O que mais podia desejar? Tinha três refeições por dia, a companhia dos bichos e a onipresença de Nosso Senhor.
“In the struggle between yourself and the world, side with the world”
― Here I Am
― Here I Am
“Não podendo salvar a mim e à minha família de sua própria tragicidade — porque nunca me pediram e porque, se o tivessem, eu não teria os meios para isso —, acabei por aspirar a “salvar” pacientes. Gesto pretensioso de quem precisa ser ajudada mais do que imagina, haja vista a fantasia onipotente — e antianalítica — de que haveria um salvador, de que haveria salvação para a vida. Foi meu segundo analista, winnicottiano, que muito habilmente apontou a falácia de sentir dó do outro. Quando lembro a merda na qual eu estava afundada enquanto me arvorava no lugar de quem salva, sinto um misto de constrangimento pela empáfia e gratidão por ele ter me ajudado a desmontar essa boneca de Olinda da minha autoimagem: inflacionada, frágil e oca.
Não que não houvesse força e capacidade em mim, mas eu apostava minhas fichas justamente naquilo que mais nos empalidece diante da vida: negação do desamparo que é comum a todos, que é estrutural e que, portanto, ninguém elimina de si, tampouco do outro. Meu analista não estava lá para me dar palavras de incentivo ou inflar meu ego, ao contrário, ele me convidava, com seu silêncio, a perder o medo de encarar o que eu mais temia: meu desamparo, outro nome da castração. Quanto antes eu pudesse encará-lo, melhor enfrentaria os perrengues da vida. Mas demorou.”
― Análise
Não que não houvesse força e capacidade em mim, mas eu apostava minhas fichas justamente naquilo que mais nos empalidece diante da vida: negação do desamparo que é comum a todos, que é estrutural e que, portanto, ninguém elimina de si, tampouco do outro. Meu analista não estava lá para me dar palavras de incentivo ou inflar meu ego, ao contrário, ele me convidava, com seu silêncio, a perder o medo de encarar o que eu mais temia: meu desamparo, outro nome da castração. Quanto antes eu pudesse encará-lo, melhor enfrentaria os perrengues da vida. Mas demorou.”
― Análise
“Qual a sua parte naquilo de que você se queixa? Qual o gozo que sustenta o seu sintoma? O que insiste em querer gozar/sofrer ali mesmo onde você se queixa? As interpretações/cortes não apareciam como frases eloquentes ou perguntas elaboradas, podiam ser um “Ah! Tá!”, uma risada ou um silêncio sepulcral seguido da abertura da porta. Às vezes, uma afirmação desconcertante e teatral: “Não é isso!”. Uma intervenção que encerrava a sessão num ponto em que você se via obrigado a analisar o que havia dito sem muita reflexão. A interrupção era tão sutil quanto a antiga expressão “A porta da rua é a serventia da casa”.
A analista regia a cadência da fala, os silêncios, as intervenções, levando a um desfecho preciso que lembrava a estrutura de um conto. Concisão e precisão fundamentais para que o efeito pudesse ocorrer entre as sessões. Assim como apenas o ponto-final de um texto literário — tão esperado quanto temido — é capaz de nos fazer recuperar tudo o que foi dito até então e de nos fazer estremecer. Se o livro cumpre sua função, permanecemos arrebatados ao virar a última página, precisando de um tempo para que a transmissão de algo novo possa ocorrer.”
― Análise
A analista regia a cadência da fala, os silêncios, as intervenções, levando a um desfecho preciso que lembrava a estrutura de um conto. Concisão e precisão fundamentais para que o efeito pudesse ocorrer entre as sessões. Assim como apenas o ponto-final de um texto literário — tão esperado quanto temido — é capaz de nos fazer recuperar tudo o que foi dito até então e de nos fazer estremecer. Se o livro cumpre sua função, permanecemos arrebatados ao virar a última página, precisando de um tempo para que a transmissão de algo novo possa ocorrer.”
― Análise
“I walked seven circles around you when we got married. I can't even find you now.”
― Here I Am
― Here I Am
“It was the feeling of not wanting to live in the world, even if it was the only place to live.”
― Here I Am
― Here I Am
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