Paula Fabrio Quotes

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“Viajar é uma forma de sonhar. Também um modo de fugir. Um velho truque para ser outro. Ou na verdade, para ser você mesmo. Quando foi a última vez que fui eu mesma?”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“E assim desembarcaríamos em Madri, na hora gélida. Madrugadas de primavera teimam em nos avisar, calma lá, isso aqui não é o Brasil, isso aqui é cortante, e escuro e sombrio.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Na mesa, uma estação telefônica cibernética, um computador ligado à nuvem de prazos e agendas, e por todo lado fotos de paisagens que ela só vê no seu único mês de vida por ano. Nessa pequena jaula de conforto, Virginia baixa os olhos e se automatiza. Se tivesse possibilidade, ou coragem ou mais ímpeto, Virginia teria sido fotógrafa, ou veterinária ou psicóloga. [...] Por ora, o que importa mesmo é falar da viagem, do único mês do ano em que Virginia se põe viva. Os outros onze meses equivalem à austeridade de Itaquera.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Apartadas ao pé da pia, as mulheres como que expulsas de si, cortando tomates e celebrando o dom de estarem casadas. Mas uma linha imaginária sempre as separou de seus homens, afinal de contas eles julgavam saber mais de política, mais de bocha, e francamente estavam convencidos de saber mais de suas mulheres que elas próprias.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Todos naquela família deveriam manter a postura dobrada, os olhos no bico do sapato e pouca ou nenhuma vontade de descobrir o mundo distante dali.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Agora estou em Madri, lendo "Paris é uma festa", desejando novas histórias e apagando outras. Escrevendo para apagar. Ou lembrar de outra forma.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Ainda não dissemos sobre a moça da limpeza. Sim, ela é muito magra, vem calada e com uma revolta nos olhos. Uma revolta que faz os ombros de Virginia se levantarem e tensionarem mais um pouco. Ainda que magra, essa mulher se espreme toda para pegar o cesto de lixo sob a mesa, ocupando os mesmos noventa centímetros de cabela de gado que cabem a ambas, e nesse momento a garganta de Virginia trava e ela murmura um tímido agradecimento, um modo de se desculpar pelo fato de aquela pessoa ter de se curvar ao chão para recolher suas sujeiras, suas incompetências, seus pequenos desperdícios. Virginia adoraria dizer-lhe que não compactua com nada ali à sua volta, mas cada vez que ensaiava a frase, a funcionária, treinada, já havia desviado o olhar e saído dali, quase invisível, como sempre. Alguém a viu?”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Do trem já se avista. O amontoado de prédios. Blocos impermeáveis, onde a vida não gruda. Todos geminados. Centenas de famílias engavetadas em tijolos vermelhos. Bicicletas e baldes e penicos infantis, apertados na varanda com grade. São pequenos ninhos, se olhando de longe.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Faça-me o favor, por nada eu queria permanecer ali, em visita à sua velhice. Em visita ao meu futuro. A relação com os pais deveria ser menos obrigatória. E eu pensava, onde há amor em mim?”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“As lembranças daqueles dias [...], essas sim, marcavam território. Por essa razão, tomei o livro da bolsa. Para me omitir. Lia empolgada, sequestrada da vida.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Ao longo do caminho, cruzamentos, alças, anéis. Nós viários. Luis, o pé torto, a barba cerrada, a teimosia da lembrança. E mais asfalto, terra amarela, vastidão plana. Galpões isolados. Ninguém. Ninguém. Meu pai.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Se tem algo que as pessoas nascidas na miséria sabem ler é o desespero.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Criava diálogos de mim para mim, como se eu namorasse a mim mesma. Imperdoável esse outro inventado e suspirado, que por acaso tem corpo e, com certeza, a alma diversa da sonhada. A despeito de todas defesas que a razão erigia, soberba, a fim de desfazer atalhos, enganos e futuros martírios, havia momentos breves, muito breves, em que a alma sonhada colava perfeita sobre a alma real, e a isso podemos chamar felicidade.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Seu Odair foi o primeiro velhinho a morrer. E quando o primeiro velhinho do meu prédio morresse, eu começaria a envelhecer. Velhinhos morrem para que pessoas de meia-idade possam ocupar seus lugares.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Algumas estações têm um charme peculiar. Como um quadro ao qual queremos pertencer. O quadro está lá, é só olhar pela janela do trem. E num segundo entramos na tela, tomamos assento numa cadeira, acendemos um cigarro, mesmo que não sejamos fumantes, e nos juntamos à paisagem, como se fosse natural, como se nunca tivéssemos deixado de ser paisagem.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Diziam-nos, com sorrisos automáticos, ele se saiu bem, estamos otimistas. Seu Ramires, aguardamos o senhor para mais sessões de químio. E assim, quase de supetão, ao final da frase, nos meteram um frangalho nas mãos. Aceitamos o frangalho. Pode parecer cruel, mas retirar um pacote de carne, pele e ossos, é como se nos devolvessem a sacola onde dispusemos, na noite anterior, os restos do prato principal e dissessem, não temos como recolher essa substância que deambula entre a vida e a morte, mastiguem mais um pouco a família que lhes resta. Assentamos sua carne, sua pele e seus ossos na cadeira de rodas, e foi dessa maneira que seu Ramires voltou conosco para o predinho de tijolos vermelhos na sua primeira entre-químios.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo

“Ao fundo, a altura de Deus. Medida das montanhas. E nós, encurvadas. E pensar que eu ainda não conhecia dona Helena. Nem a mim mesma. Nem um pouquinho. Estava amortizada e só. Só isso. Do lado de fora, a Serra dos Órgãos. Incompreensível. Virginia rompeu o silêncio. Estou sentindo o mesmo medo de quando era criança. Inventar uma ocupação nos faria bem, não acha? Que tal se começássemos a procurar? Procurar o quê? O dedo de deus. Você já ouviu falar? É a montanha mais importante da serra. A serra terminou e desistimos desse pedaço de deus. Cruzamos uma estrada maior e estacionamos no primeiro recuo. Outras pessoas também pararam o carro. Em um mirante, mas não se via nada dali. Mesmo assim, elas pareciam convencidas. Perguntei à Virginia, do que você tinha medo quando criança? De que minha mãe tomasse coragem para dizer, eu não te quero. Aí sim, sem premeditar, sem querer, como turistas de primeira viagem, avistamos. O dedo de deus. Que sumiu em instantes no nevoeiro. Não à toa, os homens possuem tão pouca fé.”
Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo