Cativeiro (Guião)

 (O filme começa com a imagem de umhomem a sintonizar um rádio, pousado em cima de um móvel, em que se começa aouvir a voz de uma locutora a dar as notícias. Ele afasta-se e a imagem começa,lentamente, a afastar.)

Carolina (voz) – Boa tarde!Continua desaparecida a jovem estudante de 17 anos, Bárbara Ribeiro, que foivista pela última vez numa localidade perto de Porto de Mós. As autoridadescontinuam as buscas, mas o Comandante da operação já veio dizer, num comunicadoà imprensa, que será muito difícil encontrar a jovem ainda com vida.

(A imagem vai-se afastando do rádioe movendo pela sala, até encontrar o Guilherme de costas, a preparar comidanuma tigela em cima de uma mesa. Ele move-se em direcção a uma cadeira, nafrente da qual está Alice, amarrada e amordaçada. Ele senta-se e arranca amordaça à Alice.)

Guilherme – Já viste?Estão a falar de ti na rádio. Os teus pais devem estar orgulhosos com toda estanotoriedade que estás a ter agora, e tudo graças a mim! Não falas? O gatocomeu-te a língua, foi?

(Alice faz um ar meio entre ochateado e o assustado, olhando-o com a cabeça baixa.)

Guilherme – Depoisadmira-te! (pega numa colher de comida) Vá, toma!

(Alice resiste um pouco, Guilhermedá-lhe uma bofetada e enfia-lhe a comida na boca à força.)

Guilherme (continuando a dar-lhea comida à boca) – Tu tens noção que só estás a tornar isto maisdifícil para ti, certo? Para mim, é-me indiferente se tenho de te bater ou não!

(Alice volta a olhá-lo comdesprezo, enquanto mastiga a comida contrariada. Guilherme pega num pano quetem no colo e limpa-lhe a boca.)

Guilherme – Tens deestar bem apresentável para ir ao baile, não é? (levanta-se para ir pousar atigela)

Alice (a medo) – Hum… desculpea minha curiosidade, mas eu ainda não sei o seu nome.

Guilherme – Para que éque queres saber isso?

Alice – Para nada…é só que, como vamos passar tanto tempo juntos, gostava de saber como é quevocê se chama…

Guilherme – Bom, achoque não tem mal se eu te disser. Afinal, não vais sair daqui, não é? (ri-semaniacamente) Chamo-me Caim, tal como o que matou Abel.

Alice – É um bonitonome, Caim!

Guilherme – Não me fazdiferença. Afinal, os nomes só servem para distinguir as pessoas umas dasoutras, já que nós somos péssimos a memorizar coisas se não lhes associarmosuma palavra. Os seres-humanos são produtos incompletos e absurdamenteimperfeitos, para coisas criadas por um ser Todo-Poderoso.

Alice – Sim, claroque sim. Mas Caim, conta-me mais sobre ti. Tens pais?

Guilherme – Para que éque queres saber sobre os meus pais?

Alice – Para teconhecer melhor.

Guilherme – Os meuspais morreram como cães num acidente automóvel, quando eu tinha 4 anos.

Alice – Desculpa!Os meus pêsames.

Guilherme – Pêsamespara quê? Para te sentires melhor com a tua consciência? Pessoas nascem emorrem todos os dias, eles não foram excepção. Porque é que haveriam de sermais importantes que o resto? Porque me fizeram? São só menos doisinsignificantes seres a produzir CO2!

(Alice fica meio incomodada com aresposta, mas tenta-se recompor.)

Alice – Hum… E tensmais família?

Guilherme – A minha avóera uma submissa, o meu avô era um bêbado que lhe batia, nunca conheci os meusavós maternos e também não me faz diferença nenhuma. Tinha um irmão, mas morreude tuberculose quando tinha 2 meses. A única pessoa que ainda está viva é airmã do meu pai, que tem 84 anos e vive num lar. Interessa-te, toda esta informação?

Alice – Então estáscompletamente sozinho no Mundo, neste momento.

Guilherme – Sozinho?Alguma vez estamos acompanhados, sequer? E será isso desejável? Pessoas sãoapenas peso-morto, ainda estão melhor é mortas, que pelo menos fazem jus aotermo.

Alice – Diz-me: épor te sentires solitário que me raptaste? Para teres alguém por companhia?

Guilherme – Tu, porcompanhia? Que parte de não ser desejável relacionarmo-nos com pessoas é quenão compreendeste?! E quê, achas que te raptei para fazeres dedama-de-companhia, foi? Achas que eu me importo contigo? Achas que tu ésrelevante, sua cabra? Então era para isto que querias saber sobre a minha vida,hein?

Alice – Não, nãoera nada disso!

Guilherme – Era para metentares apanhar num momento de fraqueza? Então fica sabendo: eu não tenhomomentos de fraqueza, todo eu sou indiferença perante o Mundo! Sabes para que éque eu te quero aqui? Para te torturar, matar, e livrar-me do teu corpo nummato qualquer longe daqui, como fiz com as 16 raparigas que aqui estiveramantes de ti. Já não te sentes tão especial agora, pois não?

(A Alice engole em seco, com um arde medo, inclinando-se o mais que pode na sua cadeira. Ganha coragem parafalar.)

Alice – O que é quetu ganhas com isso, hein? Tu és uma pessoa doente, um completo lunático!

Guilherme – Achas queeu sou lunático, é?

(Guilherme levanta-se, calmamente,e vai buscar uma faca ao balcão da cozinha. Alice fica cheia de medo. Guilhermeaproxima-se dela e, com a mesma calma, procede ao corte da palma da sua própriamão, de forma lenta e profunda.)

Guilherme – E então?Continuas a achar que sou louco?

(Com calma, Guilherme vira-se,pousa a faca no balcão, e pega num trapo com que começa a enrolar a mão.)

Alice – Tu sabesque a polícia me vai encontrar e que vais ser preso, não sabes?

Guilherme – Isso era oque me diziam todas, e sabes onde é que elas estão agora? Pois!

Alice – Os meuspais nunca vão desistir de me procurar! Eles amam-me! Eles nunca meabandonariam!

(Guilherme dirige-se lentamente aorádio. Sintoniza-o outra vez, até se apanhar as notícias de novo.)

Carolina (voz) – Os pais dajovem desaparecida fizeram declarações à imprensa, esta tarde.

Ema (voz) – Por maisque nos tenha custado, tendo em conta o estado da investigação e a baixaprobabilidade de a nossa filha ser encontrada, achamos que a coisa mais sensataa fazer era assumir que não tornaremos a ver a nossa Bárbara, pelo que pedimosao comandante da PJ que fossem encerradas as buscas.

(Guilherme desliga o rádio e olhapara Alice com um ar de espanto.)

Guilherme – Quecoincidência, hein? Era a tua mamã? Não me parece que esteja muito preocupadaem encontrar-te, afinal!

(O semblante de Alice fica triste.)

Alice – Parece queestamos os dois sozinhos, neste Mundo…

Guilherme – Mas não pormuito tempo…

(Guilherme aproxima-se de Alice coma faca na mão. Coloca-se atrás da cadeira dela, e ajoelha-se, de modo a ficarao nível dela. Começa a passar-lhe a faca no rosto.)

Guilherme – Bárbara,Bárbara… Não é normal, mas até me estou a afeiçoar a ti, rapariga… Sabes quemais? Vou-te deixar decidir a forma como vais morrer!

(Passa-lhe a faca com rapidez nacara, fazendo-lhe um pequeno corte. Passa rapidamente para a frente dela.)

Guilherme – Desculpa,aleijei-te? Coitada!

(Alice olha-o com raiva no rosto.Guilherme aproxima a sua cara da cara dela.)

Guilherme – Na prisão,ninguém te pede desculpa! Prefiro que isto funcione como a prisão, OK?

(Alice dá-lhe uma cabeçada.Guilherme deita a mão à cabeça, com raiva.)

Guilherme – Sua grandevaca!

(Guilherme levanta-se, vai buscaruma bacia com água e pousa-a à frente de Alice. Desaperta as cordas que amantêm presa à cadeira, ficando ainda com mãos e pés atadas. Agarra-lhe oscabelos, coloca-a de joelhos à força, e enfia-lhe a cabeça na bacia com água.)

Guilherme – Tu nuncamais me voltas a fazer uma coisa destas, estás a ouvir?! NUNCA MAIS! Sua pitamimada! Eu devia-te matar aqui e agora! Mas não, vou-te poupar. Tenho uma ideiamelhor!

(Retira-lhe a cabeça da água. Elarecupera o fôlego. Fala-lhe perto da cara.)

Guilherme – Nunca maisme fazes isto! Ouviste?!

(Alice acena que sim com a cabeça.)

Guilherme – OUVISTE?!

Alice – Sim, sim!

Guilherme – Ainda bem!

(Torna a levantá-la, pelos cabelos,e senta-a na cadeira. De seguida, senta-se na cadeira dele.)

Guilherme – Diz-me umacoisa: porque é que eu haveria de ter vontade de te poupar, agora? Tu é quefizeste por isto!

Alice – Por favor,não me faça mal! Eu prometo que não conto nada a ninguém, se me libertar!

Guilherme – Blá! Blá!Blá! Tudo tretas! Prometes que não dizes nada a ninguém, mas mal te vês livre,vais logo fazer queixa à polícia! Eu conheço esse truque! Mas, por acaso, tensrazão numa coisa: eu não te torno a fazer mal. E sabes porquê? Porque vais sertu a tratar do assunto!

(Guilherme levanta-se e começa adesapertar as cordas que prendem os pés e as mãos de Alice.)

Alice – Como assim?O que é que me vai fazer?

(Guilherme volta ao seu lugar.)

Guilherme – Eu não tevou fazer nada. (pega na faca, que está no chão) Tu vais!

Alice – Não estou aperceber…

Guilherme – Eu queroque tu te esfaqueies a ti própria, até onde for possível. Quero-te ver a sofreraté ao teu último suspiro!

(Guilherme dá a faca à Alice, que arecebe com medo. Ambos de pé, a imagem vai alternando entre ele, com um ardoentio, e ela, assustada, com a faca na mão. Começa a aproximá-la ligeiramenteda sua barriga. De repente, sem que nada o faça esperar, dá um pontapé nobaixo-ventre de Guilherme, o que o faz cair ao chão a gemer de dor. Alice dáoutro pontapé junto à cabeça dele, ficando este completamente deitado no chão.Pega na faca e começa a esfaqueá-lo na barriga, repetidas vezes.)

Alice – Morre, seupsicopata doente! Não tornas a fazer mal a ninguém!

(Quando Alice pára, a câmara focana cara de Guilherme, que sorri, com a boca cheia de sangue, morrendo depois.Alice levanta-se, olha em volta e dirige-se à porta. Sai, olha uma última vezpara trás e fecha a porta. Corta para preto. Fim!)



 •  0 comments  •  flag
Share on Twitter
Published on October 31, 2026 07:13
No comments have been added yet.