Goodreads helps you follow your favorite authors. Be the first to learn about new releases!
Start by following Rogério Gomes.
Showing 1-2 of 2
“Quase nada acontece neste lugar, como se tivéssemos sido esquecidos e entregues à moléstia. Se eu tivesse aqui o meu laptop, quando o desligasse nem aparecia aquela frase do «a guardar actualizações recentes».”
―
―
“Chovia copiosamente quando o palhaço se deteve no início da zebra. Pouco habituado a que parassem, dava um passo de cada vez, alternando entre o branco e o negro com os dois enormes sapatos vermelhos abatatados, escondido pelo guarda-chuva verde gigante que mais parecia um chapéu de praia. Mas o carro fez sinal de luzes quatro vezes, enquanto fumegava dos faróis e batia o pára-brisas como um par de asas despidas. Insistiu parado que tinha tempo e continuou a acenar na direcção dos ramos de árvore reflectidos no vidro, para que o palhaço avançasse à vontade sem hesitar. Uma rapariga altíssima vestida de negro, de tez de oiro e cabelos em chamas, acercou-se da passadeira no lado oposto da rua, junto a uma carrinha branca onde um homem arredondado descarregava caixas de madeira. Ela pode ter sorrido, ou piscado o olho levemente, quem sabe soprou um beijo na direcção do condutor, que a seguiu com os olhos todos, a cabeça virada, o corpo erguido do assento, e o pé caiu tenso num pedal qualquer, sem ver a frente, sem sentir o balanço, a explosão do motor. Talvez guiado pela expressão grave que sobre ela se abateu, guinou o carro para a direita em último recurso, sem saber em que pedal carregou a fundo com os dois pés, enquanto o ocupante da zebra virava o chapéu verde para baixo, como se este fosse um escudo de ferro maciço. Assustado, o comerciante largou uma das caixas que carregava e fez rebolar diversas dúzias de laranjas pela estrada, em todas as direcções, como um bando de pássaros que ouve um tiro.Caprichosa, uma das peças de fruta desviou-se de uma poça demasiado funda e foi aninhar-se sorrateira debaixo do pé de apoio do homem. Incapaz de a chutar para canto, sem mãos livres para se agarrar, estatelou-se no chão molhado. Em aquaplaning e a patinar aos rodopios como uma ventoinha de tecto, o utilitário urbano metalizado de cinco portas passou por cima de ambas as pernas do palhaço, seguiu a fazer sumo de laranja aguado, para finalmente se deter num candeeiro grosso que piscou duas vezes e fundiu, antes de rasgar o toldo da mercearia, a caminho do comerciante inerte no alcatrão.”
― o moralista
― o moralista





