Diz a crença popular que a vingança é um prato que se come frio. Em O pau, Fernanda Young fala do tema ao contar a história de Adriana, uma bela designer de joias que descobre sinais da traição do namorado, 14 anos mais novo. Ao longo das páginas, a escritora usa o humor ácido que a consagrou como redatora de sucessos como Os normais para derrubar a teoria freudiana da inveja do pênis.
Linda, bem nascida e com uma carreira de sucesso, Adriana tem 38 anos e sofre com as inseguranças que atingem boa parte das mulheres de sua idade. O corpo, embora cuidado com esmero, não tem mais a firmeza encontrada nas meninas de 20. No rosto, começam a despontar as primeiras marcas de expressão, e temores como o aumento do grau dos óculos para vista cansada são uma constante. Por dentro, as marcas de sucessivas decepções amorosas a tornaram extremamente desconfiada.
Nesse contexto, entra na vida da designer de joias um jovem ator de 24 anos. Bonito, com um corpo malhado e, para completar, se dizendo completamente apaixonado por ela. Mesmo sem querer acreditar muito que possa ser verdade, Adriana termina embarcando na história, dizendo a si mesma que não é amor o que sente, está só aproveitando a chance de desfilar por aí na companhia de um belo rapaz, ainda por cima mais novo, que está ao seu lado porque tem a chance de aprender sobre o mundo e levar uma vida melhor. Afinal, segundo ela, suprir mútuas necessidades é a base do sucesso da maioria dos casais.
Tudo parecia ir bem até uma noite em que, acordada sozinha na sala da casa do namorado, ouve o celular dele apitar com uma mensagem de um remetente sem nome. Em poucos minutos, a desconfiança de Adriana cresce e ela descobre a identidade de quem mandou o torpedo: uma modelo e atriz que diz ter 21 anos. Diante dos sinais de traição, a designer monta um elaborado plano de vingança, com o objetivo de destruir o que acredita ser a única coisa com a qual seu namorado se importa: o próprio pênis.
Fernanda Maria Young de Carvalho Machado foi uma escritora, roteirista, apresentadora de tv e atriz brasileira.
O primeiro trabalho de Fernanda escrevendo para a televisão foi em 1995, na série A comédia da vida privada. O texto original era de Luis Fernando Verissimo, no entanto, Fernanda e o seu marido (Alexandre Machado) adaptaram o clássico para a televisão. Em parceria com o marido, ela também escreveu para a rede Globo as seguintes produções: Os Normais (2001-2003), Os Aspones (2004), Super Sincero (2005), Minha Nada Mole Vida (2006), O Sistema (2007), Nada Fofa (2008), Separação?! (2010), Macho-Man (2011), Como Aproveitar o Fim do Mundo (2012).
Em 1996, Fernanda Young lançou o seu primeiro livro intitulado Vergonha dos pés.
Minha primeira leitura de Fernanda Young. O primeiro capítulo já começa dando hadouken ao fazer uma análise seca e certeira do falocentrismo mundial. O texto perde um pouco o encanto a medida que vamos conhecendo Adriana, a personagem principal. Achei ela de uma chatisse que dá nos nervos. Reclamona... Mas a cada pedacinho da história que a gente conhece, fica mais claro o por quê dela ser assim. Justificável até. Eu ouvi o audiobook lido e interpretado para Marisa Orth e que experiência única! A cereja do bolo desse livro maravilhoso. Recomendo. :-)
Adriana, uma mulher mais velha que namora um rapaz jovem, narra sua catártica jornada de vingança contra a traição do namorado. Este livro é uma obra-prima da acidez e do sarcasmo. Fernanda Young tinha uma veia única para contar suas histórias sem qualquer preocupação em elevar o espírito do leitor com uma protagonista heroica, redimida, justificada. Nada disso, aqui só tem acidez e sarcasmo mesmo. A protagonista Adriana é... curiosa. O que ela tem de detestável, também tem de cativante. Uma mulher com os nervos à flor da pele, e com razões de sobra para isso. Ela não busca ser compreendida pelo leitor, não está interessada na aprovação do público e muito menos necessitada de qualquer empatia. Ela quer vingança. Só isso mesmo. Vingança da boa, da pura. E vai saborear cada momento. O livro é uma ode contra o falocentrismo. É um grito de raiva, um lembrete de que nenhuma mulher precisa ser santa para que suas reivindicações tenham validade.
A forma como a Fernanda Young escreveu esse livro, usando muitas vírgulas, até me lembrou o jeito que eu escrevo. Algumas coisas eu não gostei, como a forma de vingança da personagem. Agora, enquanto lia sobre o passado de Adriana e conhecia sua história de vida, mesmo que não simpatizando com ela, algumas coisas eu achava interessantes.
Antes de tudo preciso deixar claro que esse não é o tipo de livro que estou acostumada a ler, é bem diferente e isso influencia muito na avaliação.
Eu amei o humor ácido do livro e apesar de entender a personagem em varias partes, achei ela muito chata e em varios momentos soberba, e quando comecei a sentir uma pequena empatia pela história dela, o livro cortou pela raiz, uma breve passagem pelo sofrimento real da Adriana.
Entretanto tem uma pequena coisa que eu me identifiquei totalmente: o mau jeito com impressoras. Os terroristas urbanos... eles existem.
Fernanda Young entrou na minha vida através do programa de televisão brasileiro “Saia Justa”, onde ela e mais 3 mulheres discutiam assuntos pertinentes da sociedade da época, de uma forma bem humorada, ácida, verdadeira mas também controversa. Depois vieram “Os Normais”, série da qual é guionista e que só é a minha série de humor favorita de sempre (não tem quem bata a Vani e o Rui nas suas neuroses). Daqui até querer ler um livro da sua autoria foi um tirinho.
Recentemente revi alguns episódios do “Saia Justa” que estão disponíveis no YouTube, e senti uma certa saudade da Fernanda (para quem não sabe, a Fernanda faleceu em agosto de 2019, aos 49 anos, vítima de uma crise asmática intensa e repentina) e pareceu-me a altura indicada para reler este “O pau”.
Com uma escrita muito característica da autora, rápida, dinâmica e com uma grande porção de sarcasmo, acompanhamos Adriana numa viagem profunda ao íntimo do que é ser mulher, onde os seus sonhos, desejos e medos são escrutinados tendo em conta aquilo que uma sociedade machista ensina às mulheres desde que elas nascem. Um livro bruto mas belo, irreverente mas também reflexivo, que faz de Fernanda Young uma autora necessária e que não deve ser deixada cair no esquecimento.