Status Updates From Escrito com sangue na água ...
Escrito com sangue na água (Portuguese Edition) by
Status Updates Showing 1-30 of 42
Leonor
is on page 245 of 248
Não há como parar a dor do tempo a não ser com a dor de abandonar o tempo, abandonando os corpos dos outros ao seu destino de imersão no tempo.
— Jun 27, 2026 09:30AM
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Leonor
is on page 243 of 248
Mas a tua página não terminou aqui, Lucia, e agora escreves, com as minhas mãos, a vida que com o teu sangue já tinhas escrito em mim.
— Jun 27, 2026 09:13AM
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Leonor
is on page 240 of 248
Lucia queria partir para o estrangeiro. Roma, para ela, era o estrangeiro possível. Uma encruzilhada. Eis-me então aqui, dentro de uma miragem cosmopolita, eis-me, viva, dentro de um sonho dos meus pais.
Que outra coisa ao seu alcance poderiam eles ter imaginado?
— Jun 27, 2026 08:47AM
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Que outra coisa ao seu alcance poderiam eles ter imaginado?
Leonor
is on page 190 of 248
Mãe
Trago-te como ferida
na fronte, que nunca cicatriza.
Nem sempre dói. E o meu coração
não escorre por ali até á morte.
Só que às vezes fico de repente cego e sinto
sangue na boca.
Gottfried Benn, Morgue
— Jun 27, 2026 06:50AM
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Trago-te como ferida
na fronte, que nunca cicatriza.
Nem sempre dói. E o meu coração
não escorre por ali até á morte.
Só que às vezes fico de repente cego e sinto
sangue na boca.
Gottfried Benn, Morgue
Leonor
is on page 173 of 248
Dentro de uma hora, os Beatles vão tocar no Velodromo Vigorelli, em Milão, e repetem à noite, desencadeando a loucura e arrecadando cinquenta e oito milhões de liras num só dia. Amanhã, em Roma, hão de tocar apenas meia hora, assim retribuindo a morna receção da capital.
[ Katya, os "teus Beatles", 24 de junho de 1965]
— Jun 27, 2026 05:50AM
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[ Katya, os "teus Beatles", 24 de junho de 1965]
Leonor
is on page 164 of 248
- Não foi com isto que sonhámos...
Este lamento atravessa a História, proferido em todas as línguas e dialetos do mundo, com a mesma dor, a mesma raiva, a mesma resignação, como se fôssemos todos a mesma pessoa.
— Jun 27, 2026 05:36AM
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Este lamento atravessa a História, proferido em todas as línguas e dialetos do mundo, com a mesma dor, a mesma raiva, a mesma resignação, como se fôssemos todos a mesma pessoa.
Leonor
is on page 162 of 248
Viver, às vezes. significa renunciar progressivamente aos desejos iniciais. Para sobreviver, Lucia desiste dos seus primeiros sonhos, tal como uma árvore sem água deixa pouco a pouco cair as flores. É da árvore que ela toma o exemplo.
— Jun 27, 2026 05:29AM
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Leonor
is on page 161 of 248
Felizmente, quem ama não raciocina, assume todos os riscos do amor, todas as consequências, incluindo as jurídicas.
— Jun 27, 2026 05:24AM
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Leonor
is on page 144 of 248
A realidade é uma opinião. Muitas vezes errada, porque raramente observamos as coisas sem preconceitos. Mas as coisas existem e têm uma voz clara. Para compreender, basta observar os factos, sem lhes impor a inteligência humana. Deixar-se atravessar pelas coisas, até que expressem o que têm a dizer, mesmo a contragosto. Este livro deseja ser transcrição e testemunho da energia indelével das coisas.
— Jun 26, 2026 07:01PM
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Leonor
is on page 143 of 248
Não obstante terem sido(...)ultrapassadas pelas normas vigentes, estas leis impedem-me, nos próximos cinquenta anos, de aceder plenamente aos documentos q me dizem respeito:para as crianças declaradas ilegítimas pela antiga legislação, as regras da época aplicam-se no presente.Durante cem anos, não podemos receber "informação sensível" sobre as nossas mães, nem sobre nós próprios, mas apenas dados relativos ao parto.
— Jun 26, 2026 06:56PM
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Leonor
is on page 137 of 248
Para que haja vida, é necessária a separação.
— Jun 26, 2026 06:30PM
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Leonor
is on page 128 of 248
Lucia transfigura-se. Por trás dos vidros da janela, aparece o rosto de uma fénix, um vislumbre de luz que a torna imortal. Renascerás, Lucia, mesmo que apenas em palavras. É tudo quanto posso. Enquanto isso, olha pela janela.
— Jun 26, 2026 06:09PM
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Leonor
is on page 117 of 248
Claro que o mundo só muda graças a quem sonha um novo mundo.
Claro que a identidade dos vivos é uma retificação contínua de erros já cometidos, até por aqueles que viveram antes de nós.
— Jun 26, 2026 05:46PM
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Claro que a identidade dos vivos é uma retificação contínua de erros já cometidos, até por aqueles que viveram antes de nós.
Leonor
is on page 111 of 248
Só os factos dizem quem somos, e dizem -no primeiramente a nós mesmos. Nós, que somos a nossa própria surpresa.
— Jun 26, 2026 04:30PM
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Leonor
is on page 107 of 248
Assim começa a violência social, essa ausência absoluta de piedade que, dia após dia, e sofrimento e humilhação após sofrimento e humilhação, pode drenar toda a energia natural de uma vida. E pode mesmo pôr -lhe fim.
O bafo social pútrido contamina tudo o que alcança.
— Jun 26, 2026 04:16PM
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O bafo social pútrido contamina tudo o que alcança.
Leonor
is on page 96 of 248
Procuro a história nas páginas da poesia, com confiança, porque sei que a poesia é superação, por vezes até inversão, de toda a retórica ou mitologia.
— Jun 26, 2026 12:57PM
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Leonor
is on page 75 of 248
Lucia observa a vida mover-se na forma infinitesimal de uma mosca
no tronco, onde os séculos se sobrepõem em anéis que partem do centro. Acima, a pátina laminada da casca, a película occídua
do tempo.Lucia olha para as brasas que se extinguem, sente o tempo
que passa.Mais um dia inútil
terminado. Lucia
respira. Gravado numa estranha fixidez, o marfim das bétulas assemelha o mundo a uma floresta de ossos.Um paradigma.
— Jun 26, 2026 08:58AM
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no tronco, onde os séculos se sobrepõem em anéis que partem do centro. Acima, a pátina laminada da casca, a película occídua
do tempo.Lucia olha para as brasas que se extinguem, sente o tempo
que passa.Mais um dia inútil
terminado. Lucia
respira. Gravado numa estranha fixidez, o marfim das bétulas assemelha o mundo a uma floresta de ossos.Um paradigma.
Leonor
is on page 73 of 248
A voz da narradora, que sou eu a escrever, interrompe a história para destacar um ponto: Lucia tem muito medo de morrer.
(...)
Esta, agora, é a vida de Lucia. A vida de uma filha abandonada pelos pais vivos.
— Jun 26, 2026 06:49AM
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(...)
Esta, agora, é a vida de Lucia. A vida de uma filha abandonada pelos pais vivos.
Leonor
is on page 67 of 248
Mãe, faz com que isto seja apenas a cópia - errada - da minha vida.
— Jun 26, 2026 06:39AM
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Leonor
is on page 63 of 248
O colchão dos noivos é(...)um grande saco cheio de folhas de milho.Assim dormem os pobres;os ricos preferem colchões de lã.(...)O colchão de Lucia e Luigi todas as manhãs revela um desmoralizante espaço no meio,pois ela e o marido domem assim, desunidos e sozinhos.(.)O cochão de Lucia é mudo. Canta apenas quando ela o sacode, (.) na janela.(.)
Como todas as mulheres casadas,deve usar o cabelo(.)apanhado.E no entanto.
— Jun 26, 2026 06:27AM
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Como todas as mulheres casadas,deve usar o cabelo(.)apanhado.E no entanto.
Leonor
is on page 53 of 248
As mulheres da sua casa encontrara finalmente alguém para ficar com ele, aquele tubérculo mal-humorado e inepto, que todas as manhãs, mal acorda, acompanha o café com conhaque. Indolente por natureza, Luigi está muitas vezes grogue por causa do álcool. Em todas as fotografias, os olhos negros à sombra das belas pestanas devolvem o semblante de alguém ausente. Luigi é um infeliz e um obediente.
— Jun 26, 2026 06:05AM
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Leonor
is on page 51 of 248
enfia a mão debaixo do colchão, tira uma coisa que julga só ela saber que ali está, e parte em voo raso daquele leito de esposa com o marido longe: Lucia possui um caderno e uma caneta, cotovelos para se apoiar e umas poucas palavras italianas q aprendeu nos dois anos de escola. Dizem q ela escreve poesia.E eu acredito, porque Lucia entrou na juventude presa numa solidão q modifica o seu abandono(.)às circunstâncias.
— Jun 26, 2026 05:58AM
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Leonor
is on page 49 of 248
Tendo empilhado os fardos de trigo debaixo do sol vivo, todos virados para o mesmo lado, as mulheres estendem uma toalha à sombra do carvalho, onde dispõem o pão, o queijo e suculentos pedaços de frango.
- Grandes mulheres, muntes graças a Deus!
De foice no bolso de trás das calças, homens de todas as idades, desde crianças a idosos, passam a garrafa de tinto.
— Jun 26, 2026 05:28AM
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- Grandes mulheres, muntes graças a Deus!
De foice no bolso de trás das calças, homens de todas as idades, desde crianças a idosos, passam a garrafa de tinto.
Leonor
is on page 45 of 248
Sem essa rejeição longínqua, eu não teria nascido, e isso ter-me-ia (creio) prejudicado. Mas a vida de Lucia teria sido simples e feliz.
— Jun 26, 2026 05:19AM
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Leonor
is on page 44 of 248
Como muitos casais sem terra, Lucia e Tonino hão de salgar com o seu suor as quintas dos outros; mas juntos. Não precisam de o dizer: os olhos dele que riem e os olhos dela que, após algum tempo, baixam escrevem no ar e no sangue todas as promessas. Do corpo, que sabe tudo o que é preciso. Por isso, quando completa dezassete anos, como manda a tradição, Tonino envia aos pais de Lucia um embaixador de casamento(...)
— Jun 26, 2026 05:15AM
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Leonor
is on page 37 of 248
Na primeira fotografia, de 10 de junho de 1947, a professora tem a mão no ombro dela e a menina parece ter um desejo sombrio de desaparecer atrás das cabeças dos colegas.(...)
A segunda fotografia é de junho do ano seguinte, 1948(...)De braços cruzados, vê-se apenas o osso do pulso esquerdo, a mão está escondida sob o braço direito. Esse é o único vestígio das mãos da minha mãe.
— Jun 25, 2026 12:44PM
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A segunda fotografia é de junho do ano seguinte, 1948(...)De braços cruzados, vê-se apenas o osso do pulso esquerdo, a mão está escondida sob o braço direito. Esse é o único vestígio das mãos da minha mãe.
Leonor
is on page 34 of 248
No edifício principal da escola, logo ao cimo das escadas, fica a chamada turma diferencial, uma daquelas reservas para crianças disruptivas, que só seriam abolidas em agosto de 1977, por iniciativa da senadora Franca Falcucci. Os alunos de «inteligência normal» de todas as idades são, por sua vez, reunidos numa única turma.
— Jun 25, 2026 12:31PM
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Leonor
is on page 23 of 248
Disponho-me a absorver a paisagem q os olhos da minha mãe viram.(.)
Tenho de afundar as mãos na cegueira do tempo,sem saber o que vou encontrar:lá em baixo, na terra onde o silêncio deixa cair aqueles que não são amados.Depois tenho de observar q o corpo é trazido para a luz.
Com o passar dos dias,emerge do vazio onde habitava uma figura tridimensional, soerguendo-se na história do seu tempo.Uma figura de cara lavada
— Jun 25, 2026 11:00AM
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Tenho de afundar as mãos na cegueira do tempo,sem saber o que vou encontrar:lá em baixo, na terra onde o silêncio deixa cair aqueles que não são amados.Depois tenho de observar q o corpo é trazido para a luz.
Com o passar dos dias,emerge do vazio onde habitava uma figura tridimensional, soerguendo-se na história do seu tempo.Uma figura de cara lavada

