"Se fechasse os olhos, podia visualizar quatro milhões de fios finíssimos a saírem do seu cérebro, cada um ligado a um.dos peluches da sua cidade."
O conceito por trás do livro de Tim Davys prende a nossa atenção no mesmo segundo em que o confrontamos. Mollisan Town é um cidade habitada por animais de peluche, que dormem, comem, trabalham, divertem-se e deixam-se envolver pela amizade, amor e religião como as pessoas normais.
"Mas o amor é um mundo em si."
Eric Urso vive uma vida tranquila, ao lado da sua mulher Emma Coelho. Porém, circunstâncias para nós misteriosas, arrastam o peluche para as teias do seu passado, onde se esconde o mundo obscuro da máfia. Nicolau Pombo é como o Padrinho e exige a contribuição do seu antigo empregado numa tarefa urgente. Este, assustado por ser obrigado a aceitar, reúne os antigos colegas e, com eles, inicia uma aventura, por vezes divertida, mas acima de tudo perigosa.
Esta é uma história que envolves duas listas: a lista dos nascidos e a lista dos mortos, que envolvem todos os animais de peluche. Tal como nós, eles nascem e morrem, ainda que de formas diferentes. Os cidadãos de Amberville são criados e entregues aos pais pelos fornecedores. No final da sua vida, em que a aparência se mantém, mas o intelecto evolui, os motoristas vêm buscá-los.
"O género de coisas que te fazem doer o coração, dentro de ti, são o mal."
"Amberville" é um livro muito difícil de classificar. Entre o mistério e o drama estão expostos vários pensamentos, principalmente sobre o mal, o bem e o que distingue uma má de uma boa pessoa. A par da história principal, dominada por Eric Urso e o seu grupo, Davys insere histórias secundárias sobre obsessões, dificuldades e tristezas de personagens que, de uma forma ou de outra, estão ligadas ao fio condutor do livro.
Inicialmente, a originalidade por detrás da exposição de temas pertinentes e intemporais como a relação entre o passado e o presente, o bem e o mal, o amor, a amizade, a religião e o existencialismo são suficientemente fortes para nos manter cativados. Porém, a certa altura, os discursos tornam-se repetidos, ainda que as palavras e os interlocutores mudem, as ideias mantém-se. E assim, apenas o mistério persistiu, mas por si só, a busca por uma lista de nomes não é nada que nos faça perder a cabeça.
"Que a morte seja obra do acaso é de alguma maneira...indigno!"