Luís’s Reviews > O Susto > Status Update
Luís
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(...) Para passar mais rapidamente na barca dos mortos, pouco fiada nas rezas dos que lhe haviam de empecer a memória, Eusébia cosera na saia duas moedas, acreditando ou não nos antigos usos. "Se eu aparecer com um jaqué de folho, branco, olhe que sou eu. Tinha assim um quando era rapariga" - disse uma vez a José Maria. Nunca lhe apareceu.
— Jan 25, 2026 12:21AM
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Luís’s Previous Updates
Luís
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Calou-se o poeta, reprimindo a respiração para que Janos não visse quanto ele estava cansado e como lhe custara tanto falar. Mas Janos não viu; Janos disse simplesmente: «Nunca tinha visto a questão dessa maneira», mas a verdade é que não tinha compreendido nada. A sua dificuldade em entender a língua tornava tudo para ele mais obscuro e mais desligado. (...)
— Jan 25, 2026 11:03AM
Luís
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(...) «Ladrões... Ladrões!...» Dona Corina dizia que ela tinha pacto com Satanás e dormia de noite com uma luz de azeite pedindo que a apagassem logo que caísse no sono. «Enquanto durmo, não me tenta o demo; não estou para gastos inúteis», costumava explicar.
— Jan 25, 2026 07:16AM
Luís
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(...) Ela trouxe-lhe as primeiras glórias. Como nessas promessas do pobre que se amortalham em vida para se apresentarem como corpo que se humilha ao favor dum deus omnipotente, assim José Maria conduziria, em espírito e forma presente, o seu próprio funeral, o seu cortejo lírico e peregrino. Seria assim, até ao último canto.
— Jan 24, 2026 09:14AM
Luís
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(...) Ah, José Maria, cão que uivas como as naus de Tiro que perderam o seu embarcadouro, voa solitário em torno da tua sombra até que ela em ti mesmo se confunda. Ninguém te ouve; Angélica é um ceptro, uma estrela, uma lira, a forma e a exortação que tu lhe deres - mas não o filtro em que repassas gota a gota para as paragens límpidas e finais. Ela não te vê, não te ouve, apenas te pertence.
— Jan 24, 2026 03:19AM
Luís
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(...) Depois, à medida que as coisas adquirissem um sentido fatal e consumado, o poeta ir-se-ia extinguindo. À revelação haveria de suceder a procura, ao conhecimento o saber; ao espírito, para o qual não há nem dimensão nem factos, apenas a inspiração do não-tempo, havia de seguir-se o seu contrário, que é a sujeição ao peso e sombra que julgamos fazer na terra.
— Jan 24, 2026 01:01AM
Luís
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(...) A última. Numa paixão de rasgar e pretender as trevas, numa tentação de não perdoar, numa resignação de ter amor e na náusea de o suportar - a última, a última de tudo, menos que o sabor do vento, que a brecha feita por uma asa no ar, menos que um passo na água dos mares e que um trilo de cigarra, a última, eu entrei nos palácios donde não há regresso, e ali permaneci. E, comigo, ninguém mais.
— Jan 23, 2026 04:35PM

