B. Furtado's Blog: Vislumbres: Fragmentos e Narrativas
October 21, 2024
As Bruxas da Rua Passa Quatro
Auxiliadora
Auxiliadora quase tropeçou. Olhou para baixo, ajustou o passo, continuou na calçada, olhando para trás e para a frente, enquanto os cabelos iam e vinham na medida que o pescoço acompanhava os olhos atentos. Ela ia na frente, atrás de si, viu três grupos de pessoas. Um casal de mãos dadas e uma filha ao lado andavam como se no parque estivessem. Atrás da família, uma tempestade escura, impulsionada por ventos que faziam levantar as folhas e balançar as árvores, se aproximava rapidamente. À esquerda, duas moças, a princípio desconhecidas, viravam-se para trás olhando para o escuro, ao mesmo tempo que olhavam para a frente com bocas abertas, olhos arregalados de pavor distribuído pelos rostos e mãos. Ao centro, olhando somente para a frente, ia uma senhora baixa, resoluta, de vestido cinza escuro e cabelos soltos ao vento. Ela parecia delimitar a tempestade da calmaria. Carregava ainda um leve sorriso na boca com os dentes ligeiramente entreabertos.
Auxiliadora deu mais alguns passos e se apoiou na parede da casa, da sua casa. O joelho ruim falhou e ela foi ao chão, sentando-se com as costas para a parede. Já não podia mais. Conseguiu dobrar as pernas, apoiou ambos os braços nos joelhos e voltou a olhar para a senhora resoluta, com um ar de medo e de esperança. Mas nada havia. Lá, a senhora já não estava mais.
A rua encontrava-se agora vazia de pessoas, cães ou barulhos. A rua parecia pintada de cinza. Nenhuma folha se movia. Até os insetos, as cigarras e as formigas, haviam todos abandonado a rua para uma calma infinita. Da esquerda, à direita, só restavam as casas, uma do lado da outra, impávidas. Algumas com pequenos muros à meia altura e portões de ferro. Jardins com capins cinzas não balançavam. Nenhum passarinho cantava, nem um carro passava. A venda estava com as portas cerradas e o poste da esquina permanecia sem homens fumando à volta, ou cachorros cheirando seus cantos.
Auxiliadora não entendia mais nada. Onde estava ou o que fazia. Piscava e piscava e piscava. Tentava de forma consciente imprimir sentido ao que via, ao que sentia, ao silêncio que permanecia. Angustiou-se um pouco mais, Auxiliadora. Piscou outras tantas vezes.
Aos pouquinhos, Auxiliadora notou que os capins estavam agora verdes. O céu por detrás das casas se tornava azul, com leves tons de amarelo e laranja de fim de tarde. Olhando para a esquerda, Auxiliadora não viu sinal algum de chuva. À direita, a senhora resoluta tinha sumido. Na esquina, três homens fumavam normalmente, enquanto duas crianças de vestidos coloridos saíram rindo alto da venda segurando dois sacos que pareciam pesados para seu tamanho. Um cachorro latiu alto a poucos metros, assustando a Auxiliadora que olhou para ele. Era o Maluf que permanecia esparramado no chão, a despeito do latido alto e ruidoso.
Auxiliadora virou-se para o lado e descobriu-se na sua própria cama. No seu quarto de toda uma vida. Com os mesmos pequenos buracos na cortina que deixavam, àquela hora da manhã, os mesmos raios de sol passarem, todos os dias. Também os sons e os cheiros eram os mesmos: lá de fora, os animais, da cozinha, o café. Ainda ficou ali vários minutos inerte. Deitada olhava para o teto, mas nada via. Nada.
Auxiliadora quase tropeçou. Olhou para baixo, ajustou o passo, continuou na calçada, olhando para trás e para a frente, enquanto os cabelos iam e vinham na medida que o pescoço acompanhava os olhos atentos. Ela ia na frente, atrás de si, viu três grupos de pessoas. Um casal de mãos dadas e uma filha ao lado andavam como se no parque estivessem. Atrás da família, uma tempestade escura, impulsionada por ventos que faziam levantar as folhas e balançar as árvores, se aproximava rapidamente. À esquerda, duas moças, a princípio desconhecidas, viravam-se para trás olhando para o escuro, ao mesmo tempo que olhavam para a frente com bocas abertas, olhos arregalados de pavor distribuído pelos rostos e mãos. Ao centro, olhando somente para a frente, ia uma senhora baixa, resoluta, de vestido cinza escuro e cabelos soltos ao vento. Ela parecia delimitar a tempestade da calmaria. Carregava ainda um leve sorriso na boca com os dentes ligeiramente entreabertos.
Auxiliadora deu mais alguns passos e se apoiou na parede da casa, da sua casa. O joelho ruim falhou e ela foi ao chão, sentando-se com as costas para a parede. Já não podia mais. Conseguiu dobrar as pernas, apoiou ambos os braços nos joelhos e voltou a olhar para a senhora resoluta, com um ar de medo e de esperança. Mas nada havia. Lá, a senhora já não estava mais.
A rua encontrava-se agora vazia de pessoas, cães ou barulhos. A rua parecia pintada de cinza. Nenhuma folha se movia. Até os insetos, as cigarras e as formigas, haviam todos abandonado a rua para uma calma infinita. Da esquerda, à direita, só restavam as casas, uma do lado da outra, impávidas. Algumas com pequenos muros à meia altura e portões de ferro. Jardins com capins cinzas não balançavam. Nenhum passarinho cantava, nem um carro passava. A venda estava com as portas cerradas e o poste da esquina permanecia sem homens fumando à volta, ou cachorros cheirando seus cantos.
Auxiliadora não entendia mais nada. Onde estava ou o que fazia. Piscava e piscava e piscava. Tentava de forma consciente imprimir sentido ao que via, ao que sentia, ao silêncio que permanecia. Angustiou-se um pouco mais, Auxiliadora. Piscou outras tantas vezes.
Aos pouquinhos, Auxiliadora notou que os capins estavam agora verdes. O céu por detrás das casas se tornava azul, com leves tons de amarelo e laranja de fim de tarde. Olhando para a esquerda, Auxiliadora não viu sinal algum de chuva. À direita, a senhora resoluta tinha sumido. Na esquina, três homens fumavam normalmente, enquanto duas crianças de vestidos coloridos saíram rindo alto da venda segurando dois sacos que pareciam pesados para seu tamanho. Um cachorro latiu alto a poucos metros, assustando a Auxiliadora que olhou para ele. Era o Maluf que permanecia esparramado no chão, a despeito do latido alto e ruidoso.
Auxiliadora virou-se para o lado e descobriu-se na sua própria cama. No seu quarto de toda uma vida. Com os mesmos pequenos buracos na cortina que deixavam, àquela hora da manhã, os mesmos raios de sol passarem, todos os dias. Também os sons e os cheiros eram os mesmos: lá de fora, os animais, da cozinha, o café. Ainda ficou ali vários minutos inerte. Deitada olhava para o teto, mas nada via. Nada.
Published on October 21, 2024 13:54
Vislumbres: Fragmentos e Narrativas
Este espaço é dedicado ao processo criativo, onde compartilho trechos de capítulos e contos que ainda estão por vir. São palavras em construção, histórias que ganham vida aos poucos.
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Se você ainda não leu Linger no Longer: the runner helper, disponível aqui, e se gostar desses fragmentos, pode encontrar uma história completa à sua espera. ...more
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