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“é o custo de desprezar a cultura como instância geradora de mediações de linguagem necessárias para que enfrentemos o sofrimento antes que ele evolua para a formação de sintomas. Esse é o desserviço dos que imaginam que teatro, literatura, cinema e dança são apenas entretenimento ideológico e acessório – como se a ampliação e a diversidade de nossa experiência cultural não fossem essenciais para desenvolver capacidade de escuta e habilidades protetivas em saúde mental. Como se eles não nos ensinassem como sofrer e, reciprocamente, como tratar o sofrimento no contexto coletivo e individual do cuidado de si.”
― A Arte da Quarentena Para Principiantes
― A Arte da Quarentena Para Principiantes
“As redes sociais trazem fartos exemplos de apaixonamentos que violam a regra genérica da intimidade. Ou seja, em vez de prosperar na conversa lenta que gradualmente se transforma em curiosidade e sedução, as pessoas se apresentam com uma lista de quesitos e predicados a preencher e a serem preenchidos. Ignorância total de que nossos amores passam crucialmente pelos vícios, incongruências e problemas que não conseguimos suportar em nós mesmos, vamos “buscar no mercado” de forma inconsciente. Entreveros, adversidades e conflitos de gosto não são considerados um pretexto para o valor erótico da diferença, e excluímos pretendentes como se estivéssemos em uma entrevista de emprego.
Também podemos perceber como uma parte substantiva do discurso de ódio, que grassa nas redes digitais, se organiza em torno de amores não correspondidos, decepções para promessas nunca feitas e ódios a pessoas-tipo que não são o nosso tipo de pessoas narcisicamente amáveis, como nós. A aceleração na resposta desestimula a dialética entre presença e ausência, dificulta a leitura do desejo para além da demanda e facilmente impede que as diferenças criem transferência ou suposição de saber.”
― A arte de amar
Também podemos perceber como uma parte substantiva do discurso de ódio, que grassa nas redes digitais, se organiza em torno de amores não correspondidos, decepções para promessas nunca feitas e ódios a pessoas-tipo que não são o nosso tipo de pessoas narcisicamente amáveis, como nós. A aceleração na resposta desestimula a dialética entre presença e ausência, dificulta a leitura do desejo para além da demanda e facilmente impede que as diferenças criem transferência ou suposição de saber.”
― A arte de amar
“O outro não é apenas um duplo especular, ao modo de um espelho do Eu. Para começar, o outro tem dois olhos, não apenas um. Então em qual ponto de vista devemos nos colocar? Se os olhos piscam ao mesmo tempo, a imagem permanece ainda que não esteja em presença. Mas, se alternamos o piscar entre um olho e outro, o objeto começa a se movimentar, em função de um efeito de ilusão chamado paralaxe. Ou seja, o fato de nós termos uma visão binocular e supormos no outro um único ponto de vista corresponde a uma diferença estrutural entre o eu e o outro. Isso ocorre também porque há um ponto de ausência na visão, bem no centro do cone ótico, chamado mácula. Além disso, a visão, tomada nesse sentido geométrico, equivale à audição, não à escuta. Para escutar e não só ouvir, assim como olhar e não só ver, é preciso subtrair a representação antecipada que fazemos do outro, da imagem, e que não é uma ilusão ótica, mas uma ilusão cognitiva. Quando alguém começa a aprender a arte do desenho, uma das primeiras lições, e talvez a mais importante, no sentido inaugural, é que você deve se ater ao que objetivamente está vendo, não ao que se “sabe” sobre o formato de uma maçã ou das arestas de um cubo.
Isso significa que, para que os dois olhos colaborem na apreensão de uma única imagem, é preciso pensar a partir do quadro, colocar-se no lugar do outro, mas também supor o que o quadro “ignora” sobre sua própria composição. Por exemplo, o tamanho, a disposição e a distribuição dos volumes impõem involuntariamente ao observador que se coloque no ponto exato em que o quadro forma uma boa imagem. Se nos colocamos a menos de um palmo ou a mais de cem metros da Mona Lisa, sua experiência estética simplesmente será outra. Ocorre que, nesse ponto, ao qual nos ajustamos automaticamente – como ajustamos a distância exata à qual um bebê é capaz de formar seu foco visual, sem que ninguém tenha nos ensinado isso –, emerge outro fenômeno: nos vemos sendo vistos. Nossa percepção é a de que fazemos parte da tela e estamos imersos no espaço do museu. Ou seja, recebemos nossa própria imagem, que nos enxerga ali onde não nos vemos. É assim também com a escuta. Reconhecemos o que o outro não escuta, o que ele mesmo diz, e não adianta simplesmente dizer isso, gritar ou se exasperar, porque ele não escuta. E isso acontece porque, no fundo, “não pode escutar”, pois aquilo foi feito para ficar nessa zona cinzenta do não escutado.
Não obstante, há restos – penumbras, zonas de transição, rastros daquilo que não se escuta perfeitamente –, mas que se denunciam como ruídos, particularmente em distorções, exageros, inibições e excepcionalidades da sua expressividade. O senso comum tenta eliminar tais ruídos entendendo que atrapalham a funcionalidade das relações. A psicanálise dá atenção a essas bobagens e imperfeições comunicativas, pois presume que nelas falta o que não pode ser realmente escutado e que de fato está determinando impasses relacionais.”
― A arte de amar
Isso significa que, para que os dois olhos colaborem na apreensão de uma única imagem, é preciso pensar a partir do quadro, colocar-se no lugar do outro, mas também supor o que o quadro “ignora” sobre sua própria composição. Por exemplo, o tamanho, a disposição e a distribuição dos volumes impõem involuntariamente ao observador que se coloque no ponto exato em que o quadro forma uma boa imagem. Se nos colocamos a menos de um palmo ou a mais de cem metros da Mona Lisa, sua experiência estética simplesmente será outra. Ocorre que, nesse ponto, ao qual nos ajustamos automaticamente – como ajustamos a distância exata à qual um bebê é capaz de formar seu foco visual, sem que ninguém tenha nos ensinado isso –, emerge outro fenômeno: nos vemos sendo vistos. Nossa percepção é a de que fazemos parte da tela e estamos imersos no espaço do museu. Ou seja, recebemos nossa própria imagem, que nos enxerga ali onde não nos vemos. É assim também com a escuta. Reconhecemos o que o outro não escuta, o que ele mesmo diz, e não adianta simplesmente dizer isso, gritar ou se exasperar, porque ele não escuta. E isso acontece porque, no fundo, “não pode escutar”, pois aquilo foi feito para ficar nessa zona cinzenta do não escutado.
Não obstante, há restos – penumbras, zonas de transição, rastros daquilo que não se escuta perfeitamente –, mas que se denunciam como ruídos, particularmente em distorções, exageros, inibições e excepcionalidades da sua expressividade. O senso comum tenta eliminar tais ruídos entendendo que atrapalham a funcionalidade das relações. A psicanálise dá atenção a essas bobagens e imperfeições comunicativas, pois presume que nelas falta o que não pode ser realmente escutado e que de fato está determinando impasses relacionais.”
― A arte de amar
“Temos aqui três procedimentos análogos da escuta psicanalítica: 1. atenção equiflutuante nesta ou na outra cena; 2. sustentação ou subversão da transferência; e 3. interpretação ou corte. A arte do gesto único será sintetizada por Lacan na abertura de seu seminário público em 1953:
O mestre interrompe o silêncio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé.
É assim que procede, na procura de sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen. Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta às suas próprias questões. O mestre não ensina ex cathedra uma ciência já pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la.
Essa forma de ensino é uma recusa de todo sistema.”
― O estilo de Lacan
O mestre interrompe o silêncio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé.
É assim que procede, na procura de sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen. Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta às suas próprias questões. O mestre não ensina ex cathedra uma ciência já pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la.
Essa forma de ensino é uma recusa de todo sistema.”
― O estilo de Lacan
“O bom ouvinte não vai pegar apenas aquela demanda, aquele sofrimento que está visível em primeiro plano. Vai se ocupar também do que está na periferia, do que muitas vezes não é possível reconhecer muito bem a razão e a causa do sofrimento. Certamente, a escuta envolve a capacidade de se deixar impressionar e de se colocar no lugar do outro. Mas ela prossegue, além disso, como uma investigação sobre como e por que foram escolhidos precisamente aqueles e não outros meios de expressão. Por isso, o problema da escuta, da empatia, não foi inicialmente estudado por psicólogos nem psicanalistas, mas por teóricos da estética. Quando vamos a um museu e nos deparamos com imagens que nos interpelam ou que nos assuntam, é como se fôssemos projetados para o lugar de uma questão. Ou seja, para apreciar uma obra de arte é preciso colocar-se no lugar em que somos a questão que ela nos faz, e ao mesmo tempo na posição em que ela responde às nossas questões. Apreciar uma obra de arte é conversar com ela, incluí-la em nossa conversa e nas conversas que nos antecederam.”
― A arte de amar
― A arte de amar
“ANA: O teatro dentro do teatro: para mim, tem a ver mais com o fingimento, mas não necessariamente fingimento deliberado. Tem uma arquitetura nisso, na coisa de “como é que eu vou demonstrar a minha melhor versão?”.
CHRISTIAN: É! Engraçado, porque quando ouço essa frase, sempre escuto aversão, a minha melhor aversão. Como é que eu vou ser esse objeto de aversão, que é essa preocupação da minha melhor versão ser a menos pior.”
― Eu só existo no olhar do outro?
CHRISTIAN: É! Engraçado, porque quando ouço essa frase, sempre escuto aversão, a minha melhor aversão. Como é que eu vou ser esse objeto de aversão, que é essa preocupação da minha melhor versão ser a menos pior.”
― Eu só existo no olhar do outro?
“A coexistência entre opacidade e brilho, na estilística lacaniana, corrobora uma hipótese sobre a formação dos psicanalistas. Quando estamos diante de nossos analisantes, grande é a tentação de compreender. Diante do sofrimento intenso, da pressão por uma palavra de orientação ou consolo, da demanda de alívio ou esclarecimento, a sedução para deixar-se levar pelo enredo, ou a propensão a tirar partidos e formular juízos sobre a situação vivida, é permanente. Por isso, a capacidade de habitar espaços discursivos de alta rarefação do sentido é condição para quem quer escutar os outros. A habilidade para valorizar o caráter inclusivo da significação, o adiamento ou aceleração temporal do sentido e o paradoxo do significado definem a escuta analítica, colocando-a em contraposição à tendência natural para a adivinhação e sobrevalorização do que o analisante “quer dizer”.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“Segundo o próprio Lacan o conceito de objeto a teria sido a única novidade que ele introduziu na psicanálise. De fato, a ideia de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, bem como os inúmeros desdobramentos e extensões do que entendemos por linguagem, encontram sólidos correlatos em Freud. Também a abordagem pela negatividade pode ser respaldada no amplo espectro de temas, conceitos e noções freudianas de corte negativo, a começar pelo inconsciente, passando pela teoria da defesa e da angústia, por suas concepções de transferência e resistência, incluindo até mesmo a controversa postulação da pulsão de morte.
Já quando olhamos para o conceito de objeto a não encontramos nenhum correlato freudiano direto, restando-nos pensar pelas vias indiretas do trabalho da pulsão, do sonho e do luto, incluindo o fenômeno do estranho (Unheimlich ), no quadro de uma noção mais genérica, como a de repetição. O desenvolvimento do conceito de objeto a e do conceito de fantasma, que é sua noção clínica mais próxima, dependeu de uma crítica radical da fenomenologia sobre a qual Freud trabalhou. Na esteira desse programa emergiu uma nova concepção de prazer e satisfação, bem como uma nova teoria sobre o que é um corpo. Seria preciso refazer a estética transcendental kantiana, com suas pressuposições sobre tempo e espaço, na formação de fenômenos. Seria preciso desfazer a oposição entre desejo e razão e a descontinuidade entre ciência e ética. Seria preciso criticar a prerrogativa do sujeito como instância de reflexividade, autodeterminação e simetria perfeita sobre o objeto. Seria preciso refundar o estatuto sensível do objeto como patologia da razão a partir de um reexame criterioso do estatuto da imagem e do estatuto inerte das categorias de entendimento. Tudo isso Lacan encontrará sobre os escombros de uma ciência mal-sucedida na modernidade, em uma estética alternativa ao Renascimento e no programa de uma ética trágica, fundada na linguagem e na negatividade. Tudo isso Lacan encontrará no barroco.”
― O estilo de Lacan
Já quando olhamos para o conceito de objeto a não encontramos nenhum correlato freudiano direto, restando-nos pensar pelas vias indiretas do trabalho da pulsão, do sonho e do luto, incluindo o fenômeno do estranho (Unheimlich ), no quadro de uma noção mais genérica, como a de repetição. O desenvolvimento do conceito de objeto a e do conceito de fantasma, que é sua noção clínica mais próxima, dependeu de uma crítica radical da fenomenologia sobre a qual Freud trabalhou. Na esteira desse programa emergiu uma nova concepção de prazer e satisfação, bem como uma nova teoria sobre o que é um corpo. Seria preciso refazer a estética transcendental kantiana, com suas pressuposições sobre tempo e espaço, na formação de fenômenos. Seria preciso desfazer a oposição entre desejo e razão e a descontinuidade entre ciência e ética. Seria preciso criticar a prerrogativa do sujeito como instância de reflexividade, autodeterminação e simetria perfeita sobre o objeto. Seria preciso refundar o estatuto sensível do objeto como patologia da razão a partir de um reexame criterioso do estatuto da imagem e do estatuto inerte das categorias de entendimento. Tudo isso Lacan encontrará sobre os escombros de uma ciência mal-sucedida na modernidade, em uma estética alternativa ao Renascimento e no programa de uma ética trágica, fundada na linguagem e na negatividade. Tudo isso Lacan encontrará no barroco.”
― O estilo de Lacan
“Com Clarice Lispector acontece o contrário. A intimidade leva ao sexo, assim como o sexo leva à intimidade. Isso acontece porque Lory não sabe muito bem o que sente por Ulisses, ela precisa passar por um processo de aprendizagem dos prazeres. Ela hesita entre tomar o desejo como seu ou como o desejo do desejo do outro. Parte dessa hesitação a leva ao desconhecimento da fronteira entre amor e desejo. O sexo aparece aqui como uma espécie de ponto de convergência, mas também de agudização do conflito vivido.”
― A arte de amar
― A arte de amar
“A escuta é uma técnica, um método e frequentemente se subordina a uma abordagem ou atitude. Jornalistas, cientistas, artistas, médicos, antropólogos e psicoterapeutas usam a escuta de forma profissional, mas ela está disponível para qualquer um que se disponha e se interesse por relações. Vendedores são escutadores profissionais natos, assim como os palhaços. As atitudes e disposições nas quais o desenvolvimento da escuta ocorre de modo orgânico envolvem um certo interesse e curiosidade pelo outro, a fascinação por história, literatura ou teatro. Frequentemente encontramos entre escutadores uma inclinação para tirar o outro de si mesmo, desorganizar situações ou papéis sociais, por isso às vezes eles podem ser percebidos como provocadores, irreverentes ou bagunceiros. Ou seja, escutadores não se contentam com o funcionamento ordenado do mundo com seus papéis e sua funcionalidade, eles querem saber o que há por trás de tudo. Querem conhecer as coxias, saber como é feito o cenário, quem compôs a música, quem são os atores por trás dos personagens e, afinal, quem está na direção da peça, seja ela cômica ou trágica, dramática ou epopeica, a qual chamamos vida. Escutadores, como detetives policiais, querem descobrir o que há por trás das máscaras, das intenções declaradas, dos afetos explícitos e das moralidades constituídas.”
― A arte de amar
― A arte de amar
“Quando Lacan afirma que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, isso implica que o inconsciente é tanto uma estrutura de língua (metáfora e metonímia, sincronia e diacronia) quanto uma estrutura de fala (pela qual o sujeito recebe sua própria mensagem invertida desde o Outro). Portanto, instância pode ser o lugar da letra no inconsciente e também uma forma de temporalidade de instanciação, desde que se mantenha entre esses dois sistemas, cada qual contendo uma relação reversa entre Simbólico e Imaginário, além de um intervalo para o Real. Instanciação é uma prática típica da linguagem oral, que acentua a função performativa da linguagem em detrimento do uso constatativo ou descritivo. Instanciar é semelhante a interpelar, ou seja, convocar, chamar.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“E não deixa de ser curioso que a demanda por democracia, abertura e diversidade concentre-se nas abordagens psicanalíticas, deixando incólumes áreas inteiras que se profissionalizam segundo as regras do mercado. Na mesma direção podemos destacar que tenha sido a psicanálise uma das áreas, inclusive da psicologia e das psicoterapias, que mais cedo se posicionou contra a retração democrática vivida pelo Brasil entre 2016 e 2022. Também nessa linha se pode assinalar que foi desde a psicanálise, com expressiva participação lacaniana, que se despertou o movimento das clínicas públicas, abertas e coletivas, com grande incremento desde 2010.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“Desconhecer a história e o próprio pertencimento do estilo à história é um erro típico daqueles que querem construir léxicos filosóficos estáveis e fixos, com sentidos claros imutáveis. Contra isso, Hegel critica o excesso de confiança em categorias, classes e conceitos desprovidos de seu movimento e subalternizados a suas representações convencionais, exemplos normativos e consensos impostos à força. Ele pratica um método que é congruente com essa expectativa, envolvendo a produção contínua de novas palavras e de jogos de linguagem. Trocadilhos e neologismos inventam assim um alemão hegeliano, que se pode entender pela fluência e pela entrada em sua constelação de termos, mais do que pelo acesso ao dicionário. Usando significantes de modo obscuro e onírico, modificando o sentido do conceito, sem avisar ao leitor, Hegel, assim como Lacan, torna-se intraduzível.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“Outros vão se sentir melhor no começo, mais confortáveis com a situação, mas depois tendem a piorar. Por exemplo, aqueles que têm dificuldade para sair da cama para começar uma atividade, que sentem uma espécie de medo do mundo.”
― A Arte da Quarentena Para Principiantes
― A Arte da Quarentena Para Principiantes
“A escuta é uma experiência diferente de se meramente ouvir. Não é uma recepção passiva do que o outro diz, muito menos a aceitação incondicional do que o outro quer dizer. Escutar é a arte de suspender nosso exercício de poder sobre o outro e sobre nós mesmos. Como abordei no livro que escrevi com o palhaço Cláudio Thebas, escutar implica passar por quatro estações:
1. Abrir-se em hospitalidade para a língua e da estrangeiridade de outrem.
2. Mergulhar em um exercício investigativo e curioso sobre as causas do sofrimento do outro.
3. Colocar-se no lugar do outro até o ponto em que o Outro que o habita convoca nossa loucura mais íntima.
4. Formular, a partir dessa loucura, um novo fragmento compartilhado de saber, por meio do qual a conversa continua e retorna à primeira de nossas quatro estações, mas agora em uma língua, uma cultura e uma relação diferente da primeira.”
― A arte de amar
1. Abrir-se em hospitalidade para a língua e da estrangeiridade de outrem.
2. Mergulhar em um exercício investigativo e curioso sobre as causas do sofrimento do outro.
3. Colocar-se no lugar do outro até o ponto em que o Outro que o habita convoca nossa loucura mais íntima.
4. Formular, a partir dessa loucura, um novo fragmento compartilhado de saber, por meio do qual a conversa continua e retorna à primeira de nossas quatro estações, mas agora em uma língua, uma cultura e uma relação diferente da primeira.”
― A arte de amar
“CHRISTIAN: Perder é uma arte mesmo! E estou aqui pensando no efeito colateral dessa gramática de substituições. Eu sou aquilo que o outro vê em mim; aquilo que eu mostro para que o outro reconheça. Esse domínio, vamos chamar assim, no plano da identidade, no plano da organização do eu, ele devia servir, pelo menos em teoria, lá atrás, ele deve servir a uma função mesmo, que é assim: eu me identifico com o outro para orientar o que eu quero. Porque a hora que eu sei que lugar eu tomo para o outro, sei também em que lugar, indiretamente, que descobrirei – suponho eu – algo sobre o desejo do outro e algo sobre o meu próprio desejo. Então voltamos nas duas coisas que estamos costurando aqui: que é ser ou não ser, existir ou não existir, e para onde vamos. Ou seja: o que queremos. O que a gente vai fazer junto agora que você me ama e eu te amo? Vamos comprar um carro? Ir a Paris? Ter filhos? Nos matar? O que faremos? E esse passo de um pro outro me parece cada vez menos intuitivo se a gente sobrecarregar o lado do “a gente precisa saber quem é!”, do “eu preciso saber quem eu sou, preciso garantir ontologicamente meu lugar no mundo”. E tudo isso só se presta a saber como eu saio deste mundo, como vou para outro mundo. Por isso gosto tanto dos ameríndios brasileiros, os Arawetés. Ali na ontologia deles, que é uma ontologia do risco, vamos dizer assim, sem proteção, o “eu” não parece um sistema de defesa para o outro, de saneamento da angústia. Quando o indígena dessa orientação – vamos dizer assim – antropológica encontra um outro, ele se pergunta o que ele está vendo. Por que ele está vendo uma anta? Por que ele está vendo uma capivara? E não o lugar em que o outro está me vendo. Por que é que eu vejo uma jiboia na minha frente? Porque a resposta pode ser: eu sou uma jiboia, e eu não sei. Essa reversão é que me parece fundamental, inclusive para nós, psicanalistas, que somos diplomatas entre mundos; andróginos. Queremos ver duas perspectivas: a nossa e a do paciente. Essa ideia de que, se você está vendo o mundo dessa maneira, você vai se transformar nessa jiboia, nessa anta, nessa capivara, eu acho que é um tratamento para essa nossa insegurança do eu não posso deixar de ser eu, do eu não posso abandonar-me a mim mesmo, do eu não posso me perder, do eu tenho que me impor ao outro. Eu tenho que me impor a mim mesmo. Não precisamos mais desse complemento, desse suplemento metapsicológico, o estádio do espelho. Quando você vir uma capivara, pergunte-se se não é uma delas. Uma lição meio óbvia na qual a psicanálise insiste é que existem muitas formas de existir, e mesmo as coisas que não existem interferem na definição do que somos. Podemos existir em ausência, podemos existir em potência, podemos existir como objetos ou como sujeitos.”
― Eu só existo no olhar do outro?
― Eu só existo no olhar do outro?
“regra de ouro, é, portanto, não levar demasiadamente a sério sua própria loucura, guardá-la com carinho é suficiente.”
― Uma biografia da depressão
― Uma biografia da depressão
“A pulsão, na prática da escuta, está mais próxima da montagem e desmontagem fílmica. Boa parte de seu manejo consistiria em operar, sobre uma mesa de dissecação da linguagem, descontinuidades, hiatos e cortes, bem como suturas, reconexões e laços. Percebe-se assim que toda interpretação é histórica , no sentido de que articula como uma unidade um conjunto heterogêneo de temporalidades, referidas por exemplo à repetição, às recordações, à transferência e ao fantasma como sistema memorial de linguagem, sujeito e corpo.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“Finalmente, do grupo de Bataille, no qual Blanchot se forma, Lacan retira uma maneira alternativa e disruptiva de olhar para as ciências humanas. Ao repetir a estratégia barroca de fazer uma ciência sobre aquilo que a ciência moderna exclui para poder se constituir como método e programa de investigação, Bataille propõe a noção de heterologia como um tipo de antropologia baseada no estudo do que uma sociedade teve que excluir e negar para se constituir como tal. Essa parte exilada, da qual não conseguimos nem nos separar e que tampouco conseguimos integrar, será chamada de parte maldita, embrião do futuro conceito de objeto a em Lacan.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“A explicação conceitual do discurso de Lacan é importante, mas sem um trabalho sobre seu estilo ela se torna inútil ou simplesmente aberta a usos e abusos arbitrários. O estilo de Lacan envolve uma espécie de sedução que pode alienar, nos fazendo imitar aquilo de que não conseguimos nos apropriar, mas também nos separar do que está sendo dito. Entre o comentário e a interpretação situa-se uma terceira posição, que reúne o estilo de Freud ao de Lacan: a atitude de pesquisa. É por meio dela que a psicanálise pode avançar para seu próprio tempo — seja pela atualização de suas questões, seja pelo reconhecimento da mutação histórica das formas de sofrimento que ela trata, seja pelas descobertas que afetam seus conceitos e fundamentos.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“Ficar longe dos ambientes tóxicos e evitar gatilhos são duas maneiras de controlar a transposição de afetos por meio de sentimentos sociais homogêneos, vigiados e harmônicos, ao modo de paisagens internas e externas de condomínios artificiais. Ocorre que discursos protetivos como esses nos protegem também da angústia que cerca o desencadeamento ou o gatilho amoroso, que é igualmente imprevisível, surpreendente, perigoso e indutor de afetos incontroláveis. Por outro lado, seria difícil pensar em uma forma de vida amorosa sem momentos tóxicos, que envolvessem desavenças, infortúnios, repetições de equívocos e mal-entendidos.”
― A arte de amar
― A arte de amar
“Mas há uma diferença substancial entre Joyce e Lacan. O irlandês se interessava vivamente pelas línguas, tendo sido professor de diversos idiomas em muitos lugares. Para Lacan a fala e a linguagem, o discurso e a escrita são noções muito mais importantes do que a língua, considerada em sua especificidade cultural, histórica e diacrônica. Talvez esse tenha sido o enfrentamento final de Lacan com a linguagem. Depois de começar pela fala, seguir para o enunciado e a enunciação, dali para o discurso e para escrita, ele finalmente se deparou com o problema local e particular da língua, ou melhor, das línguas. Não seria por outro motivo que o conceito emergente e representativo desse período da obra de Lacan é lalangue , alíngua, cujo par e parceiro não é o eu que fala nem o sujeito como efeito de linguagem e posição de discurso, mas o parlêtre , o falasser.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“Quando o apaixonado é tomado por uma “sensação de verdade”, ele intui a plena realização de seu desejo. Diante do abismo, ou seja, “lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação”, ele vê todos que o cercam situados diante de sua paixão. A paixão demanda provas de amor, signos estáveis e seguros de que não estamos sozinhos. As palavras do amado repercutem em alto volume na alma do amante. O apaixonado sente-se raptado e errante, querendo possuir o impossível. Nunca acreditamos demasiadamente no amor que o outro nos dispensa. Por isso o apaixonado vive entre a nuvem do mau humor e a noite do desespero. A espera, o mutismo, a incerteza da resposta fazem de todo apaixonado um louco em potencial. O sintoma mais comum é a loquela, ou seja, diálogos imaginários sem fim com e contra aquele que se ama. Frequentemente tem ideações suicidas apenas para imaginar a falta que causaria àquele que ama. Ele recorre a informantes, cria ciúmes como cenas de amor, fica vulnerável a fofocas, sente-se ofendido por pequenas faltas do amado. Como resposta ao tormento da paixão, o sujeito começa a transformar afetos, emoções e sentimentos em uma disposição amorosa para a transformação social. Escreve cartas de amor, nas quais admite que pode existir ausência entre eles, além de esconder seus sentimentos e criar filosofias sobre o caráter inexprimível do que sente. Transforma sua desrealização e despersonalização em romances ficcionais. Negocia sua dependência a ponto de circunscrever o acontecimento amoroso e finalmente se perguntar: o que fazer com essa paixão?”
― A arte de amar
― A arte de amar
“O leitor ideal de Freud e o de Lacan não poderiam ser mais diferentes. Freud emprega recursos textuais caridosos, dialoga com interlocutores conjecturais e frequentemente chama o leitor como se estivesse em uma conversa. Lacan, ao contrário, conta com um leitor ideal que se comporta como um ouvinte extasiado, que se deixa levar por digressões, giros discursivos, ironias e chistes do mestre. Para obter alguma compreensão ele tem que escavar, pedra por pedra, até extrair alguma generosidade do texto. Tudo se passa como se houvesse uma inversão: Freud, o escritor que se dedica à retórica da oralidade; Lacan, o orador que foi sequestrado pela escrita.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“Porque o nosso serviço, o nosso anúncio, o nosso pagamento, pode ser feito integralmente on-line. Aí eu anuncio que sou psicanalista, botânico, zoólogo e faço também massagem astral. Tudo bem, e tá valendo. Daí a pessoa me contacta pelo Instagram, onde eu faço postagens turbulentas e adocicadas. E daí ela faz o tratamento comigo, ela me paga on-line e nunca me viu, posso até usar um nome falso. Cara, isso não é tão comum assim. Quais profissões conseguem ser inteiramente assimiladas em quase todo o seu processo? Nem medicina dá, porque daí o cara tem que ir ao hospital, tem que comprar o remédio, tem que ter uma fórmula. Um engenheiro tem que entregar uma ponte, o cara que trabalha com marketing tem que entregar um negócio, mas o negócio vai para várias mídias e você tem que fazer contratos que garantam a licitude pública… E a gente não tem que fazer nada disso. Eu acho que regulamentar a psicanálise é fria, deixar desse jeito também é fria, quem vai resolver isso?”
― Eu só existo no olhar do outro?
― Eu só existo no olhar do outro?
“O amor, porém, assim como o pecado, envolve atos, palavras e pensamentos, e como todo amor depende de ficção e metáfora, a forma como o praticamos é que levanta problemas. Pensar pode – fantasiar também –, obrigar o outro a participar, não. O problema é que as fantasias têm sede de realidade. Tântalo, Prometeu, Sísifo, as Danaides e os demais acorrentados do reino de Plutão só conseguem beber da água da realidade em fontes narcísicas, em cachoeiras repetitivas e em lagos pantanosos.
Isso sugere uma dificuldade estrutural para toda forma de amor, representando uma tarefa ingrata quando se trata do processo de desamar alguém. A irrealização do amor, sua imanente virtualidade, sua contingência, que inclui o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, continua a acontecer em nossa fantasia. Em outras palavras amamos também o que “poderíamos ter sido”, assim como temos saudade do que “nunca aconteceu”. É nesse sentido que o amor compreende sempre uma fantasia delirante de liberdade. Essa liberdade é pensada aqui não a partir de um limite exterior – independentemente de leis que permitem isto ou aquilo, e proíbem aquilo e aquilo outro –, mas de um limite interior, formado na experiência singular daquela pessoa com o outro amoroso, inclusive nessas diferentes qualificações do amor.”
― A arte de amar
Isso sugere uma dificuldade estrutural para toda forma de amor, representando uma tarefa ingrata quando se trata do processo de desamar alguém. A irrealização do amor, sua imanente virtualidade, sua contingência, que inclui o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, continua a acontecer em nossa fantasia. Em outras palavras amamos também o que “poderíamos ter sido”, assim como temos saudade do que “nunca aconteceu”. É nesse sentido que o amor compreende sempre uma fantasia delirante de liberdade. Essa liberdade é pensada aqui não a partir de um limite exterior – independentemente de leis que permitem isto ou aquilo, e proíbem aquilo e aquilo outro –, mas de um limite interior, formado na experiência singular daquela pessoa com o outro amoroso, inclusive nessas diferentes qualificações do amor.”
― A arte de amar




