Com doze anos, o Constantino ainda não deitou corpo, mas lá esperteza não lhe falta. O pior é a escola: gosta mais de andar aos peixes e aos pássaros. E acabou por apanhar uma raposa sem sequer ir à caça. Enquanto guarda as vacas, o Constantino sonha é em ser serralheiro de navios e fazer um barco que o leve até Lisboa. Amanhã mesmo deita mãos à obra.3ª Edição, Livros de Bolso Europa-América #100
Cedo começou a trabalhar dada a natureza modesta da sua família. Parte para Angola, aos 16 anos, procurando melhores condições de vida, regressando a Portugal três anos depois. Junta-se ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), que se opunha ao regime do Estado Novo, e filia-se no Partido Comunista, escrevendo artigos no jornal O Diabo.
Introduziu o neo-realismo em Portugal com o romance Gaibéus (1939), nome dado aos camponeses da Beira que iam fazer a ceifa do arroz ao Ribatejo, em meados do século XX. Daí em diante sua obra revela uma grande preocupação social, velada ainda assim, dada a censura e à perseguição política movida pelo regime de Salazar aos oposicionistas, e mormente aos simpatizantes do PCP, como era o caso. Chegou mesmo a sofrer prisão política tendo sido torturado.
Seu último romance, Barranco de Cegos, de 1962, é considerado sua obra-prima e afirma sua nova fase, em que a intervenção política e social é posta em segundo plano, dando lugar a um centramento nas personagens e na sua evolução psicológica, de cariz existencial.
"Vive para esse grande e único sonho, nascido à primeira vista do Tejo, quando o levaram a Lisboa pela primeira vez. Constantino sente-se investido na dignidade de guardador desse sonho. (...) Por enquanto é segredo. O Constantino quer fazer uma surpresa à Ti Elvira, porque a avó [a Ti Elvira] lhe disse um dia: cresce e aparece. E o nosso amigo Cuco sabe também que o verdadeiro tamanho de um homem se mede pela coragem e pelas obras. Amanhã mesmo ele vai continuar a construir o seu barco. Já o meteu no estaleiro do coração, conhece-lo de cor, e o resto é fácil..."
Alves Redol, com o seu maravilhoso dom de contador de histórias, cativa os leitores tanto pela beleza da sua escrita, como pela vivaz imaginação, fantasia e sonhos com que ilustra as suas personagens.
Constantino é um "pequeno homem" (já não é um moço) que viveu em sonhos a sua maior aventura, durante a noite, e quer vivê-la também durante o dia!
É uma história muito interessante de um rapaz rural com o sonho de ir para a capital contruir barcos ("Quer chegar a serralheiro de navios, há-de construir alguns que deitem fumo (...) Não conhece ofício mais bonito!..."). ;)
Diverti-me imenso com o Constantino, com as suas aventuras e sonhos, o seu desalento, com as suas emoções, muitas vezes exacerbadas pelo desespero. Constantino é um rapazinho que vive numa aldeia e que leva uma vida dura, mas que tem sempre tempo para sonhar, para ver para além daquilo que o cerca, das suas dificuldades. Ri-me muito com a sua língua afiada, a sua perspicácia e com as expressões da sua avó, Ti Elvira. Foi uma tarde muito bem passada, na companhia deste miúdo. Recomendo.
São 3* de avaliação porque o sistema não permite 3,5
Freixial, Bucelas, anos 60. Uma bela delícia saloia, esta história! Saloia no sentido de relatar as aventuras, sonhos e realidades de um menino de 12 anos na sua vida rural, entre escola e a ajuda à família no campo. Nas brincadeiras de juventude, nos sonhos que flutuam pelo rio Trancão, Alves Redol é riquíssimo no uso de palavras de uma realidade campesina que cada vez me é mais distante, geográfica e temporalmente.
Era suposto ter lido este livro quando andava no 6º ano, mas na altura ler não era o meu passatempo favorito :). É uma leitura leve e gostei bastante porque vi muito o meu avô neste livro, não em nenhuma personagem, foi mais por algumas expressões que nos dias de hoje já não propriamente usadas. No entanto, como não é o meu tipo de leitura favorito, vou dar apenas 3 estrelas.
Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos é um livro que cheira a terra e a infância... Um menino frequenta a escola primária mas gosta de faltar... Guarda vacas e sonhos* com a natureza e era feliz porque tinha um sonho!
Lembrei-me deste livro agora, não sei bem porquê. Quando tinha 5 anos durante, provavelmente, um mês o meu pai ia-me lendo um capítulo deste livro todas as noites até eu adormecer. Ele ainda hoje fala deste livro e pronto eu tornei-me numa adulta que adora ler por causa de alguém.
Constantino um rapaz do campo tem um sonho mas por enquanto não deixa de ser um guardador de vacas que sonha em concretizar esse sonho, sonho que lhe comanda a vida. Um livrinho muito simples que nos coloca numa infância perdida nestes tempo de modernidade, numa infância de "liberdade", embora pense que hoje em dia os nossos jovens tenham mais liberdade (para isso hão lutado os nossos ascendentes) "física" também é verdade que conseguimos encurrala-los nos nossos medos "psíquicos" (alguns com razão), já Constantino o nosso guardador de vacas tal como alguns de nós, tinham uma enorme pressão sobre si, recaia em si uma responsabilidade que hoje é amputada aos jovens, mas aqueles momentos de liberdade, de despreocupação, longe de tudo sozinho com o mundo, esses momentos valem ouro nos dias de hoje. É este fascínio pela liberdade, pela amizade, pela fantasia que torna este livrinho num marco de referência nacional, está aqui a vivência da puberdade dos nossos ascendentes a vida como ela era, na sua forma mais bonita, mais prazenteira, mas ninguém pense que era este constante mar de rosas que se vivia pela altura, falta neste conto o lado negro desses tempos para tornar este livro num grande romance.
Com uma linguagem simples mas bela, erudita, Alves Redol cativa-nos num conto roubado às nossas memórias.
[PT:] Em Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, Alves Redol esboça o retrato do Ribatejo rural nos anos 50 e 60 sob forma de um Buildungsroman. Constantino é um jovem sonhador e criativo cujas ambições transpõem a calmaria da terra em que nasceu. Por meio de uma escrita inspirada na oralidade do povo português, o leitor entra num retrato social nostálgico e quase mágico de um mundo quase extinto, que o levará pelas margens da memória coletiva.
[EN:] In Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos [Constantine, Keeper of Cows and Dreams, my translation], Alves Redol sketches the portrait of rural Ribatejo in the 50s and 60s in the form of a Bildungsroman. Constantine is a dreamer and a creative young man whose ambitions transcend the peaceful land where he was born. Through a writing style inspired by the orality of the Portuguese people, the reader enters a nostalgic and almost magical social portrait of a nearly extinct world, which will take him along the margins of collective memory.
Interesse/comoção: 3 Escrita e estrutura: 4 Aprendizagem: 3
Esta história brota da veia neorrealista de Alves Redol. Revisitei um dos arquétipos literários tipicamente lusitanos: a representação cândida da realidade rural pelos olhos de um miúdo. Não é o exemplo mais primoroso (por vezes, a narrativa fica confusa) e tocante (os episódios mais emotivos parecem resumidos), mas está bem conseguido. Gostei da articulação entre os capítulos e dos laivos poéticos do autor que me surpreendiam quando menos esperava.
Leitura muito agradável Lê-se em muito pouco tempo O ambiente fez-me lembrar "Bichos" de Miguel Torga. Um Portugal rural e pobre em que as crianças saem da escola cedo e têm de ir para o campo trabalhar. Não deixam de ser crianças com sonhos e muita imaginação. Constantino é mais uma de tantas crianças que ambicionam um dia ter um emprego melhor e conhecer o mundo para lá da terra onde vive. "Um homem cresce até ao fim da vida, se não em altura, pelo menos em obras e ambições"
Na verdade, não gostei nada do livro. Parece que aqui o Alves Redol deixa-se levar pela bucolicidade nacional, generacional e étnica que tanto se critica o Estado Novo de ter forçado na população. Demasiado moralista às vezes...
Espero que o Gaibéus seja melhor.
1 das estrelas dedico-a ao meu avô pela linguagem que ele usa ser exatamente igual ao do Redol.
Narrativa simples, recheada de expressões populares "deliciosas", onde são retratadas as aventuras e desventuras típicas de um adolescente ribatejano de origens humildes, em meados do século XX. Retrato realista de um Portugal rural dessa mesma época. Adorei!
Escrita com um ritmo admiravel e imaginário que muito dirá a quem tenha tido uma infância em contacto com a natureza. Provavelmente a versão portuguesa do Tom Sawyer.
Livro simples e muito bem escrito, fruto da vivência do autor na região saloia e do seu convívio com um real Constantino, guardador de vacas e com os sonhos próprios de uma criança de 12 anos. Não é, porém, um livro infantil, para crianças. História de Constantino, Cuco e Cantigas de alcunhas de família. Teimoso como não há. Idealizador como poucos, que na sua vivência rural sonha ser serralheiro. Fanfarrão, diz-se dono de 50 ninhos, mas nem de metade seria, mas para o propósito do livro não interessa ao autor contá-los. Constantino tem uma irmã 5 anos mais nova, Ana Maria, de quem tem ciúmes por julgar que a mãe gosta mais dela, só sanada porque o Pai teve com ele uma convera de homem para homem, e homem não tem ciúmes de criança pequena. Na escola não é propriamente preguiçoso, mas prefere apanhar a mostrar sua sabedoria, que também não será por aí além, ao que ele estuda, do que cantar ams matérias ao som das reguadas. Cá fora, para além da mãe, mulher desempoeirada e trabalhadeira, e resmungona com quem é calaceiro, convive com o pai, que é ausente por passar os dias a tarbalhar, mas por quem tem muito respeito e sobretudo com a avó, paterna julgo eu, chamam-lhe Ti Elvira, que é com quem se pica mais, sendo particularamente audível o seu grito Constantiiiiiiino. O seu grande amigo de aventuras e o Manel com quem partilha, a procura de ninhos, a construção de um barco onde iriam Trancão abaixo até Lisboa e até ao Tejo, banhos em pelo nas poças da aldeia de Bucelas, e quezílias com a Custódia, uma lavadeira do sítio. Constantino é miúdo calado, metido em si mesmo, que fez um grande feito o qual foi na festa anual ter ido ao cimo do poste apanhar o bacalhau, o garrafão e as batatas. Estragou o fato novo, mas isso não é assim tão importante. Marcante também a sua relação com ops animais, com as vacas que vigia, a carocha, a mimosa, com as mulas, janota e carriça, com os pássaros, nomeadamente os pintassilgos qe tenta meter numa gaiola, e, sobretudo com a cadela, Rasteira de seu nome der fino pedigree rafeiro.
Esta obra encaixa na perfeição no percurso literário de Alves Redol, considerado por muitos como o autor da primeira obra literária do neorrealismo português, Gaibéus. Constantino, guardador de vacas e de sonhos é uma obra com claros traços neorrealistas. Nela é exposto um quadro realista da vida dura das populações das zonas rurais de Portugal, não de forma tão detalhada como nos romances de Alves Redol, mas ainda assim com muitos pormenores que imediatamente nos transportam para a época em que decorre a acção.
Um livro simples mas de uma transparência elevada. A história leva-nos para anos idos, terras dos arredores de Lisboa mas, mais do que tudo, as expressões usadas por Alves Redol mostram-nos o verdadeiro entrusamento dele com os locais. A maior parte das palavras e expressões que ele coloca na boca das personagens já eu ouvi na boca de familiares mais velhos. Um livro mimoso que mostra que os sonhos comandam a vida!
Este livro relata-nos as peripécias de um menino do campo, de nome Constantino, que, tal como todas as crianças, gostava de sonhar; e Constantino sonhava com os seus pássaros e com a construção de um barco que o levasse até Lx.
Retrato real, divertido e plausível das comunidades rurais da periferia da Capital de meados do século XX.
O Constantino é um miúdo de 12 anos que tem um sonho que ninguém irá conseguir com que ele desista dele e que se mete em cada embrulhada e que no fim corre tudo bem. Adorei saber a forma como se falava antigamente aqui em Portugal como nasci quase no final dos anos 90 não me lembro de nada só vendo filmes dessa época. Ri tanto com o palavriado deste livro muito bom mesmo.