Stephanie Borges's Blog
June 24, 2025
charada
maio de 2025seria o jeito de dizer
o que não sei, ou não
consigo, um jeito de sorrir
que o mundo considera intolerável,
um silêncio que só pode ser
desentranhado da linguagem, seria
te mostrar ternura quando faltam
as mãos, respirar quieta diante
do branco que se anuncia no fim
da linha, seria a generosidade
mas delicada de dividir beleza, ou
minha recusa radical de me explicar,
a pergunta fatal da esfinge, o espaço
a ampliar a vida até mais coisa caiba,
até que mais gente chegue,
é minha maneira de espanar, espantar
as palavras, é também a alegria
de chegar ao fim e a escolha
de me calar, especialmente
quando alguém me diz que é dom,
só pode ser um mistério
April 14, 2025
surda e manca
sem pé e sem orelhasobe espuma dos grãos
depois de umas oito horas
no mínimo no molho
é bom também
que as carnes abandonem
a salmoura lentamente, mas
a gente ferventa pra tirar
o excesso da gordura
a gente ferventa pra agilizar
o cozimento, muito louro
e cominho e a pressão
só bota medo em quem
não sabe vigiar o tempo
— nem entender o assobio, há
um silêncio perigoso, há
o chiado esquisito, sinais
de risco, melhor apagar —
mas quando dá certo é a hora
de picar cebola e alho suficiente
pro refogado o arroz a farofa a couve
comprada fininha na feira
vigia a válvula até o vapor
escapar, cuidado a quentura
é cruel, enquanto isso derreter
a manteiga, dourar a farinha,
então fritar cebola e alho picadinhos
derramar uma concha na frigideira
misturar e devolver pra panela e paio
costela lombo carne seca tempero
e tudo se embala na fervura, pimenta
do reino, uma pitadinha de sal
e o caldo engrossa, de água
a boca se enche conforme
o arroz seca, a couve refoga
e suor da boca do fogão
também da gosto, cuidado
não vai queimar a língua
Stephanie Borges abr/2025
[image error]January 27, 2025
Celebração
um poema de Mari Evans
Mari Evans (1923-2017)CelebraçãoTrarei uma pessoa inteira pra você
e você me trará uma pessoa inteira
e teremos o dobro
do amor e de tudo.
Vou trazer um coração inteiro
embora ele tenha uns cortes
amassados e cicatrizes
que só me fazem entregá-lo
com mais cuidado.
E você vai trazer um coração inteiro
meio lascado e enferrujado e que
às vezes descompassa nas batidas, mas
ainda assim tudo o que você traz também é polido
você parece ter a intenção
fazer tudo brilhar.
Cada um de nós vai trazer
a própria canção para embalar
o outro
em entendimentos bondosos
suaves feito a última nota
de coro perdurando
nossa mistura particular.
Trarei alguém inteira pra você
e você me trará alguém inteiro
e seremos duas vezes mais fortes
e seremos duas vezes mais seguros
e teremos o dobro
do amor
e de tudo.
§§§§
CelebrationI will bring you a whole person
and you will bring me a whole person
and we will have us twice as much
of love and everything.
I be bringing a whole heart
and while it do have nicks and
dents and scars,
that only make me lay it down
more careful-like.
An’ you be bringing a whole heart
a little chipped and rusty an’
sometime skip a beat but
still an’ all you bringing polish too
and look like you intend
to make it shine.
And we be bringing, each of us
the music of ourselves to wrap
the other in
Forgiving clarities
soft as a choir’s last
lingering note our
personal blend.
I will bring you someone whole
and you will bring me someone whole
and we be twice as strong
and we be twice as sure
and we will have us twice as much
of love
and everything.
Sobre a autora
Mari Evans (1923–1917) foi uma escritora estadunidente, autoras de livros de poesia, literatura infantil e peças de teatro.
Evans estudou Universidade de Toledo e leccionou em várias outras instituições, como a Universidade Purdue, em Indiana, e a Universidade Cornell, emNova York. Escreveu, produziu e dirigiu durante cinco anos um programa de televisão The Black Experience. Em 1968, publicou sua primeira coletânea de poemas, Where Is All the Music?. Com seu segundo livro, I Am a Black Woman (1970), foi reconhecida como uma das vozes relevantes da poesia negra dos EUA no século 20.
[image error]September 7, 2024
Eurídice
tradução de um poema de Carol Ann Duffy
Jan Brueguel, Orfeo en los infiernos (1594-1600), óleo sobre cobreEurídiceMenina, eu estava morta e enterrada
no submundo, um espectro,
uma sombra do meu antigo eu, perdido no tempo.
Era um lugar onde a linguagem cessou,
um ponto final em negrito, um buraco negro
onde palavras precisam chegar ao fim.
E lá elas se acabavam,
últimas palavras,
célebres ou não,
me caíam perfeitamente bem.
Então me imaginem lá,
indisponível,
fora deste mundo,
então visualize meu rosto naquele lugar
de Eterno Descanso,
num canto onde você pensaria que uma garota estaria a salvo
do tipo de homem que a segue por aí
escrevendo poemas,
rondando à espreita
enquanto ela os lê,
dizendo que ela é sua Musa,
e às vezes emburrado dia e noite
porque ela comentou a queda dele por substantivos abstratos.
Imaginem só a minha cara
Quando escutei —
Ai, Deuses —
aquela batida conhecida nas portas da morte.
Ele.
O Grande O.
Todo extravagante.
Com sua lira
E um poema a declamar, e eu o prêmio a conquistar.
As coisas eram diferentes naquele tempo.
Para os homens, os versados,
O Grande O. era o cara. O Mito.
Recomendações na quarta capa de seus livros anunciavam
que animais,
ao adax à zebra,
se arrebanhavam a seu lado quando ele cantava,
peixes em seus cardumes saltavam
ao som de sua voz,
e mesmo caladas, as pedras teimosas a seus pés
choravam largadas, lágrimas prateadas.
Porra nenhuma. (Datilografei tudo,
eu devia saber)
E dado todo o meu tempo refazendo mais uma vez
preferi garantir que falaria por mim
em vez de ser a Queridíssima, Amada, Dama Obscura, Deusa Branca etc., etc.
Na real, meninas, preferia estar morta.
Mas Deuses são como editores,
geralmente homens,
o que você sabe com certeza da minha história
é o que está no contrato.
Orfeu pavoneou seu palavrório.
Fantasmas exangues foram aos prantos.
Sísifo se sentou na pedra pela primeira vez em anos.
Tântalo pode enfim tomar umas cervejas.
A mulher em questão mal podia acreditar no que ouvia.
Gostando ou não,
devia segui-lo de volta à vida —
Eurídice, a esposa de Orfeu —
para ser confinada nas imagens, metáforas, símiles,
oitavas e sextetos, quadras e dísticos,
elegias, limeriques, vilanelas,
histórias e mitos dele…
Ele foi orientado a jamais olhar pra trás
não se virar,
caminhar com firmeza morro acima,
eu bem atrás dele,
deixando o Submundo
até os ares da superfície, que eram o meu passado.
Ele foi avisado de que
num olhar me perderia
para sempre e todo sempre.
Então andamos e caminhamos,
ninguém deu um pio.
Meninas, esqueçam o que vocês leram.
Aconteceu assim —
fiz tudo o que podia
para que ele olhasse para trás.
O que era preciso, eu disse,
para ele entender que tínhamos terminado?
Eu estava morta. Falecida.
Descansando em Paz. Finada. Defunta.
Com a validade vencida…
Estendi a mão
para tocá-lo uma vez
na nuca.
Por favor, me deixe ficar.
Mas a luz já tinha entristecido de púrpura ao cinza.
Era uma jornada dura morro acima
da morte à vida
e a cada passo
uma tentação para convencê-lo a virar,
Pensava em surrupiar o poema
furtá-lo de sua capa,
quando a inspiração finalmente bateu.
Parei, espantada.
Ele ia um metro à frente.
Minha voz estremeceu quando falei —
Orfeu, seu poema é uma obra-prima,
Adoraria ouvir outra vez…
Ele sorriu com modéstia,
quando se virou,
quando virou e olhou pra mim.
E aí?
Notei que ele não tinha feito a barba.
Acenei uma vez e desapareci.
Os mortos são tão talentosos,
Os vivos caminham à beira de um vasto lago
Tão perto do silêncio afogado e sábio dos mortos.
—
EurydiceGirls, I was dead and down
in the Underworld, a shade,
a shadow of my former self, nowhen.
It was a place where language stopped,
a black full stop, a black hole
where words had to come to an end.
And end they did there,
last words,
famous or not.
It suited me down to the ground.
So imagine me there,
unavailable,
out of this world,
then picture my face in that place
of Eternal Repose,
in the one place you’d think a girl would be safe
from the kind of a man
who follows her round
writing poems,
hovers about
while she reads them,
calls her His Muse,
and once sulked for a night and a day
because she remarked on his weakness for abstract nouns.
Just picture my face
when I heard –
Ye Gods –
a familiar knock-knock-knock at Death’s door.
Him.
Big O.
Larger than life.
With his lyre
and a poem to pitch, with me as the prize.
Things were different back then.
For the men, verse-wise,
Big O was the boy. Legendary.
The blurb on the back of his books claimed
that animals,
aardvark to zebra,
flocked to his side when he sang,
fish leapt in their shoals
at the sound of his voice,
even the mute, sullen stones at his feet
wept wee, silver tears.
Bollocks. (I’d done all the typing myself,
I should know.)
And given my time all over again,
rest assured that I’d rather speak for myself
than be Dearest, Beloved, Dark Lady, White Goddess, etc., etc.
In fact, girls, I’d rather be dead.
But the Gods are like publishers,
usually male,
and what you doubtless know of my tale
is the deal.
Orpheus strutted his stuff.
The bloodless ghosts were in tears.
Sisyphus sat on his rock for the first time in years.
Tantalus was permitted a couple of beers.
The woman in question could scarcely believe her ears.
Like it or not,
I must follow him back to our life –
Eurydice, Orpheus’ wife –
to be trapped in his images, metaphors, similes,
octaves and sextets, quatrains and couplets,
elegies, limericks, villanelles,
histories, myths . . .
He’d been told that he mustn’t look back
or turn round,
but walk steadily upwards,
myself right behind him,
out of the Underworld
into the upper air that for me was the past.
He’d been warned
that one look would lose me
for ever and ever.
So we walked, we walked.
Nobody talked.
Girls, forget what you’ve read.
It happened like this –
I did everything in my power
to make him look back.
What did I have to do, I said,
to make him see we were through?
I was dead. Deceased.
I was Resting in Peace. Passé. Late.
Past my sell-by date . . .
I stretched out my hand
to touch him once
on the back of his neck.
Please let me stay.
But already the light had saddened from purple to grey.
It was an uphill schlep
from death to life
and with every step
I willed him to turn.
I was thinking of filching the poem
out of his cloak,
when inspiration finally struck.
I stopped, thrilled.
He was a yard in front.
My voice shook when I spoke –
Orpheus, your poem’s a masterpiece.
I’d love to hear it again . . .
He was smiling modestly
when he turned,
when he turned and he looked at me.
What else?
I noticed he hadn’t shaved.
I waved once and was gone.
The dead are so talented.
The living walk by the edge of a vast lake
near the wise, drowned silence of the dead.
Carol Ann DuffyCarol Ann Duffy (1955) é poeta, dramaturga e escritora. Nasceu em Glasgow e estudou filosofia na Universidade de Liverpool. Foi editora da revista de poesia Ambit e é crítica literária. Mudou-se de Londres para Manchester em 1996 . No ano 2000 recebeu a bolsa National Endowment for Science, Technology and the Arts. É Diretora Criativa da Escola de Escrita da Universidade Metropolitana de Manchester. Foi Poeta Laureada de 2009 a 2019, sucedendo Andrew Motion.
Em 2012, recebeu o Prêmio PEN/Pinter. Escreve livros ilustrados para crianças e também é uma aclamada dramaturga, com peças representadas no Liverpool Playhouse e no Almeida Theatre, em Londres. Tornou-se Fellow da Royal Society of Literature em 1999.
[image error]June 26, 2024
risco

o perigo não é o amor,
mas sou eu acreditar
no problema de que amar
alguém seria abrir mão
do que me faz fera
criatura faminta pela novidade
da vida e das tantas coisas
que não sei, inclusive amar
essa reinvenção a cada sorriso
e silêncio, a sucessão dos gestos
a criar um refúgio e uma aventura
o risco não está na entrega,
mas no abandono da pele
dos chifres do búfalo capaz
da metamorfose em borboleta
desistir da leveza que dança
e venta longe qualquer presságio
da morte que finda sem recomeço
o perigo nunca é o amor, é se perder
noutra voz que atraia quem
não suporta o banho de chuva,
água nova a encharcar o ciclo
que encontrará dias de secura
mas espera e se renova
o problema está em tentar
ser uma só, que se comporta
seja solta e deixe solto,
ela sussurra em sua brisa,
o amor sabe muito mais do que eu
e numa dança transforma
em flor uma antiga ferida
o perigo é esquecer e querer
se encaixar nas antigas histórias
das chaves manchadas de sangue
pés cortados, línguas decepadas,
mantas de urtiga e um século de sono
só bom se doer, cantou um poeta
que acreditava em finais felizes
mas quem aprende a dançar entende
a sensação é outra, ao se aproximar
do que parece amor é preciso
abandonar a dignidade do sofrer
a chama que transforma exige
esteja pronta pra arder
Stephanie Borges / junho 2024
[image error]March 19, 2024
Gansos selvagens
tradução de um poema de Mary Oliver

Gansos selvagens
Você não tem que ser boa.
Você não tem que caminhar milhares de quilômetros
de joelhos no deserto arrependida.
Você só tem que deixar o animal macio do seu corpo
amar aquilo que ama.
Me fala do desespero, do seu, que eu te conto do meu.
Enquanto isso, o mundo gira.
Enquanto isso o sol e os seixos límpidos da chuva
se movem pelas paisagens
sobre as pradarias e as matas fechadas,
as montanhas e os rios.
Enquanto isso os gansos selvagens, nas alturas do azul do céu,
tomam outra vez o caminho de casa.
Seja lá quem for você, não importa sua solidão,
o mundo se oferece à sua imaginação,
te convoca como os gansos selvagens, áspero e empolgante
de novo e de novo anunciando o seu lugar
na família de todas as coisas.
Mary Oliver
tradução Stephanie Borges
§§§
https://medium.com/media/eaba5258b151f07b72398886c89143e2/hrefWild Geese
You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting -
over and over announcing your place
in the family of things.
August 2, 2023
Stella
Stella do Patrocínio (imagem do arquivo da família)essa história de que
lugar da cabeça é
na cabeça, lugar
do corpo é no corpo
é invenção do povo
que criou hospital
hospício zoológico
prisão e acredita
numa saúde que divide
a pessoa em pedaços
mas quem é feita
do sal da travessia,
de gás puro ar não tem
sossego nem saúde
esse mundo nos adoece
é na tua palavra que se
refaz o reino do teu nome
assim na terra como no céu
jacaré camelo onça tigre leão
na tua fala se refaz o tempo
anterior ao homem batizar
tudo o que é vivo no Éden
antes do pecado imposto
quando éramos lama ali
sem queda e podíamos
comer dormir sonhar
conhecer a saúde
de ser à vontade
agosto/2023
[image error]July 22, 2023
Virginia II

anos até entender
que a estranheza de
“ela mesma
iria comprar as flores”
está na naturalidade
do poder
delegar a alguém
até a escolha da beleza
que enfeita sua casa
quando compro as rosas
para o meu altar
me pergunto, Clarissa
foi a caminhada ou
decisão de escolher
as flores, o que te deu
ânimo, um respiro
haveria um romance
se Mrs. Dalloway
sujasse as mãos nos pactos
necessários para cultivar
um belo arranjo
ponho as rosas
na água gelada e agradeço
imagino se Virginia
sabia das flores
que despertam a alegria
teria Clarissa escapado
de tanta falta de sentido
numa intuição, quem diria
ao comprar ela mesma
as flores fez também
sem saber, um agrado
para sua pombagira
julho/2023
[image error]July 3, 2023
Dionne

carregar no corpo uma porta,
sabendo da impossibilidade
de atravessá-la, encarar
o batente as dobradiças
fechadura, a madeira
e sua textura, o peso nas carnes
ao encarar o espelho sem nunca
ter visto o mar
do Castelo de São Jorge
carregar a aspereza no atrito
da pele com o mundo, farpas
na língua e a certeza de que
essa madeira não presta
de tábua de salvação, talvez
alimente uma fogueira, mas
levaríamos sem querer as cinzas
nas pálpebras pois fomos trazidas
à soleira, ouvimos o não
reverberar eras inteiras
transformamos o eco em canto
e conversamos com nossos mortos
desviar da porta implacável
conhecê-la do vão às lascas
fazer dela a referência que orienta
a fuga, agora, não olha
desmontar em si a porta
e se tornar seu avesso
ler o mundo com as palmas
das mãos criar sentidos nas solas
e com os pés alcançar um percurso
que não é destino
mas todo travessia
Stephanie Borges /junho de 2023
[image error]June 25, 2023
Carolina I

penso no quarto de despejo
e lembro de G.H. tentando
arrumar sozinha a bagunça
do quartinho de empregada
encarar a metamorfose
e perceber a pouca diferença
entre a mulher e a barata
quando alcança a lucidez
mas nem é preciso tanto
para encontrar o sagrado
dentro e sofrer não deveria
ser atalho para o saber
entre nós não há horror
a ser acolhido, sonhamos vestir
retalhos do céu sem dúvida
de pertencer a um mundo todo vivo
sob quanta tralha se esconde
a patroa que só se enxerga fera
e imperfeita quando não há mais
ninguém quem limpe sua sujeira
Stephanie Borges / junho 2023
[image error]Stephanie Borges's Blog
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