Ilan Pappé - Dez Mitos Sobre Israel
«Em nome de Deus, que a Palestina seja deixada em paz»
O livro, Dez Mitos Sobre Israel, das Edições 70, está referenciado como um guia imprescindível e uma “iniciação” ao conflito israelo-palestiniano, mas é muito mais do que isso. É um ensaio em que Ilan Pappé, numa análise fluida e sem sobressaltos, desmonta a narrativa oficial da criação do Estado de Israel.
No léxico ocidental e sionista, o Estado de Israel é apresentado como a “pátria milenar” dos judeus, dos judeus que expulsos da sua “pátria” há mais de mil anos e a ela terem regressado, para já na nossa era a terem ocupado “pacificamente”. Reza ainda este “mito” oficial que antes de 1948 os judeus eram um povo sem território, de a palestina ser à época um território sem habitantes, território para onde regressaram contra todas as adversidades e, de como David num mundo de Golias, estarem rodeados de bárbaros e celerados que outro propósito não têm que não o da destruição de Israel. Israel, um oásis de democracia e civilidade cercado de selvajaria empenhada na sua aniquilação. E o seu povo, o povo eleito, com o “dever bíblico” de preparar a vinda do Messias, a do verdadeiro Messias.
Esta é a narrativa oficial do Estado de Israel, da pátria sionista, e, em parte, a narrativa “ocidental”. É a que diariamente preenche os noticiários e o comentário político e, invariavelmente, a do discurso oficial dos líderes ocidentais. É a narrativa do “politicamente correto”, a que alinha as convicções inculcadas no nosso superego.
A versão idílica de Israel, um oásis cercado por “desalmados”, era também a leitura que eu próprio fazia dos acontecimentos do médio oriente. Se há um par de anos tivesse de escolher “um dos lados”, era seguramente a versão israelita a que se me colava. Nem mesmo a leitura de autores que criticavam a bondade do Estado de Israel tinha abalado as minhas convicções. Contudo, já tinha tido um “clique”, uma abertura para uma realidade que intuía camuflada e dissonante da propalada pelos noticiários.
O meu afastamento dessa “versão” oficial da história de Israel creio que se iniciou com a leitura de “Palestina – Uma Biografia”, de Rashid Khalidi, sobrinho-neto do líder palestiniano, “Mayor” de Jerusalém, que nos finais do século XIX, em troca de correspondência com os líderes sionistas, os alertava para a crise demográfica e o risco de genocídio que resultaria de uma política de recolocação de judeus na palestina. «Em nome de Deus, que a Palestina seja deixada em paz», é desta forma que Yousef al-Khalidi, termina a carta enviada em 1899 a Theodore Herzl, onde explicava que a Palestina tinha população própria e advertia para os perigos que se aproximavam. Após a leitura deste livro, ninguém pode ficar indiferente.
Ainda que muitos vejam na geopolítica internacional um “complot” contra o ocidente, o que frequentemente é acertado, para se entender as causas é necessário recuar às origens. O actual conflito Israelo-palestiniano é claramente uma agressão contra os valores do ocidente, mas não foi assim que se iniciou. Posso não ser conhecedor de toda a história, mas quem se recusar a sair da sua zona de conforto e olhar apenas para os sintomas, tem seguramente uma visão enviesada do conflito. “Palestina – Uma Biografia”, um livro que desafio a ler antes de enveredar numa critica fácil e alinhada. Leia-o, vai ver que não morde!
Como referi, com a leitura deste livro, as convicções que tinha sobre a atitude de Israel ficaram irremediavelmente abaladas. Aqui chegado, e se alguma dúvida subsistisse, Ilan Pappé eliminou com factos, datas e numa análise objetiva da história dos últimos 150 anos, qualquer “crença” que ainda se me sobrasse da “bondade” de Israel.
A ocupação da Palestina pelos judeus, na primeira metade do século XX, assemelhou-se a uma acção “colonial de povoamento” do movimento sionista. Segundo o relato ocidental e israelita, esta ocupação é habitualmente descrita como pacífica e tranquila. Porém, como poderia ter sido pacifica ou tranquila quando milhares se viram expropriados dos seus bens, quando outros tantos foram arrancados do conforto no anonimato da noite e viram, num virar de página, a sua segurança esboroar-se como um castelo de areia em noite invernosa? Mães viram os filhos arrancados do aconchego, pais sentiram-se culpados por não garantirem a segurança aos seus, idosos olhavam perplexos para um cenário que nunca tinham imaginado, e as crianças, essas, choravam por as terem acordado para aquele pesadelo. A “Nakba”, a catástrofe, ocorrida em 1948, após a saída do exército britânico da Palestina e nos dias que se seguiram ao reconhecimento da independência do Estado de Israel, foi um período onde o “cataclismo” que se abateu sobre o povo palestiniano está na origem dos acontecimentos passados e os ocorridos a 07 de outubro de 2023. Quando António Guterres, Secretário das Nações Unidas disse que o ataque do Hamas não ocorreu num vácuo (expressão, curiosamente também utilizada por Ilan Pappé), tenta corrigir o que tem sido e é a narrativa oficial.
O primeiro mito desfeito por Ilan Pappé, é o da palestina ser uma terra deserta. Uma terra de ninguém. Não o era. Desde a ocupação Otomana em 1517, que a palestina era uma terra fértil, com uma economia agrícola significativa, uma terra povoada. Para quem lá vivia era uma geografia economicamente viável. E não era um território desértico. Em 1878 a palestina tinha quase meio milhão de habitantes que se distribuíam por 87% de muçulmanos, 10% de cristãos e 3% de judeus. Era uma comunidade predominantemente muçulmana, mas que tolerava a diversidade religiosa. À época, uma peregrinação à Terra Santa era um feito, uma grande jornada, mas em momento algum se sentia ameaça acrescida por se calcorrear “terras infiéis” – A Relíquia de Eça de Queirós e muitos outros assim a retratam.
Mas se era um território com um povoamento ajustado, por que se precipitaram políticos, nações, povos, em alterar o que era estável e assim deveria ter permanecido?
O Estado de Israel e o projecto sionista foi inicialmente um plano de raiz cristã. Alimentado pela reforma e contra-reforma, foi em particular uma proposta de sectores protestantes que profetizavam para o início do terceiro milénio uma nova vinda do Messias. Uma vinda que deveria ser preparada com o regresso dos judeus à “Judia”. Se de início este regresso foi um projecto protestante, rapidamente foi aproveitado por políticos ocidentais que à época preferiam ter uma Palestina judaica a uma outra mais muçulmana. O projecto sionista tem assim uma origem cristã, bíblica e só posteriormente foi transformado num projeto secular. O clima da deslocação maciça de judeus para a terra prometida iniciou-se como uma “cruzada discreta”.
Só nos finais do século XIX, e com os esforços de Theodore Herzl, é que a ideia de uma Palestina judaica começa a ganhar adeptos entre os judeus e se assume como um projecto secular. É por esta altura que Yousef al-Khalidi escreve aos líderes sionistas uma missiva que empresta a expressão que dá título ao presente texto.
Esta “colonização de povoamento” foi inicialmente assumida por judeus seculares, que no espírito do liberalismo e das ideias socialistas de então, apadrinharam a deslocação para a palestina de vários milhares de judeus oriundos do mundo anglófono (predominantemente o partido trabalhista) e do mundo marxista. Israel tem assim uma origem com um misto de socialismo e redenção religiosa alicerçada na segunda vinda do Messias. Esta origem explica a organização social israelita, que é muito semelhante à das organizações marxistas, enquanto as suas ligações bíblicas promovem um apego à terra e ao seu cultivo. Esta é a origem dos “Kibutz” e da sua organização social.
A criação do Estado de Israel surge em resposta a problemas religiosos, mas também de política externa e de geopolítica em oposição ao Império Otomano. Foi um processo que congregou interesses ocidentais e judaicos, mas que nunca olhou para os autóctones e populações indígenas como um obstáculo. E tudo resulta das decisões de então e de um projeto de “colonização” que passou a forma de letra no acordo de Sykes–Picot (1916) e na declaração de Balfour (1917). Esta é a origem do Estado de Israel, mas, para a história avulsa, a sua implementação surge como tendo resultado da perseguição dos judeus na europa nazi. E esta versão oficial é um mito que surge como chantagem emocional, um complexo de culpa que fez que durante décadas as populações autóctones tenham sido esquecidas. Surge como uma “indemnização” às vítimas do holocausto, um ressarcimento contado apenas pela “cereja no topo do bolo” sem nunca se mencionar que o território não estava devoluto.
Todo o resto ocorre com o fim do mandato britânico. Após 14 de maio de 1948, David Ben Gurion e o novo poder instalado usam a força como modo de ocupar o território e transformar o que décadas antes era uma população minoritária, no novo Estado de Israel, um Estado maioritariamente judaico e sionista. Só que para acolher todos os recém-chegados era necessário “acondicioná-los”. E o governo Israelita nunca se poupou a esforços. É neste contexto que ocorreu o massacre de Deir Yassin e a “Nakba”, uma catástrofe que resultou à altura no maior movimento de desalojados após a IIGM. Houve expropriações, nacionalizações, deslocações e outras atitudes de maior músculo sempre que estas iniciativas encontravam alguma resistência.
Após a “Nakba”, a narrativa oficial passou a acomodar o princípio de dois estados, o retorno dos desalojados “às suas casas e propriedades” e a devolução dos territórios ocupados após 1948. Esta era a posição oficial, mas na prática funcionou apenas como propaganda. A realidade era bem diferente. Enquanto perante a opinião internacional as entidades oficiais israelitas se mostravam condescendentes com as aspirações palestinianas, na prática tudo faziam para inviabilizar o discurso oficial, ora limitando as opções dos palestinianos, ora procrastinando os compromissos que publicamente se assumiam. Uma política de duas faces e de dissimulação das verdadeiras intenções.
Ilan Pappé dá-nos vários exemplos desta dissimulação e hipocrisia. O mais relevante parece-me ser o do território da margem ocidental do rio Jordão. As autoridades israelitas pretendiam que este território, a Cisjordânia, fosse integrado na Jordânia. Contudo, a transferência de soberania nunca ocorreu e só posteriormente, nos acordos de Oslo é que este território foi reconhecido por Israel como integrado no Estado Palestiniano. Porém, o conceito de soberania era parco e estava limitado a aspectos fiscais e outros de gestão corrente como educação e saúde. Um exército, meios de defesa e segurança interna, liberdade para as posições internacionais eram “liberalidades” sempre recusadas aos líderes palestinianos. Para além deste logro, há ainda a somar a autorização constante de novos colonatos – Kibutz – na Cisjordânia. Quem atualmente olhar para o mapa da região vai ficar impressionado com a quantidade de “ilhas” e espaços ocupados por colonos israelitas. Uma falácia!
O outro território, a faixa de Gaza, é uma prisão a céu aberto. Inicialmente Gaza era governada por elementos da Autoridade Palestiniana num governo secular. Com a morte de Arafat, a multiplicação de casos de corrupção, e os acordos de Oslo, vistos pelos palestinianos como uma traição, as populações viraram-se para quem lhes deu esperança e empoderaram um movimento religioso. Se os israelitas se reclamavam do direito de ocupar aquele território, bramindo o “Velho Testamento”, agora os palestinianos iam também erguer o seu “Livro Sagrado” e de acordo com uma interpretação teocrática iam combater o inimigo sionista. Estava lançado o mote para as intifadas e os acontecimentos de 07 de outubro.
No que respeita à pressão de novos colonatos, a faixa de Gaza sofria inicialmente da mesma pressão da observada na Cisjordânia. Esta política de colonização, cessou em 2004, quando Ariel Sharon anunciou a retirada dos colonatos israelitas da faixa de Gaza. A comunidade internacional viu este gesto como um passo para a aceitação do princípio de dois Estados. Este gesto de “boa vontade” podia contudo ter outra interpretação e, eventualmente, outras intenções. Premeditada ou não, a retirada dos colonos de Gaza serviu para construir uma prisão a céu aberto, um espaço controlado do exterior e assim sufocado economicamente. Era o cenário ideal para um genocídio. Foi premonitório.
A pressão israelita em Gaza e o reduzido crédito que as populações davam à OLP e à sua fação da Al-Fatah, este em resultado do acordo de Oslo e os inúmeros casos de corrupção, foram agravos que fizeram deslocar o sentido popular para um movimento religioso, uma esperança de combater o “livro com o livro”. O Hamas fundado por Ahmed Yassin, um movimento sunita com raízes na irmandade muçulmana Egípcia, cavalgou esta oportunidade e assumiu o poder. Ganhou nas urnas e não há qualquer evidência que sugira que tenha perdido esse apoio.
Outro aspecto que frequentemente é relatado com contornos míticos é a forma como a narrativa oficial relata os conflitos que Israel travou com os seus países vizinhos. Ao contrário da descrição oficial israelita e ocidental, as guerras dos “Seis Dias” e a do “Yom Kippur” foram acontecimentos previstos. Previstos não no sentido de se saber pormenores, mas sabia-se que, quando se limitasse a circulação, o abastecimento de água, ou houvesse qualquer iniciativa que colocasse em risco as necessidades básicas dos países vizinhos, estes iram reagir. As reacções estavam previstas e se foram provocadas é porque de alguma forma seriam úteis. E foram! Sempre que houve um ataque de países vizinhos, ou quando os habitantes dos guetos palestinianos recorreram a actos violentos ou interpretados como potencialmente agressivos, a resposta israelita foi sempre avassaladora e terminou num aumento de território, expansão de colonatos e redução da população palestiniana. Fazendo fé nos boatos que circulam e nos antecedentes, é bem provável que Israel tivesse uma previsão, ainda que aproximada, do que ocorreu em 07 de Outubro. Só que este provocou cerca de 1200 mortos e um número indeterminado, mas seguramente superior a 200, de sequestrados. Foi uma carnificina, uma catástrofe, mas rapidamente foi aproveitada para acelerar o “extermínio possível” da população de Gaza.
Em Gaza todos são terroristas. Nisso concordamos. A discordância vem apenas da análise das causas que lhes estão subjacentes. Os palestinianos, apoiam-se em convicções religiosas para combaterem um inimigo que tem nome de David mas comportamento de Golias. Porém as atrocidades que os palestinianos cometeram e cometem, e que as cometeram não tenho dúvidas, não legitima a chacina a que assistimos diariamente.
Ilan Pappé termina o seu livro abordando a ideia corrente de no futuro a Palestina poder ser um território com dois Estados. Um mito que o autor descreve como uma falácia. E tem razão! Basta consultar um mapa para se entender que desde 1948, Israel passou de uma ocupação de menos de 5% para mais de 90% antes de 07 de Outubro de 2023. Mesmo que os palestinianos mantenham o seu actual território, que Estado vão ter? Que soberania lhe vai ser permitida? Como vai ser possível fazer de uma Cisjordânia retalhada entre colonatos e muros, um Estado? Como construir um Estado num território tão “esburacado”? Funciona para queijos, não funciona para Estados!
É óbvio que a solução de dois Estados nunca vai funcionar. Israel nunca vai permitir um Estado Palestiniano soberano e os palestinianos nunca irão aceitar “as migalhas” oferecidas. Também não parece possível que a história retroceda um século. Isso nunca acontece.
Aqui chegados, só uma de três soluções é possível. Ou tudo acaba no extermínio de uma das partes, dos palestinianos mais provavelmente, ou ambas as partes aceitam um Estado laico onde a religião é assunto do íntimo de cada um e onde todos têm os mesmos direitos, deveres e dignidade. A terceira é a do perpetuar do actual estado de coisas.
«Em nome de Deus, que a Palestina seja deixada em paz», foi um pedido que, feito há mais de século, é aos dias de hoje a única atitude cristã possível.