Status Updates From Coisas de Loucos: O Que Ele...
Coisas de Loucos: O Que Eles Deixaram no Manicómio by
Status Updates Showing 1-30 of 1,710
Maria Clara Jorge
is on page 291 of 327
“Anabela deu os seus três filhos para adopção. Sentiu que não tinha nada para lhes oferecer. Como é que se pode dar o que nunca se recebeu? Ainda tentou contactar um filho mas, ali, à frente do rapaz, só pensava «o que é que eu venho aqui fazer?
Eu não sentia nada por aquele miúdo, nada, nada. Eu não tenho culpa. Eu nem de mim gosto». «Dentro de mim só saem eles.»”
— May 14, 2026 01:18AM
Add a comment
Eu não sentia nada por aquele miúdo, nada, nada. Eu não tenho culpa. Eu nem de mim gosto». «Dentro de mim só saem eles.»”
Maria Clara Jorge
is on page 282 of 327
“(…) «Eu não percebo nada (…) «É tudo abstracto.» Abstracto é adjectivo que aqui se usa para designar o que não se entende. Os desenhos de Jaime Fernandes, regressados a Barco com o estatuto de arte, tornaram-se para as pessoas da aldeia indecifráveis. (…) Se Jaime estivesse como espectador na sua exposição também não se compreenderia. Jaime também não percebia nada de arte.”
— May 14, 2026 01:17AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 281 of 327
“(…) questionava se seria legítimo mostrá-
-lo. Os seus desenhos eram, afinal, actos privados. Era como se a sua vida interior, sem os filtros dos artistas convencionais, ali estivesse exposta e o espectador fosse intruso.
«É talvez abusivo expor Jaime, a menos que haja da nossa parte o compromisso prévio e tácito de o respeitar na sua intimidade provavelmente desvendada»”
— May 14, 2026 01:15AM
Add a comment
-lo. Os seus desenhos eram, afinal, actos privados. Era como se a sua vida interior, sem os filtros dos artistas convencionais, ali estivesse exposta e o espectador fosse intruso.
«É talvez abusivo expor Jaime, a menos que haja da nossa parte o compromisso prévio e tácito de o respeitar na sua intimidade provavelmente desvendada»”
Maria Clara Jorge
is on page 278 of 327
“Botar é verbo que Jaime trouxe consigo da aldeia e que pode querer dizer que atira para dentro dos seus retratos os animais, a alma, o mar, a sombra, os cabrais, como que os atira para fora de si. (…) Os meus retratos que estão por trás do meu nome, ninguém me conhece...»”
— May 14, 2026 01:14AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 249 of 327
“Vinte e sete anos depois de ter sido internado no Pavilhão de Segurança, é finalmente transferido. Em 1969 instalam-no na 6° enfermaria, onde se sente mais livre. Também para fugir.
Cá fora, chega a mandar postais para o hospital.”
— May 11, 2026 07:45AM
Add a comment
Cá fora, chega a mandar postais para o hospital.”
Maria Clara Jorge
is on page 246 of 327
“«Desculpe-me mais uma vez maçá-lo», terminam muitas das missivas. Na verdade nunca maçou.”
— May 11, 2026 07:44AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 245 of 327
“Depois da não-resposta deixa de haver cartas durante sete anos (entre 1947 € 1954). Desanimou? Rendeu-se às evidências?”
— May 11, 2026 07:44AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 235 of 327
“As cartas e palavras sucedem-se: «Continuar a viver dentro de um antro a que chamam hospital sem razão e onde me arruinaram a saúde [...] como esta é a ultima que lhe escrevo ....».
«Amanhã ou depois começarei a deixar de comer [...].» «Brincar com a vida de quem desde os 1o anos ganha as sopas que tem comido. Hoje a minha vida nem sei a quem pertence [...].»”
— May 11, 2026 07:37AM
Add a comment
«Amanhã ou depois começarei a deixar de comer [...].» «Brincar com a vida de quem desde os 1o anos ganha as sopas que tem comido. Hoje a minha vida nem sei a quem pertence [...].»”
Maria Clara Jorge
is on page 231 of 327
“Ricardo não faz ideia porque ali está. Tudo lhe parece incompreensível.”
— May 11, 2026 07:36AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 230 of 327
“O pátio interior está rodeado por bancos hoje pintados daquele azul que lembra barras de casas alentejanas. (…) Vítor Albuquerque Freire refere que o espaço transmite uma certa ambiência portuguesa, rural, até. A cal, os bancos para estar sentado a apanhar sol, quase têm o poder de transportar para as aldeias do sul de Portugal. Como aquela de onde Ricardo vinha. E onde não tinha querido ficar.”
— May 11, 2026 07:35AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 229 of 327
“(…) explica que uma das manifestações da psicose parafrénica é a absoluta inconsciência de que se sofre dela. (…) Um delírio é convicção de conteúdo implausível que nenhum tipo de argumentação lógica consegue desalojar.
(…) Como se as ideias delirantes fossem uma pequena ilha avariada dentro de um circuito que continua a funcionar.
— May 11, 2026 07:35AM
Add a comment
(…) Como se as ideias delirantes fossem uma pequena ilha avariada dentro de um circuito que continua a funcionar.
Maria Clara Jorge
is on page 223 of 327
“Todos podemos adoecer, mas o tipo de doença e o momento histórico em que tal acontece, que coincide com o nosso tempo de vida, determinará que peso irá ter na nossa vida: se vai ser um incómodo, uma interrupção ou um fim.”
— May 08, 2026 12:46AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 218 of 327
“A única sobrinha que vivia na terra, que ainda lhe escreveu para o hospital, lamentava ao tio (…) mas dispõe-se, em substituição, a responder-lhe às cartas que decida enviar-lhe: «Eu gostava que me escrevesse, e respondia às suas cartas com muito gosto, as cartas também animam o doente.» «Adeus.»
— May 07, 2026 12:04PM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 212 of 327
“Os cinco objectos com que Clemente entrou no manicó-mio davam-nos conta de um tempo em que se apresentava aos outros com um cartão-de-visita com nome e morada. Um tempo em que Clemente seguia os dias num calendário. Um tempo em que passeava de eléctrico. E um tempo em que estudava. Aqui, o asilado n.° 436 surge na página 10o como um dos homens a quem dão banho.”
— May 07, 2026 12:03PM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 211 of 327
“(…) o coveiro faz questão de me levar ao sítio onde ele próprio vai ficar. Não será enterrado e não quer correr o risco de o levarem de volta à terra dele, Torres Vedras, onde não foi feliz.(…) a sua fotografia já está no lugar, é ele com menos 30 anos (…). Só será preciso juntar a data da morte e eventualmente, se ainda demorar muito tempo a morrer, uma fotografia mais actual de si vivo.”
— May 07, 2026 12:02PM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 208 of 327
“O grupo de homens com ar mais miserável tem a legenda ‘Outrora’, um passado poeticamente inlocalizável”
— May 07, 2026 12:01PM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 203 of 327
“Tem os olhos muito grandes, arregalados. À vista, Clemente parece-me efetivamente louco e sinto que o traio por pensar assim, como se o julgasse bem internado. O que é isso de parecer louco? Basta estarmos assustados quando a máquina fotográfica dispara. Clique.”
— May 07, 2026 12:00PM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 198 of 327
“Na mesma data, o médico pergunta-lhe se quer ter alta. «Já não... Não sei o tempo que já passou... entrei em Janeiro do ano passado e já estamos em 30..» «Queria dar uns passeios primeiro e arranjar um emprego...» Clemente pensa que está em 1930, ainda está a meio de I929. Vê-se no futuro.”
— May 07, 2026 11:59AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 199 of 327
“Se Clemente tiver sido tratado com o pouco que havia, na altura, para oferecer a doentes com a sua perturbação, nada consta no seu processo. A grande opção terapêutica da época era o próprio internamento. Mas já havia médicos que punham em causa o modelo.”
— May 07, 2026 11:59AM
Add a comment
Maria Clara Jorge
is on page 114 of 327
“«O meu tio Simão.» É como se, perante este tratamento, ele se tornasse, de repente, em pessoa diferente, não apenas um doente psiquiátrico de quem encontrei, por acaso, uns objectos.”
— May 07, 2026 11:56AM
Add a comment






