“O estendal ficava nas traseiras da casa, àquela hora era já completamente escuro, e o meu coração batia com a força dum martelo dentro do peito. Contudo, superando o medo, corria na direcção da luz, e vinha colocar-me perto da porta do compartimento onde o tio estivesse. Mas não entrava, só espreitava, esperando uma nova ocasião de ver sem ser vista. Aliás, não era preciso esconder-me, pois a certa altura eu tinha sido tomada da certeza de que o tio Fernando, mesmo que se esforçasse e me quisesse recompensar com uma palavra que fosse, não poderia fazê-lo, porque não me via. A minha dúvida consistia apenas em saber se lhe era opaca como a porta ou transparente como o ar.”
― A Instrumentalina
― A Instrumentalina
“Mas há noites em que o marido não chega às sete, nem às oito, nem às nove. E se não chegar às dez, ela sabe que não chegará senão de madrugada. É por isso que a hora crucial da vida da porteira acontece entre as cinco e as sete. É dentro desses minutos decisivos da tarde que se dita o dia e a noite da porteira. A porteira aos cinco para as cinco acende a vela, põe as mãos pedindo que ele chegue antes do jantar. Uma maçada se ele só vier de madrugada. Já ela o ouve tocar, depois de subir, abrir a porta do elevador com dificuldade, sair de lá lentamente com o pé rígido, e depois a chave começa a cair junto da porta, sente levantá-la do chão, deve estar a revolver a chave, até que por fim ele a enfia, a roda, a desprende, a saca, fica dentro de casa e a casa se enche do seu hálito até às bacias e às janelas. Tropeça no sofá da saleta e chama
- Lúcia! Ó Lúcia!”
― Marido e Outros Contos
- Lúcia! Ó Lúcia!”
― Marido e Outros Contos
“E tudo o que esteve grávido de futuro ficou, de repente, envenenado de passado.”
― A sombra do que fomos
― A sombra do que fomos
“Faltam-lhe ideias – pensou – mas por enquanto não lhe fazem falta: está apaixonado.”
― O Senhor Calvino
― O Senhor Calvino
“Primeiro havia abalado um, depois outro e por fim os últimos dois, espalhando-se pelos vários cantos da Terra como se fossem inimigos, que não eram. Eles mesmos tinham vindo trazer para a casa comum do pai as jovens mulheres que deixavam, com suas arcas, crianças e fogões. Como nós três - éramos dois irmão - havíamos sido os últimos a chegar, tínhamos ocupado o quarto de abóbada, o que dava para trás, o mais sombrio. Mas havia quem dormisse nos corredores e sítios desvãos duma casa grande demais para se viver. E nesse ambiente de meninos e mulheres, exercendo o seu magistério de homem director, inválido, sentado numa cadeira de imóvel, desesperava o meu avô. A menos que mandasse chamar o filho mais novo, aquele que depois, para sua arrelia, havia de riscar a poeira das estradas, a correr, a correr na sua Instrumentalina.”
― A Instrumentalina
― A Instrumentalina
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