Herberto volta a Minas

A última vez que estive aqui, era Inverno como agora, no Hemisfério Sul, Herberto Helder estava vivo e acabava de publicar Servidões. Li-o nesta varanda voltada para uma montanha chamada Pedra do Papagaio. Por isso, ao lugar cá em baixo as pessoas chamam A Pedra. Não é sequer aldeia: uma casa aqui, outra ali. Da minha varanda, por exemplo, não vejo nenhuma casa, só montanha para onde quer que volte a cabeça. Tenho de fazer uma caminhada se quiser chegar aos vizinhos, e os de mais perto não moram aqui todo o ano. O sol nasce às seis e meia, põe-se às cinco e meia, a partir daí é de tremer. Segundo a metereologia, hoje ia ser o único dia de sol completo, então trouxe os Poemas Canhotos até à varanda, para enfim os ler. Na presença de luz as plantas libertam oxigénio. Fotossíntese.

 



Quase uma jangada, a varanda, toda em tábua corrida, um tronco a fazer de varandim, cobertura de telha-vã, e como os lados são abertos, e há muitas janelas para dentro, a luz atravessa a casa. Difícil é chegar à mão que escreve, sempre cega, em volta, como os insectos que de noite batem nas lâmpadas.

 



¿que interessa fazer a barba se é tudo para cremar?, pergunta um dos poemas canhotos, com aquela dupla interrogação dos espanhóis que Herberto faz sua porque sim, como uma rosa é uma rosa é uma rosa. Também está no livro, essa tripla, penta, múltipla rosa lida há tanto, e por vezes a exclamação também é dupla, só ele sabe quando. Gosto da pontuação canibal de Herberto, dos travessões dentro de travessões, dos dois pontos em série, uma frase encadeando outra (no mesmo verso quebrado: / boca: / e a fome que a devorava). Em guarda urubus, que os prontuários são o começo e não o fim, e as cinzas de quem não serviu senhor espalham-se por toda a parte.

 



Herberto gostava de números. Este único dia de sol é 23 de Junho, exactamente três meses depois da sua morte. Quer dizer que o equinócio de Inverno foi anteontem, o dia mais curto do Hemisfério Sul. Na minha bússola, o Norte está exactamente à frente do livro que tenho aberto no colo. Não me aparecem as coordenadas. Sem serviço, diz o canto do telefone. A Pedra é um bom lugar para espalhar cinzas.

 



Então será isso, vim espalhar cinzas de frente para o sol, antes que caia do outro lado. Ontem contaram-me que um feiticeiro curou os olhos de um rapaz dizendo-lhe para olhar o sol. Isto aconteceu um dia em África e chegou-me ontem aqui, à semelhança da cinza que passa a ser de toda a parte.

 



Espalho o livro em iorubá: atotô, montanha, atotô, rés das águas, atotô, amador, atotô, coisa amada, essa que se torna poderosa na dor do amador. Sim, a meus pés corre um rio, ouço-o de noite e de dia, é o meu gerador natural, quando a varanda se soltar, encosta abaixo, será enfim uma jangada: atotô, rio da Pedra. Se os mortos respondem em wolof, como Michaux escreveu, e Herberto mudou para português, também podem responder em iorubá. Estou no interior de Minas Gerais, escavando muito vou achar ossos de iorubás, aqueles que os portugueses roubaram de África, tornaram escravos. E uma coisa que fiz desde a última vez que o li, Herberto Helder, foi aprender a escavar ossos.

 



Sabe que no Brasil muito se diz agora Inês é morta? Vejo que a desenterrou de novo antes de morrer, para, boca do rei na boca da rainha, de sôpro e hausto fundidas, chegar a isto:

 


revelação é o crime


do lenço atado em si mesmo


uns lhe chamam casamento


 



E, numa sequência em que aparecem Salman Rushdie, Poemas Satânicos, caricaturas e ayatolas, vejo, não que lia jornais, do horóscopo aos classificados, porque até os classificados já estavam no poema contínuo, e sim que o seu Deus derradeiro é em maiúscula e mortal, tão mortal que a seguir aparece a dizer olá colega! ao mais recente candidato a Rimbaud. Quanto a Rimbaud, o da gangrena, o da amputação, atravessa todo o arco dos seus poemas ao longo de meio século como o mau sangue que sobreviverá a tudo, Deus e os que querem entrar no filme depressa depressa o mais depressa possível. Deus, pátria, família, amigos: nada. Os poemas canhotos são ímpios, antropófagos, incestuosos, até ao último desafio: que me ajudem a morrer os que têm alegria.

 



O lance final diz:

 


estes poemas que avançam


no meio da escurdião


até não serem mais nada


que lápis papel e mão


e esta tremenda atenção


este nada


uma cegueira que apaga


a luz por trás de outra mão


tudo o que acende e me apaga


alumiação de mais nada


que a mão parada


alumiação então


de que esta mão me conduz


por descaminhos de luz


ao centro da escuridão


que é fácil a rima em ão


difícil é ver se a luz


rima ou não rima com a mão


 



Caído o sol, há que voltar para dentro. Véspera de São João, haveria fogueira se fosse sábado, mas é terça, e a lua não chega para tanta noite, tal como ninguém vai chegar. Tenho os meus mortos e portanto estou viva, atotô, montanha, atotô, rés das águas, atotô, dor que o amor transporta. Talvez Herberto responda em iorubá.

 


 


(Público, 7-7-2015)

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Published on July 10, 2015 16:09
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Alexandra Lucas Coelho
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