Marrocos, 1578: dez mil guitarras jazem ao abandono no campo de batalha de Alcácer-Quibir. D. Sebastião desapareceu. Morto ou vivo? Há quem espere por ele... Ao contar-nos essa espera, Catherine Clément oferece-nos uma truculenta galeria de retratos de uma Europa em mutação: o peso dos Habsburgo, a violência das guerras religiosas, a loucura do Imperador da Áustria, a rebelião da jovem rainha Cristina da Suécia e a sua paixão por Descartes. Composto como uma ópera, pleno de fantasia e de verdades pouco conhecidas, o romance dá voz a personagens memoráveis, como esse famoso rinoceronte - que atravessou a Índia a toda a largura e que, depois de ter navegado de Goa para Lisboa, se encontra enjaulado para deleite de soberanos: um jovem rei português, um velho rei de Espanha, um imperador alquimista, uma rainha bárbara.
Catherine Clément (born February 10, 1939) is a prominent French philosopher, novelist, feminist, and literary critic. She received a degree in philosophy from the prestigious Ecole Normale Supérieure, and studied under such luminaries as Claude Lévi-Strauss and Jacques Lacan, working in the fields of anthropology and psychoanalysis. A member of the school of French feminism, she has published books with writers Hélène Cixous and Julia Kristeva.
O livro tem uma premissa maravilhosa: o rei Sebastião de Portugal de fato não morreu, mas casou-se com uma muçulmana e viveu até os cem anos no Marrocos... Mas a história é contada por um rinoceronte, a reencarnação de um místico indiano, que acaba sendo morto e se torna apenas um cálice feito de chifre. Esse cálice acaba pertencendo ainda ao Filipe da Espanha, ao Rodolfo II e à Cristina da Suécia. É personagem demais, informação demais... Eu queria ter gostado mais do livro, porém sentia, às vezes, que a autora tinha pressa, só listava trocentas coisas e seguia adiante... Era meio como ler um resumo de um reinado na Wikipedia (mas quem conta os fatos é o cálice feito com o chifre de um rinoceronte que era na verdade a reencarnação de um místico indiano...). Se ela tivesse escrito só sobre Sebastião, ou só sobre Rodolfo II, ou só sobre Cristina, todos personagens interessantíssimos, talvez o livro tivesse funcionado bem melhor para mim.
Foram já alguns livros que li de Catherine Clément (A Viagem de Théo, A Senhora, Jesus na Fogueira) porque é uma escritora que aprecio. No entanto, creio que este livro foi aquele que menos me marcou, ou antes, aquele que eu não considerei tão bem construído como os outros.
Para começar, não achei muito bem conseguido o facto de
Não considerei que esta narrativa fosse um bom romance histórico como Clément já me habituou (especialmente com o livro sobre Gracia Nasi).Em todo o caso, é de salientar que este é um livro de fácil leitura e que, apesar de poder haver aqui ou ali uma ou outra incorrecção histórica (não consegui confirmar, mas creio que D.Pedro I nunca esteve sepultado nos Jerónimos, visto que ele próprio mandou colocar o seu túmulo, frente ao de Inês, no Mosteiro de Alcobaça, onde ainda hoje podem ser visitados) nos põe em contacto com figuras históricas dos séculos XVI e XVII que são interessantíssimas pelas suas personalidades (tais como Filipe II, Rodolfo II, o Maharal de Praga, a rainha Cristina da Suécia) e que a autora tão bem soube retratar. Não deixa de ser ainda curioso o facto de Catherine Clément fazer aparecer Camões como figurante. Gosto muito de encontrar estas personagens que todos nós conhecemos, mas sob o ponto de vista de uma estrangeira, a qual escreve sem "pré-conceitos" nacionalistas.
Um livro interessante que, mesmo não sendo aquele que mais me supreendeu nos últimos tempos, é de fácil leitura e com o qual se aprende qualquer coisa.
Gostei muito da primeira parte, que diz respeito ao possível destino de D. Sebastião depois de ser ferido em Alcácer Quibir, mas a segunda já não me entusiasmou tanto. Gostei da perspetiva do narrador, um rinoceronte.