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“Insisto que morri, ele nega. Pergunto se o mundo acabou, ele diz que não sabe de nada. Mundo?, pergunta, sem esconder o ar sardônico. Quando repito que morri, desta vez como pergunta, o caolho jura que nunca saí do lugar. De qual Fedora estou falando, ele pergunta e desconverso. Na memória de minha vida as pontas nunca se amarram. Não possuo narrativa, apenas lampejos de imagens, odores, sensações. Raciocínios superpostos. Lembranças que não poderiam ter sido. Mas se não havia ninguém para morrer, se não existia mundo para acabar, não sei o quue faço por aqui. O caolho me diz que não existem mundos, apenas os sonhos de um mundo. Falácia. Recuso-me a admitir que sou um espectro vagando por um sonho que finge estar desperto. Ele ri de meu apego pelo fim das cousas, dizendo que nada começa. Que só existe enquanto. Como pode saber? De onde tira tanta certeza? Se, como afirma, ele não é Deus e nem a imagem que tenho de Deus, quem seria? Um servo competente, responde o caolho. Só preciso saber se existo: sim ou não. Ele ri do meu ou e responde com seu e. Se algo existe, ele diz, é sempre um talvez. Não aceito, e ele responde que tudo que faço é apontar para meu próprio umbigo, cavocá-lo com o dedo em riste. Renuncie, sugere. Digo que ele está se refugiando na negação. Ele repete que falou em talvez. Imploro as regras do jogo, ele me dispensa afirmando que um jogo só existe se houver jogadores. Completa que posso jogar, desde que saiba estar jogando; para isso, segundo o caolho, não se precisa de regras. Se eu pedir uma solução para o enigma, ele dirá que não existe enigma. Sim, é um jogo, e é simples de entender. Simplório, até. Apesar disso, não enxergo saída. Posso não estar aqui, mas continuo prisioneira. Digo que não mereço, ele responde que ninguém merece. Tento escapar de seu sofisma, e ele completa que as cousas são e ponto. Aceite que não há merecimento, diz o caolho, apenas uma vasta rede de interconexões aleatórias. E quando pergunto se é apenas isso que somos, vítimas das circunstâncias, ele diz: não existem circunstâncias.”
― Dedo Negro com Unha
― Dedo Negro com Unha
“Eu teria voltado para casa, se soubesse onde ficava. Mas como eu não tinha mais certeza sobre coisa nenhuma, resolvi ficar parado no mesmo lugar para ver se minha casa acabava me encontrando.”
― Digam a Satã que o Recado Foi Entendido
― Digam a Satã que o Recado Foi Entendido





