«A serra é agreste, primitiva, mas tem carácter, sem dúvida. Comprazes-te em pintar-lhe as virtudes e encantos sem sombras, e não serei eu que te acoime de parcial. As tintas escuras são para o novelista e tens razão. Decerto que eu, ao chamar-lhe Terras do Demo, não quis designá-las por terras do pecado, porque o pecado seja ali mais grado ou revista aspecto especial que não tenha algures. Nada disso. A serra é portuguesa no bem e no mal. Chamei-lhe assim porque a vida ali é dura, pobrinha, castigada pelo meio natural, sobrecarregada pelo fisco mercê de antigos e inconsiderados erros e abusos, porque em poucas terras como esta é sensível o fadário da existência.»
Aquilino Gomes Ribeiro was a Portuguese writer and diplomat. He is considered as one of the great Portuguese novelists of the 20th century. He was nominated for the Nobel Literature Prize in 1960.
Natural son of Joaquim Francisco Ribeiro, a priest, and Mariana do Rosário Gomes, he had three older siblings: Maria do Rosário, Melchior and Joaquim. Destinated to priesthood, Aquilino Ribeiro got involved in republican politics, opposing the Portuguese monarchy, and had to exile himself in Paris; he returned to Portugal in 1914, after the Republican Revolution of 1910.
He was involved in the opposition to António de Oliveira Salazar and the Estado Novo, whose government tried to censor or ban several of his books.
He married twice, firstly in 1913 to German Grete Tiedemann (ca. 1890-1927), by whom he had a son Aníbal Aquilino Fritz Tiedeman Ribeiro in 1914, and secondly in Paris in 1929 to Jerónima Dantas Machado, daughter of the deposed President of Portugal Bernardino Machado, by whom he had a son Aquilino Ribeiro Machado, born in Paris in 1930, who became the 60th Mayor of Lisbon (1977–1979).
As terras do Demo olham nos olhos a serra da Estrela , vislumbram o Caramulo, parte do Douro e o Marão. É chão agreste e árido, terras demoníacas para quem as trabalha. Os habitantes de Seitosa vivem como o Diabo quer, na pobreza . Os que desesperam por mourejarem sem proveito partem para o Brasil. Os que ficam aguentam valorosamente, enganando a fome e bebendo o seu meio quartilho ao início da noite (ou antes ). Aquilino deixou-nos um livro com uma prosa rica e barulhenta sobre esta gente genuína, simplória e espontânea , mas "dura de rilhar". Gente avara, bronca, que, "nem que a terra se abra", não esquece uma provocação ou traição. Praticante da fé cristã e também de bruxedos, defumadouros e esconjuros. Gente igual aos bichos do monte , que não consegue conter os ímpetos e que se cruza com a ingenuidade e honradez de outros filhos da terra. É um mundo ancestral...já desaparecido.
O livro divide-se em duas histórias , " A velha e o lobo " e " Glorinhas". A leitura nem sempre é fácil devido à linguagem assente em regionalismos essencialmente ligados ao mundo rural.
"Como há um ano, há vinte, há séculos, a aldeia bárbara saía a campo, morriam uns, nasciam outros, o fado de viver passava nela insensivelmente; o homem cumpria a sua missão de filho da terra."
Um romance intemporal, dividido em duas partes, " A velha e o lobo " e " Glorinhas", do grande Aquilino Ribeiro. Talvez por ser natural destas terras serranas, Aquilino consegue desenhar-nos um retrato fiel, etnográfico, de gentes e costumes, que talvez ainda perdurem em algumas das mais isoladas aldeias portuguesas.
Com uma linguagem repleta de regionalismos, alguns deles já em desuso, que provocam uma dificuldade acrescida à sua leitura. No entanto, não teria o mesmo impacto se fosse escrito de outra forma, pois é esta linguagem difícil e rural que remete e reforça o isolamento, a dureza, a brutalidade destas gentes, dos seus costumes e das paisagens agrestes destas Terras do Demo.
Ao longo desta leitura, foi-me impossível não pensar na atualidade deste texto. As terras e gentes que Aquilino Ribeiro imortalizou neste seu romance são hoje mais prósperas e de vida menos dura e isolada, mas essa é uma prosperidade recente. Não é difícil visitar aldeias do interior e cruzar com gentes que herdaram esses longos tempos duros. Tempos em que uma vida se media entre duas ou três aldeias, em que a pobreza era endémica e os costumes milenares se fundiam com o poder da religião, mas cujos homens de deus não deixavam de gerar prole. Não escrevo isto com nostalgia, ou desprezo pelos tempos e gentes de outrora. Apenas com a sensação que, na sua essência, a alma do povo que Aquilino, no seu realismo regionalista, descrevia, ainda continua arreigada no nosso carácter.
Por um punhado de moedas. Quando o bem sucedido e bom anfitrião estalajadeiro da aldeia sabe que um dos seus hóspedes foi roubado, nem quer acreditar. Até porque a coisa se passou numa noite de folguedos, e não há suspeitos. Fala-se numa das filhas do estalajadeiro, mas a inocência prevalece. O assunto é arrumado, e a via nas aldeias serranas continua, sempre dura e difícil, de pobreza e trabalho duro no campo, de costumes arreigados entre a religiãp e superstição. A filha do estalajadeiro faz a sua vida, e náo há vidas felizes nas terras do Demo, uma vida de sacrifícios e dureza. O genro, deserdado pelo pai usurário, desconfia que a velhota guarda um segredo. Talvez um punhado de moedas?
O ciclo fecha-se no final desta história, mas o olhar de Aquilino não se centra sobre o mistério das moedas. Se é o segredo da vida de uma personagem, a riqueza do texto está na forma como nos leva a um verdadeiro mergulho etnográfico. O olhar de Aquilino é de fino observador, e a sua prosa, apesar de rebuscada, leva-nos às paisagens e vidas duras das terras entre serras, no interior profundo de um Portugal que ainda hoje é esquecido.
Nas terras duras, o amor é um luxo, mas as pulsões humanas são mal refreadas pelos costumes. O casamento é coisa para a vida, para se ter uma vida. A sexualidade recata-se em namoricos, porque mais que isso é arriscar o opróbrio. Outras vezes, é a força bruta masculina que toma aquilo que quer. Na segunda parte do romance de Aquilino, o amor quase que vence. A história olha agora para outros personagens, o pequeno fidalgo local, uma das jovens raparigas da aldeia, e uma velha alcoviteira. O fidalgo sempre teve amores pela rapariga, mas o fosso social entre um agrónomo descendente de pergaminhos de terceira ordem e uma jovem analfabeta do povo era demasiado grande. Isso, e a pressão da mãe do fidalgo. Mas quando a jovem procura casamento com um homem da terra, o fidalgo ganha coragem e, com ajuda de uma alcoviteira, consegue reatar o seu amor. E assim ficam as coisas, com o homem cada vez mais disposto a ignorar as barreiras sociais e a casar-se com a jovem. Mas há outros homens na aldeia, e para alguns o amor é algo que arrancam à força do corpo das mulheres que apanharem a jeito.
O final deste romance apaixonante é brilhante, duro, incómodo. E também uma lição de intemporalidade, de vidas e gentes que se sucedem numa paisagem agreste, vivendo essencialmente como sempre viveram. "Como há um ano, há vinte, há séculos, a aldeia bárbara saía a campo, morria uns, nasciam outros, o fado de viver passava nela insensivelmente; o homem cumpria a sua missão de filho da terra", lê-se num dos parágrafos finais. Passam as histórias, fica a aldeia, os ribeiros e penedias, e as serras.
“Terras do Demo” é um diorama fulgurante do modo de (sobre)vivência numa Beira Alta aldeã, insular e agreste. À distância, a Serra da Estrela é testemunha omnipresente das proezas e aspirações de gente simples e bruta, da árdua labuta debaixo da ameaça constante de miséria, dos ciclos da natureza e hostilidade dos elementos, do primordial vínculo ao mais animalesco da condição humana.
O léxico riquíssimo, pejado de regionalismos intransponíveis numa primeira investida, é um cerco granítico ao abrigo do qual Aquilino Ribeiro, mestre artífice, tece a trama que a dois tempos nos acolhe, envolve, e finalmente desagua em supurante e desmesurado pathos.
Não sendo de leitura fácil, quer pela forma, quer pelo conteúdo, é uma obra tremendamente recompensadora. No meu caso, as personagens e tradições retratadas atiçaram memórias que tenho da infância passada na aldeia dos meus avós no distrito de Viseu, fundindo deleitosamente ficção e realidade na minha imaginação.
Em Terras do Demo, obra prima de Aquilino Ribeiro, o espaço físico ruralmente agreste é palco do espaço social em que se movem as personagens rústicas de um Portugal alheio, ainda, à modernidade que já se adivinhava com a república. A pequenez do espírito, a ambição miserável por um pedaço de terra, por parte de quem não tem quase nada, as pequenas intrigas, as relações conjugais, raramente passando por relações amorosas são os tópicos que percorrem o livro, documento ficcional de um Portugal rural, antigo, fechado em si, pobre, quase tipificado, com os seus almocreves, lavradores, homens e mulheres do campo, padres prevaricadores e resquícios uma antiga fidalguia decadente. [Resumo da responsabilidade do Plano Nacional de Leitura 2027]
ISBN: 978-972-25-3750-6
CDU: 821.134.3-31
Livro recomendado PNL2027 - 2020 1.º Sem. - Literatura - dos 15-18 anos - maiores 18 anos - Fluente
Uma descrição do ruralismo sem igual recorrendo a imensas palavras e expressões que já caíram em desuso. A ingenuidade, a pobreza, a honra e a dependência da Natureza, dos costumes e da religião habitam em todos os habitantes das Terras do Demo.
Pintando paisagens não só com um realismo rural mas também com o existencialismo inerente ao Homem: "Tudo no mundo era episódio, posto revertisse um acento de eterno dentro da ciclicidade. Muitas gerações andadas, ver-se-iam agros, gente, coisas, o mais iguais àquelas que se pode imaginar. A forma é que as prendia à existência. O mais, desejos, ilusões, vontade ou resignação da vontade perante o absoluto, que era isso?"
"Pouco a pouco a alma de Mioma foi-se impregnando do trânsito sereno da natureza; todo o seu sentido de circunspecção bem desperto, via-se nos seres, nas coisas e até no florir espontâneo do próprio pensamento. O Eu coordenava-se-lhe, como fábrica arrasada, por sortilégio resnascida dos escombros. E o dogma da existência aparecia-lhe mais na satisfação das realidades que prendem o instinto à terra do que em deixar correr ao espírito a aventura fátua da insaciedade."
Trata-se de uma descrição de vários tipos de uma aldeia serrana no interior centro de portugal, com a linguagem, usos e costumes do povo dessas terras. É um retrato fesco e vívido de uma realidade de há 30 anos atrás e que quase já não existe.
Aquilino Ribeiro deixou-nos uma obra atemporal de pobreza, num Portugal ancestral cuja trama se localiza na Serra da Estrela, partes do Douro e Marão. Esta não é uma obra que prese pelas suas personagens, servindo de veículo para demonstrar a pobreza de quem por vezes opta, ou não consegue optar, viajar em busca de uma vida melhor.
Esta é uma estória sobre os restos, a pobreza de um Portugal rural que Aquilino conhecia como a palma da mão. Não só, mas as descrições cosidas no texto demonstram a intemporalidade, uma certa imortalidade, que vai passando incólume, nos bons e maus momentos.
Como sempre, considero a linguagem sofisticada de Aquilino tanto uma bênção quanto uma maldição. Por um lado, as descrições são de tirar o fôlego. Por outro, precisei de ter um dicionário em mão somente para compreender partes do enredo.
Mesmo assim, é um excelente tesouro nacional que recomendo. E também pode ser considerado um teste à altura para a verdadeira fluência na língua portuguesa.
Neste romance, a língua esotérica beirã de Aquilino Ribeiro delícia quem por lá nasceu e cresceu. Uma viagem no tempo, ao tempo dos nossos avós e bisavós, um pequeno vislumbre de um passado não muito distante mas que em nada se assemelha ao agora.