ainda em 1914, no caso da Alemanha com a progressiva tomada de poder do alto comando militar (Luddendorf e Hindenburg) e, em 1917, com a fundação de um partido de direita populista (Partido da Pátria), anexacionista e chefiado pelo próprio Hindenburg. Esse partido surge concomitantemente ao Partido Socialista Independente, explicitamente contra a guerra, e conquista imediatamente um enorme apoio popular. O interessante é que a esquerda anti-guerra ficou marcada na historiografia alemã (e não só alemã) como a culpada pela perda do conflito — uma mentira, é claro, mas algo muito importante de se saber para entender o pensamento alemão nas décadas que se seguiriam. É interessante também que essa esquerda não soube se defender dessas críticas falsas, mas pode-se dizer que o essencial dessa ascensão autoritária é, no fundo, a suspensão da política.
Enfim, um excelente resumo das temáticas e reflexões acerca da Primeira Guerra, com teses bem desenvolvidas pelo autor. Gostei muito do estilo de escrita e de algo bem marcante — às vezes, Canfora fala brevemente sobre um tema que fica meio em aberto, mas mais para frente, esse mesmo tema surge novamente e é melhor explicado.