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“É que a minha paixão foi sempre a terra., doutor… O dia mais feliz da minha vida foi aquele em que despi a toga para envergar uma andaina de lavrador, herdada de meu pai. Digo-lho como quem se confessa. Digo-lho para alívio do meu tormento, que é insuportável.
[…] Oh! Não se ria do meu amor à terra. É amor como qualquer outro. A terra é feminina. Confundi-a com minha mãe, seria capaz de a confundir com mulher por quem me apaixonasse. Portanto, doutor, não se ria…”
― Montes Pintados
[…] Oh! Não se ria do meu amor à terra. É amor como qualquer outro. A terra é feminina. Confundi-a com minha mãe, seria capaz de a confundir com mulher por quem me apaixonasse. Portanto, doutor, não se ria…”
― Montes Pintados
“Era uma vez um pequeno povo de camponeses, pescadores, mesteirais modestos, negociantes e terra-tenentes fixado no extremo ocidental da Europa, onde a terra se acaba e o mar começa.”
― Temas de Cultura Portuguesa II
― Temas de Cultura Portuguesa II
“li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega”
― A Faca Não Corta O Fogo
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega”
― A Faca Não Corta O Fogo
“Olha mais uma vez Traça de cor
o mapa desse rosto as suas linhas
tatuadas no vento À tua espera
o seu meio-sorriso iluminando
corações como o teu
esses olhos translúcidos a boca
que também tu beijaste e que hoje ainda
floresce no teu sangue É outro o mesmo
rosto
refém do tempo e no entanto igual
ao da primeira noite ao da primeira
esfinge O seu enigma
está cada vez mais perto cada vez
mais longe”
― Manual de Cardiologia
o mapa desse rosto as suas linhas
tatuadas no vento À tua espera
o seu meio-sorriso iluminando
corações como o teu
esses olhos translúcidos a boca
que também tu beijaste e que hoje ainda
floresce no teu sangue É outro o mesmo
rosto
refém do tempo e no entanto igual
ao da primeira noite ao da primeira
esfinge O seu enigma
está cada vez mais perto cada vez
mais longe”
― Manual de Cardiologia
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