Lara

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Se um viajante nu...
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Manolito Gafotas
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  (page 28 of 192)
May 28, 2023 10:57AM

 
Porquê Ler os Clá...
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“O solo era arenoso, um céspede brilhante e líquido brotava entre as raízes do tojo, e nada mais comovente para Amélia do que o ruído dos passos que pisavam a agulha seca, a gorda folhagem da chorina, a açucarada contextura da areia pálida e húmida. Ela marchava devagar, com o seu ligeiro pisar, próprio das pessoas a quem o movimento assusta e que vivem sedentariamente; era a segunda vez que andava sozinha no pinhal circundado por esteios de pedra onde se prendia velho arame farpado; e, como acontece com as mulheres caprichosas, gostava de contemplar‑se no seu retrato bucólico e triste, guardando, porém, no fundo do coração, a certeza duma breve comédia e dum desfrute da natureza sem qualquer convicção. Quando se extrai uma surpresa duma insignificância, isso equivale a receber uma lição gratuita aparentemente, mas em cujo acaso não se acredita. Tal é a alma do homem — duvida sempre da simplicidade dos factos sucedidos no âmbito do seu próprio ser; o natural não acontece senão no reino bruto, a razão não nos incita ao que é natural, mas ao que é possível.”
Augustina Bessa Luis

Agustina Bessa-Luís
“Há tipos extraordinários sob roupagens subtraídas a mitos vulgares. Parecem destinar-se à opulência, desenvolver-se ao sabor das experiências, revestir-se das forças mais complexas, e afinal não se moveram um passo dos berços, não deixaram de segurar a mão terrível da mãe, e de esperar uma revelação que não é deste mundo. Paramentam-se com os belos trapos, aspiram e rejeitam todas as oportunidads, sugam o sangue dos amantes, endividam-se com a morte, rivalizam com uma geração inteira de vencedores, de inveções, planos, paisagens e conflitos geniais. Um dia são surpreendidos por um estranho medo, começam a sentir a fobia dos recintos fechados, a ter convulsões e agonias, a querer ver gente reunida e a julgar-se perseguidos ou que os inoram propositadamente. Não são capazes de passar uma hora sozinhos, de meditar sobre um livro, ainda que o recitem de cor; procuram os excitantes e preferem as companhias ruidosas, não são amigos de ninguém, são espectadores de toda a gente. Certo dia estão cadavéricos e prostrados, com rugas precoces e olhos fundos, outras vezes apresentam-se cheios duma mocidade impertinente, afrontando até as razões do coração com uma espécie de vandalismo insuportável. Esta irregularidade marca em geral o princípio duma neurastenia, e em breve se desenha um surto de razoabilidade, parecem de repente as pessoas mais coerenttes do mundo, aprofundam a alma, voltam-se para as coisas superiores, abeiram-se dos problemas sérios, discutem sociologia e política. Mas ainda isso é uma farsa; apenas buscam alimento para o tédio, para a doença da vontade, para o tremendo desencontro que têm de viver entre a sua inaptidão natural e a exigência duma sociedade em que estão sempre intrusos. Essa ideia de serem intrusos na família, na profissão, nos contactos humanos, acompanha-os por toda parte. Vivem num estado de alarme contínuo, encolerizam-se quando deviam ser fleumáticos, mostram-se passivos quando deviam reagir com energia; não têm nunca apetite e percorrem cem quilómetros para comer um bife requentado num ambiente exótico ou numa sala cheia de lacaios fardados; não gostam de música e envolvem-se em ruídos enervantes, em sinfonias caricaturais; não amam a boémia nem o vino e embriagam-se por intolerância de si mesmos.”
Agustina Bessa-Luís, O Sermão do Fogo

Agustina Bessa-Luís
“Deveras não tinha queixas dos amos e não era movida pela cupidez ou a leviandade; era possuída dum vício que seria dominante do seu carácter pela vida fora, aquilo que determinaria a sua vocação, a sua fortuna, e havia de muitas vezes atrair-lhe a fama de ingrata e de coração árido, essa paixão, esse grave apetite da alma era a insatisfação de todo o convívio, o que fazia despertar nela uma espécie de desprezo pelas regalias obtidas, pelos amigos e fidelidades fixas, pela estabilidade sentimental e as razões de bom proveito, Mal a rotina lhe aparecia com a sua nitidez de paredes conhecidas e gente sem segredos, ela entrava em crise, projectava fugas, intrigava pela liberdade; no príncipio davam crédito aos seus lamentos algo alucinados, auxiliavam-na e ouviam-na com uma estupefacção maravilhada, depois abandonavam-na um tanto ao seu capricho de viver sempre na folga de todas as dedicações, no desprendimento de todas as forças que constrangessem a sua vontade e a sua boémia de coração.”
Agustina Bessa-Luís, O Sermão do Fogo

Italo Calvino
“Agora deveria reescrever todo o artigo tornando bem claro que os clássicos servem para compreender quem somos e aonde chegámos e por isso os italianos são indispensáveis precisamente para os compararmos com os estrangeiros, e os estrangeiros são indispensáveis precisamente para
os compararmos com os italianos.
Depois deveria reescrevê-lo mais uma vez para não se pensar que os clássicos devem ser lidos porque “servem” para alguma coisa. A única razão que se pode aduzir é que ler os clássicos é melhor que não ler os clássicos.
E se alguém objetar que não vale a pena ter tanto trabalho, citarei Cioran (não é um clássico, pelo menos por agora, mas sim um pensador contemporâneo que só neste momento se começa a traduzir em Itália): “Enquanto lhe preparavam a cicuta, Sócrates pôs-se a aprender uma ária na flauta. “Para que te servirá?” perguntaram-lhe.
“Para saber esta ária antes de morrer””.”
Italo Calvino, Why Read the Classics?

Agustina Bessa-Luís
“Quem era Amélia? Analisemo-la agora que ela se retira cautelosamente e cheia de apuro para não alarmar mais o maçarico já rodeado de sombras. Uma mulher que a idade ia tornando quase corpulenta, com essa tez fina e ainda transparente própria da virtudade premeditada; ia cumprir sessenta anos, e peço aqui que compreendam esta preferÊncia por uma personagem que não interessa insistentemente senão o seu dentista, mas, antes do meio século, meus amigos, ninguém tem história. A história duma mulher galante, dum político, dum artista ou até dum homem comum é, acima de tudo, a história da sua consciência, movida não só por circunstâncias, mas também pela sua realidade como ente de memória, como testemunha. Aos quinze anos tem-se um futuro, aos vinte e cinco um problema, aos quarenta uma experiência; mas antes dem eio século não se tem verdadeiramente uma história. Esta mulher, Amélia, que se retira cautelosamente da sua bouça de pinheiros para não perturbar mais a ave aninhada na areia, tinha chegado a uma estranha instância de espírito: o temor de que se pervertesse a sua lucidez. O contacto com o medíocre engendra a má fé, mas o convívio com o que é simples estimula a paciência.”
Agustina Bessa-Luís, O Sermão do Fogo

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