Toxinas
Um McRoyal Deluxe com batatas médias e uma imperial. Um Happy Meal, o hambúrguer sem queijo, batatas, água e mais um hambúrguer. Cinco pacotes de ketchup. Nove euros e uns cêntimos. Lá fora faz frio. Cá dentro também. O boneco é um pinguim. Apropriado, o pinguim. Os pequenos dedos da criança enchem-se de ketchup. São pouco mais grossos do que as batatas. Ainda é cedo. Há casais de adolescentes, algumas famílias, pais e mães divorciados com crianças pequenas. Um flagelo, este, das famílias monoparentais com filhos pequenos. É como se os filhos viessem estragar os casamentos. Como se só os casamentos que sobrevivem às crianças pequenas durassem para sempre. Amantes, dos que se encontram em automóveis estacionados na penumbra, um pouco por toda a cidade, sonhando destinos impossíveis, barriga na miséria de tristezas, acercam-se do drive in. Mais hamburguers, mais batatas, mais cafés, mais gelados, mais açucares. Os pinguins estão em quase todas as mesas. Os pinguins caem ao chão. Pais, mães, que já se habituaram a fazer tudo sozinhos, dobram-se sobre os bancos, arrastam as cadeiras, contorcem-se. Um sapato de salto alto dá uma achega no pedaço de plástico. A mão que traz um anel grosso onde outrora poderá ter repousado um amor numa aliança agarra o boneco. A criança pega-lhe. Sorri. Entretém-se a brincar. Olha para o boneco fixamente, vira-o e revira-o. Uma criança que se habituou a entreter-se com o olhar fixo, longe da mãe, para não sentir que ao lado dela lhe faz falta o pai. A mãe olha a criança com olhos que se habituaram a fixá-la para não sentir que ao seu lado falta amor. Existe amor ali. Dos adolescentes, das famílias, dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais. Existe amor nos carros dos amantes, furtivos, que chegam a casa sem fome. – Comi qualquer coisa no trabalho. Estou cansada. Foi um dia longo. Existe amor em estar cansado. No dia longo. Em ter comido qualquer coisa no trabalho. Existe amor em estar de olhos fixos em algo para não ver outra coisa. Amor no frio. E nos pinguins. Em algum momento, penso que com o mesmo dinheiro se podia estar a comer algo mais saudável. Por menos dinheiro, até. Não comida de plástico. Nada cheio de venenos. Coisas saudáveis. Boas para o organismo. Não comida de plástico. Uma alimentação completa. Sem toxinas. Todos os problemas do mundo fossem este. Da comida de plástico. Toxinas? Que se Mcfodam as toxinas.
Published on January 13, 2016 07:53
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